20070814

Indizer, desdizer, deixar ser

indizer
Se te pareço doce, tenhais-me por amargo, azedo, antipático e desagradável. Aumento um pouco o ar-condicionado para fazer frio, mais frio que lá fora, e espantar os resquícios de saudades e de vontades que ainda se acumulam por todas as frestas de tacos do apartamento — eu não consigo dar conta do tanto que produzo. Mas me pedistes para mentir e eu faço um esforço, daqui até o fim do ano (natal já chega, guirlanda, cereja e ho-ho-ho), que é asim que se joga agora, embora eu não queria jogar, eu lembro de ter dito isso.
E isso tudo não é matéria para blog.
[ajeita as costas, respira fundo]

Se te pareço forte, tenhais-me por fraco, vil, beócio e obtuso. Aumento um pouco o som, que é para não me ouvir pensando, para não ouvir o coração falhando a cada tum. Tum-tac-tum-tum-pshhhh. É quase um swing para acompanhar o Freddie Hubbard se acabando no CD novo que Ana me fez comprar hoje, depois da tua ligação. A barulheira infernal afasta os achares e os sonhos que eu nem sabia que estavam aí, de dias modorrentos e viagens tão singulares e descobertas incessantes. Nah, eu espero a páscoa de 2009, ano de ir à ilha, a de Páscoa, só para pensar que, se não posso o que quero, querer outras coisas pode ser opção.
Mas nunca será tão bonito, dizem os patetas. Os dois.
[cofia, perde o olhar pela janela]

Se te pareço inverossímil, faze de mim um comum, um ordinário, um mundano, um qualquer. Eu lavo um pouco mais de louça só porque odeio lavar louça. Eu esqueço de escovar os dentes por causa das reuniões depois do almoço. Eu não ligo para dinheiro. Eu adio a rede wireless aqui de casa. Eu mudo de opinião. Eu acredito que pode dar certo e até sou capaz de fazer o esforço de desconstruir sentimentos tão fortes que não me deixam ir dormir quando tenho sono. Mas mentir assim, sem ninguém para ver ou escutar, mentir para o espelho, desdizer juras em mangas de camisa, bebendo chá e esquecendo de amanhã, mentir assim e me convencer de que tudo está bem, olha…
[abaixa a cabeça, desenha um passarinho no moleskine]

Se te pareço um erro, segue em frente. Não liga, não xinga, não chama, não zanga. Eu finjo de morto e me escondo atrás do poste que sei que não esconde nada — como o silêncio chato que queres necessário só porque eu disse que o faria. Mas se acordas do pesadelo e chamas meu nome, se por algum motivo improvável achas um presente que é a minha cara, ouves uma música que te lembra as minhas risadas; se em algum momento teus lábios pedirem minhas imperfeições, teus braços quiserem minhas dúvidas; se por um erro de cálculo pensares em mim, e por um erro do destino acabares dividindo a vida comigo, tímida, linda, feliz e sem nada entender, assim como eu, fecha os olhos e pula comigo. Que levamos pouco ou quase nada ao resto da vida: um amor, dois pares de olhos e a improbabilidade que espantará o mundo.
[sorri]

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