20070707

Saudades, é.

Saudades
O segredo é você não ser mais você e eu deixar de ser eu. Se não for asism, não vai funcionar. Se não for assim, a gente não se larga e isso tudo fica mais difícil. Saudade vem cutucando em horas impróprias, não faz caso da hora ou do filme ou da companhia.
É essa mania de sinceridade a qualquer preço, quase cruel, que não nos deixa muito tempo afastados. Longe de acabar com o encanto, funciona mais como aquelas plaquinhas de desenho animado, no meio do nada em que estamos, apontando para lados diferentes, setas de madeira com inscrições desleixadas:
"Pólo Norte, 21245 km"
"Timbuktu, 12807 km"
"Albuquerque, 6400 km"
"Perigo, 5 m"
Qualquer caminho é possível daqui. E, no cruzamento de mundos, com o sol indiferente nos olhando por enfado, nos damos conta de que "cada escolha, uma renúncia", mas não é bem assim: cada escolha, 837 renúncias, me ouço dizer. E você sorri.
[às vezes, só às vezes, preferiria que você não sorrisse assim]
E, quando você sorri, eu deixo de ser o gato de Schröedinger e sou o gato da Alice. Só para você se divertir e, divertida, escolher um caminho. E, juntos, nos perdermos.
Só quando começamos a andar, de novo, é que eu resolvo contar que podemos também fazer um caminho e que, de verdade, faço isso há anos.
Dá pra ir nadando.
Dá pra gente entrar pelo buraco do coelho.
Dá pra teleportar.
Dá até pra ficar parado.

[Ornette, que subia a árvore para espantar os urubus de desenho animado, que já foi e já voltou, nos olha aborrecido e pergunta se estamos esperando que ele decida por nós, gato abusado]
E rimos.
E você fica ainda mais linda.
E morro de saudades.

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