20070723

Fortuito

Fortuito
Essas coisas acontecem sempre que a gente acha que não podem acontecer. Não hoje. Não agora. Não comigo. Não assim. Não com ele. Não aqui.
Não desse jeito.
Quando se tem idade suficiente para errar tanto quanto já errei, parece, tudo isso, o motivo mesmo pelo qual elas acontecem.

Ela almoçava todo dia na rua em que ele morava e nunca haviam se encontrado.
Moravam a duas quadras um do outro e freqüentavam a mesma quitanda e um não sabia da existência do outro.
Fizeram o mesmo trajeto de ônibus por anos e nem uma vez perceberam a presença mútua.
Mas quando um não deveria estar ali, ou o outro atrasou-se, ou quando ele errou o caminho, ou no dia em que ela não foi trabalhar; quando este resolveu demorar-se na padoca e olhar pela janela ou aquele decidiu sair com a amiga, que levaria uma amiga…
Surprise! Oh, não! Como pode?
Não é possível. Não com ela. Não por causa disso. Não depois de tudo. Não esta noite. Não ainda.
Não desse jeito.

Quando se viveu o suficiente para analisar quais dessas dão certo e quais não, e pode-se dizer com arrogância empírica e quase científica que não há lógica ou padrão e que isso vai se repetir sempre que as condições mínimas de risco se acumularem, ou semre que a impossibilidade for maior, parece fútil entender, combater, aborrecer-se.
Porque é o que acontece. E acontece desse jeito.

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