Espera no cinema antes do filme

Lugarzinho estranho esse em que se metera. Situaçãozinha…
Nunca antes vira isso: cinema vazio, sozinho, absolutamente sozinho. Velho que era, dava-se conta que nem mesmo o lanterninha para fazer número, já que esses figuras sequer existiam mais.
Lanterninha. Quis ser um deles, quando criança. Lanterninhas assistem aos filmes quantas vezes quiserem; a todos os filmes. Lanterninhas conhecem todo os caminhos dentro do cinema, especialmente com as luzes apagadas. Os mais exibidos guiam as pessoas no escuro — você tem de olhar para ele, não para o caminho — e só ligam a lanterna para lhe mostrar o assento. Sobre-humanos. E fazem questão de deixar isso claro. Ou faziam. Desapareceram no ordoviciano, todos eles.
Não. Hoje somos eu e o projecionista, que a molecada deve achar que também não existe, claro, "deve ser um laptop conectado a um projetor fodão com conexão de dois giga, passando o filme direto do Joox. Esse negócio de projecionista é invenção daquele filme velho, com aquele galã tiozinho, o Clube da Luta."
Lugarzinho estranho, ele volta. O filme é bom, há quase certeza, um quase consenso. Semi-unanimidade. A direção parece mesmo boa. Witty. Just the way he likes it. Há ação e drama, há situações perturbadoras e momentos de tensão. Dizem que há cenas picantes e cenas românticas, mas ele teria de esperar para conferir. O trailer é bom, mas não mostra, apenas insinua. E trailer é uma "indústria" à parte. O trailer tem de ser, certo modo, melhor que o filme, concentrando elementos de seduzir a possível audiência, deixando o sujeito com a impressão de que não pode perder aquele, que deve ser o filme da sua vida.
E o filme pode se mostrar qualquer coisa entre uma vastíssima extensão de merda e uma obra superior a Der Himmel über Berlin. Por trabalhar com filmes, ele acha que já consegue identificar as porcarias pelo trailer. E sabe que esse não é um filme normal. E que não se arrependeria.
Mas os reclames se enfileiram e pospõem o filme.
Situaçãozinha incômoda. Ele se lembra de não haver hora marcada para o início da sessão. Quer levantar-se e ir embora. Mas é curioso. Ficou cismado. E vai ficando na platéia-limbo, assistindo a comerciais sem os ver, pensando em outros filmes, em possíveis cenas desse filme, em ir embora, comer, talvez. Sim, fome.
— Putz! Não comprei pipoca!

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