20070818

Interregno

interregno
Preocupava-lhe o que acontecia entre um frame e outro no rolo do filme de cinema. Piscava o mocinho? Suspirava o bandido? Dizia a mocinha um palavrão ou deixava o velho escapar um bocejo? Cada espaço (ou tempo?) entre os vinte e quatro frames era um pedaço do mesmo universo ou um universo próprio em seu direito, cada um deles infinito e em expansão?
Interessava-se pelo comportamento e a própria existência de realidades determinadas pelo observador e pela beleza da coexistência de realidades múltiplas e, acima de tudo, pela possiblidade de própria não-existência contínua, mas discreta, universo piscante e não pulsante, vida e morte coexistindo em ciclos ou à mercê de observadores.
Agradava-lhe a inconsistência de todos os dogmas e todas as teorias e todas as fés e todo o saber não instantâneo e não circunstancial. A fragilidade de certezas e tradições e saberes e do conhecimento acumulado a divertia e fazia dela uma cética bem-humorada.
Queria, portanto, o não-saber de pessoas e lugares e queria descobri-los a cada revisita, mundo eternamente desconhecido, incerteza por princípio: essa certeza se auto-destruirá em cinco segundos.

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