Festa à fantasia

— Segura minha mão. Não, não assim, segura de verdade. Tá bem, finge que quer segurar minha mão, ok?
— TPM?
— Sempre tem a palavra certa, não é, duque Duralumínio.
— Quê?
— Referências que alguém da sua idade não conhece. Personagem de desenho animado. Você está parecido com ele nessa fantasia.
— Ah, tá…
— É, tá.
— Entramos?
— Vamos beber um pouco antes, Duralumínio. Eu não estou suficiantemente anestesiada para agüentar seus amigos. E menos ainda para entrar numa festa à fantasia vestida de Hello Kitty from Hell.
— Tá.
— Pois é. Eu realmente preciso de alguma coisa para beber.
— Serve cerveja?
— Não.
— Vodca?
— Não.
— O que você quer?
— Taí o problema, não é mesmo? O que eu quero? Ninguém sabe. Você certamente não sabe. Eu quero a lua. E quero agora. Vá buscar pra mim.
— Tá.
— … Vamos entrar.
— E a bebida?
— A bebida, a lua, a mãe do Badanha! A loucura, o desespero. À força, com calma, com sofreguidão. Você não vai aprender, eu não sei o que estou fazendo aqui.
— Você não está bem.
— Estou bem, querido. Estou bem, finalmente estou bem. Mas você não está. Você está em algum lugar para o qual eu nunca vou poder voltar. Algum lugar do qual eu fugi há anos. Algum lugar bonito e cheio de nadas. Nowherland, Neverland, um desses. Eu não estou mais aí. Eu fugi há tanto tempo que não sei mais me portar em público e você não percebeu. E a lua não vai chegar até aqui desse jeito. E eu me espanto toda vez que olho para ela. Não importa quantas vezes o faça, eu sempre vou me encantar.
— Não vamos entrar?
— Desculpa, vai você.
— Ah, não. Você não quer ir, então não vai. Meus amigos estão esperando.
— Então entre, Duralumínio, entre. Divirta-se, eu vou para casa.
— Você que sabe.
— Não, eu não sei. E dou graças por não saber. Ou melhor, eu sei de uma ou duas coisas, já.
— Tá.
— Tá. Eu pego um táxi.
Rodou a cidade. Desistiu de beber. A sobriedade era suficientemente estupefaciente para aquela noite. Pagou com cheque. Dormiu em hotel. Acordou ao meio-dia, não foi trabalhar. Ligou se dizendo doente. Não atendeu "Duralumínio". Voltou para casa e arrumou a estante de livros. Não verteu uma lágrima, a não ser quando a lua saiu.

1 Comments:
Dias assim em sequência, acho que não é possível aguentar.
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