20070824

Bi-articulado, areia movediça

biarticulado
Quando resolveu sair já era tarde. Bem tarde. Amaldiçoou-se por tanta preguiça e por sua capacidade insuperável de procrastinar. Respirou fundo e ajeitou a camisa que escapava da calça. Pegou a maleta e saiu, meio penso. Saiu, por bem de sair.
Fez sinal e o ônibus não parou. Deixou escapar um impropério. Ouviu-se blasfemar e disse outro vitupério, baixando o calão. Baixando até não agüentar ele mesmo a agressividade e dar-se por satsfeito, tendo ofendido a própria natureza da humanidade. E o motorista. E cinco gerações de estirpe duvidosa.
Andou, mesmo não querendo andar, ou antes não querendo chegar, andou. Palmilhou meia cidade na esperança de um infarto, ou um orgasmo. Mas era bem o primeiro que o deveria acossar antes de chegarem os sessenta, antes de cruzar a Rua Direita, antes de morrer afogado em areia movediça ou em mares abissais.
Chegou ao vetusto prédio que abrigava a firma desde há mais de oitenta anos, antes dele nascer. Sentiu uma tontura e achou que não haveria nada de mais se se deitasse ali mesmo, no chão do elevador, porque eram apenas alguns segundos e, afinal, trabalhava ali há trinta e dois anos, o mínimo que lhe deviam eram alguns segundos deitado no chão frio do elevador. Não muito mais do que o tempo de chegar ao vigésimo terceiro andar, convenhamos.
Não se levantou. Não se levantou mais. Decidiu ficar ali para sempre, longe de problemas mundanos que já o aborreciam mais que a gravata, a polaina, as ligas e as suíças. Não se levantou nunca mais.
A firma foi multada em um mil e oitocentos reais por deixar um funcionário morrer assim, em meio ao expediente, sem aviso prévio e sem o consentimento do condomínio. E sorria, o celerado, ainda por cima.

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