Prostração

Embebedou-se durante a festa e fez de mim o alvo de sua acidez. Não importava onde eu estivesse ou com quem, fez-me cristo.
Tentei ser cavalheiro. Tentei ser divertido. Afastei-me, fui buscar desconhecidos. Miosótis, no entanto, estava sempre lá, espalhafatosa e cruel.
Tolerei. Achei mesmo que eu merecia todo aquele rancor, se não pela minha fleugma e aparente desenvoltura por entre as gentes, pelos anos intermináveis em que nos conhecemos.
Apesar de nunca termos sido muito próximos, Miosótis e eu sempre dividimos um saudável desdém por reuniões sociais daquele tipo; eu assumidamente, ela secretamente.
Quase antes de eu me despedir e sair à gaulesa, como é meu hábito nesses eventos, ela se jogou aos meus pés, e chorava, para espanto do seu acompanhante.
— Diz que eu não preciso disso.
— Você não precisa disso, querida. Você é mais que isso.
Um abraço mais demorado que o permitido por convenções de bons costumes evitou discursos enormes, algumas sessões de terapia e novas altercações. Haviámos nos perdoado e reconhecido em nossas falhas. Irmanados na obsolescência para flertes, relacionamentos instáveis e obrigações sociais.
Causamos consternação e ciúmes. E já podemos nunca mais nos ver.
Miosótis voltou para o seu par, que me olhava, incrédulo. Procurei a anfitriã, despedi-me e sumi na noite, a beber o frio e ficar só. O frio me basta, hoje.

1 Comments:
seus textos me inspiram
vez ou outra me identifico
em outras, me escondo atrás das tuas palavras
http://www.eporfalaremamor.blogger.com.br
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