Mesa de jantar sabado a noite com familia

Sentava família bucho no molho de tomate na noite de sábado sem frio sem estrelas de tempo besta plena Lapa plena noite em pleno sábado. A mãe fazia pequenos agrados quase displicentes e o filho lambia beiços e dedos a se fartar na quase penúria de bucho e arroz e água e pão que sabe lá carcamano comer sem pão? Sabe não.
Discursava pai discursos de retidão e sacrifícios que salvariam o mundo e o bucho sacrificado ali olhava e o prato com ovos fritos chamados estalados ou estralados (e era a cisma do moleque) guardava luxos de gemas duras ou gemas moles que a gente devia dar graças por poder escolher: mole ou dura, mas ainda assim ovos fritos lúmpem assumido na água da jarra de plástico-feira. E falava o pai, veemência nipônica.
Aporrinhavam-se irmãs com irmãzices tentando Jó e criançando porque de meninas na pré-adolescência dos anos setenta seria mesmo injusto esperar mais que cutucões mútuos e risos medrosos de pai esgotado por dupla jornada de nunca dar o dinheiro. E seria injusto esperar menos.
Roda olhar na mistura dos rostos e ainda não sabe que a mistura, o bucho, a repentina explosão do pai e os ovos no chão tinham motivo mesmo e não eram os risinhos abafados das irmãs "salientes". A benção do não saber morria ali, aos oito, às oito, um pouco muito cedo demais talvez.
Lágrima de mãe, medo de irmã, coentro, louro, salsinha e as cebolas cuidadosamente separadas no canto do prato. Os ovos no chão.
— Vem, Mari. Vem, Ana. Vamos brincar no quarto.

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