Ponto

Na ponta, no limite, não há diferença: sou igual a qualquer um. E nem sequer é preciso chegar ao refinamento filosófico zen de ocupar o lugar de apenas uma pessoa ao dormir. É mais raso. Sou mais simples.
No final das contas, no frigir dos ovos, você nem é assim tão diferente de qualquer outra. E, dizem por aí, "perde-se um ônibus e logo passa outro."
Mas você insiste em dizer que não sou qualquer um. E sempre digo que você não é igual a nenhuma outra. Algumas coisas, porém, parecem difíceis de admitir. Outras a gente não pode concluir assim.
Aí um diz que o outro não existe. O outro pergunta "como é que pode?" Não sabemos como pode, só sabemos que é. E um desistiu de entender; o outro começa a acreditar.
Belisque-me. Morda-me.
Na soma, no fim do dia, quem dos dois ou qual dos dois acredita no tempo? E são noites e noites tentando se convencer que não, que nunca, que nem mesmo. E tenta, cada um deles, convencer a si, porque sabe que não pode convencer ao outro.
Disfarça o tesão. Esconde o amor. Vida eufemismada.
Quando chega o final, na coda, nada mudou, e um deles repete o discurso ensaiado vinte vezes na sacristia, no confessionário, em frente à menorah, voltado para Meca: que não que não que não que não que.
Não.
Que.
Até quando?

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