Acabou o vinho, qual vai ser o último brinde?

Convidou-o aquela vez mais com a intenção de resolver definitivamente a situação que já se arrastava por muito mais do que deveria. Um jantar simples, salada, massa, nada de carnes hoje. Ele ficara de trazer o vinho. Tinto. Seco. De mesa. Não deveria ficar muito tempo — o jantar, uma conversa e uma definição; o final de uma história que já a exasperava desde há muito.
Abriu a porta e imediatamente odiou aquele sorriso safado. Odiou o fato dele ainda mexer com ela com um mísero olhar. E um sorriso. Deu boa-noite e o fez entrar. Ele trazia duas garrafas em vez de uma. E um saca-rolhas.
— Achei que você poderia não ter. Mas, se já tiver, pode mandar emoldurar.
Emoldurar um saca-rolhas, o filho da puta! Fazê-la rir não estava no script. E com coisas bestas, ainda mais! Comeram. Falaram de trabalho, da banda dela, da pós dele, das eleições, de tatuagens.
— Você continua sendo minha cozinheira predileta.
"E, você, um pulha que continua me enrolando há um ano, e talvez eu seja a idiota completa e fique imaginando coisas." — pensou. Ele já estava alto. Vermelho desde o primeiro copo, ela só percebia quando ele ficava alto porque começava a falar difícil e toda sua cultura enciclopédica invadia a conversa. Bêbado, ele não mais se importava se as pessoas conseguiam acompanhá-lo. Bêbado ele era mais interessante, e mais mala.
— Sem sobremesa? Achei que seria agraciado com aquela maravilha de sorvete-mamão-licor-de-hortelã que você deveria vender ao Les Halles, perdôe a redundância de artigos.
Era a deixa. Não era uma deixa de verdade, mas de alguma forma ela conseguiu começar a falar e a não deixar que ele a interrompesse. Desfilou as frustrações e mágoas de quatro anos de não-relacionamento e de um ano de rompimento imaginário em que qualquer sinal se tornava uma possibilidade e qualquer possibilidade azedava em dor. E a polidez dele, e seus pedidos de desculpas, não ajudavam. E ela era incapaz de se afastar em definitivo. E os outros mocinhos não ajudavam. E ele ajudava menos.
— E você ainda me traz um saca-rolhas, seu filho da puta! E me olha desse jeito safado de quem quer me comer toda puta vez!
Deu-se conta de que também estava bêbada e que devia resolver aquilo, antes que o problema se tornasse sua vida. Talvez já um pouco tarde demais.
— Acabou o vinho. Acho melhor você ir embora. Para sempre. Não quero te ver nunca mais.
— Nunc est bibendum.
— Enfia o latinório e sai da minha casa, por favor. Por favor.
— Um brinde, então.
— Ai, caralhos! Que seja…
— A todas as possibilidades que matamos a cada escolha. Às vidas que não tivemos coragem de viver. E que não as saibamos, jamais.

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