Volta?

Eu te sorvia o hálito enquanto me aquecia na tua voz, noite fria de julho paulistano quase bom. Nunca suficientemente frio para esquecer.
Eu cosia tuas idéias enquanto meus dedos maculavam tuas costas brancas, lisas, e era uma vastidão de possibilidades de que palavras não davam conta; um deserto impossível de atravessar sem sacrifícios e, decerto, eu não me esqueceria.
Eu desenhava teus sorrisos — ourives —, enquanto vasculhava teus cabelos procurando a nuca onde fariam casa meus dentes. E fizeram eles casa. E me deste teu gozo. E pediram eles pouso. E tos deste sangue. E já não encontramos quem nos diga que te esquecerei.
Eu colhia teus gemidos que brotavam generosamente da noite ainda mais fria em latitudes ainda mais altas e horas ainda mais avançadas. Eu recebia teu desejo resoluto e tuas dúvidas incessantes e amava cada partícula da tua desorientação, enquanto me amavas, mas mentias. E teu gosto, esse não se esquece.

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