20070726

Reviravolta

Reviravolta
— Ah, mas eu falei. E não foi uma vez só.
— É, você falou.
— Mas você não ia ouvir, ia?
— Não, não ia. E não ouvi, né?
— Não, não ouviu. Vocêêê nããão ouviiiuuu, uuu samba queeu lhe trooouxe…
— Besta.
— Sabe o que eu queria saber?
— Hm?
— O que mudou? Porque mudou…
— É, Marlowe, mudou.
— Marlowe. Ha. Adouro.
— Mudou. Aquela conversa no boteco. O boteco do Mutley, lembra? O vira-latas que ficou embaixo da nossa mesa?
— Lembro, claro. Você me fez experimentar Undemberg.
— A bebida do quarto setor.
— Ressaca monster.
— Maricas.
— Fala, minha macha.
— Então. A conversa, os insights de bêbado, os conselhos de Mutley…
Insight de bêbado não tem dono.
— Aí mudou, sabe? Mudou, mudei, joguei fora aqueles preconceitos idiotas.
— Nossa. Mudou mesmo. Quando eu chamei de preconceito quase apanhei.
— Ah, mas eu posso falar, você não.
— Hm-hum.
— Percebi as merdas que andava fazendo, saca? Me arrependi de algumas decisões.
— Ah, pera lá! Você se arrependendo?! Cadê a câmera da pegadinha? Ninguém muda assim depois de um porre. Não sei o que aquele vira-latas te disse, mas o bicho é ninja!
— Tá, você quer confete, ok: foi você, as coisas que você disse, os exemplos que citou. Contando as merdas que você mesmo fez, e as conseqüências, e os motivos. Eu entendi por que você está sozinho e por que eu estou sozinha, e são coisas completamente diferentes, quero dizer, por motivos brutalmente diferentes, e a porra da Manuela não sabe o que está perdendo te desprezando desse jeito.
— A gente tá falando de você. Deixe meus fantasmas fora disso.
— Eu sei, querido, mas eu sou a Manuela numa versão mais bonita.
— E mais loira.
— E mais inteligente. Mas eu fui, ou tenho sido, tão escrota quanto essa vaca.
— Opa, easy, now…
— Vaca. Vaca insensível provinciana imatura preconceituosa de merda!
— …
— Espelho. É foda não saber. eu não sabia.
— Até o Mutley te dizer.
— Cachorrinho esperto.
— Tá, mas, então, você se descobre tão equivocada quanto a Manu, e aí? Terapia? Vai voltar pro Diguinho?
— Hm. Não.
— Que foi?
— …
— Desembucha.
— Então… Eu te amo.
— …!

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