Fechado

Barulho de vidro quebrado na noite quase-fria e quase boa de lembranças não tão antigas. Vidro quebrando, quis corrigir, mas já ia o verbo em tempos e flexões que lhe escapavam como os meandros e melindres de mulher tão inescrutável quanto sua fome após ceia lauta, pesada e descabida — ainda mais a essa hora.
Avançada hora de perder a razão sobre escritos ensimesmados de dor e de fantasia regida por crooner negra lindíssima de filme dos anos setenta, infância tão mais longínqua quanto as tremas que insistia em usar, arrancando suspiros espantados de adolescentes alérgicos a anacronismos — escravos e geradores de modas tão cansadas; tão frívolas e tão cansadas.
Giros e giros de catracas e de portas revolvendo, lugares não existentes, não-lugares, espaços de passagem que sempre lhe incomodavam com a súbita consciência do abandono de antigos amores — homem-catraca.
Dois comprimidos de Tylenol, um último gole de rum, o maço de Gitanes, vazio, atirado pela janela, a boca ainda dolorida e toda a breguice do mundo cabendo em dois minutos de texto reescrito em verso de conta telefônica. Busca de alívio passando por interurbanos e DDIs que já não se animava a reclamar.
Acúmulo de erros.
Bloqueio mental, derrocada de tiradas já de graça gasta em roubadas e noites jogadas a quem as quisesse, com quem não se lembrasse, cujos nomes se lhe perdiam sempre, junto à vontade de acertar. A vontade, o nome, as camisinhas, os blocos de concreto fechando entradas e o desprazer de procurar outras roubadas.
Atenção dispensada volte sempre tenha um bom dia aqui não e o resto dos pensamentos descoordenados na adrenada fim-de-noite-lamento a que nem mesmo o sax de mr. Keith Anderson é capaz de dar lógica. Menção de se fazer sentido é especial quando não há mais o que reclamar e a própria sizudez foi misturada ao chá.
Diga seu nome e a cidade de onde está falando.

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