Estranhamento

O medo daquilo que não é padrão é o medo de si. Toda vez que me comporto do jeito inesperado eu te forço a parar, a escutar, a enxergar. A mim e a você mesma. Toda vez é primeira vez, e a primeira vez dói, às vezes; e a primeira vez dá frio na barriga todavez.
Ao menos assim você aprende a lidar com o medo do diferente, toda vez que me vê agindo dessa maneira pouco ortodoxa, quase impossível, e é o jeito que você encontra de, toda vez, se questionar e perguntar de novo o que é mesmo que você sabe, e se dá conta que eu também não sei de nada, mas que não ligo, e sorri porque isso não me impede de arriscar de novo, e eu te arreganho meu coração todavez.
Mas você se espanta que, afinal, não sou eu que sou assim tão pouco convencional: o mundo é que é todo igual e forjado na mesma matriz gasta e cansada e que só é usada porque ainda é usada e, afinal, por que mudar quando dá para só fingir-se que muda mas se mexe só um pouquinho, na fachada, mas se você realmente escuta é a mesmíssima coisa — aparam-se unhas, muda-se o logo, diz-se "afro-brasileiro" e mantém-se o comportamento arcaico, arcaizante; e têm todos o mesmo olhar bovino. Toda-puta-vez.
Desce aqui, Pequena, e me ajuda a botar fogo nessa trôlha toda, não porque eu estou certo (e não estou), não porque eu quero salvar o mundo (mas quero, você sabe esse tanto), não porque você acha que vai dar certo (ninguém sabe), mas porque você já percebeu que vai ser divertido (ainda que não pareça fácil) e porque você já não consegue olhar para mim sem sentir comichão e sem sentir um medinho. Todavez.

1 Comments:
Diante de toda a minha difildade de expressão nesse baiano sabado chuvoso, é quase uma ofensa nao deixar registrado a minha felicidade em ler essas suas palavras.
Lindo! Parabens( diga-se de passagem auqele verdadeiro, e não aquele desproposital parabens pos-moderno que passa a mao na cabeça do cidadao se mao menos saber do que ele estava a falar)
=*
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