Lápis de cera, peixinho dourado

Acumula o desespero a cada troca de farpas — conto de fadas. É um tango vigoroso que se ensaia sem querer, apesar de vidas tão reais e quase fofas, pois que até nos dão caixas de lápis de cor e lápis de cera — e o fazem com sorrisos e mesuras —, mas a gente, no fundo, é esqusito assim de ficar cheirando os lápis de cera em vez de usá-los no papel, e os mordendo em rampantes de curiosidade para descobrir que ¡saben a rayos!
A gente descobre esse horror compartilhado de ter de usar as cores como querem os homens de bem: o céu, sempre azul; os peixinhos, dourados; a graminha, verde; a rosa, bem, cor-de-rosa. Color by numbers. A gente se enfada de gente. A gente quer mesmo é que as gentes se explodam. Numa terça-feira gorda de carnaval, no less.
E os malditos dos peixinhos dourados, coitados, nunca os vimos dourados. Sempre foram laranjas, daquele day-glo-life-preserver-orange, da cor do chevette velho que seu pai teve e que você odiava. E, de repente, a cor dos peixinhos é a redenção dos mesmos, alheios que são a convenções chatas e preconceitos cunhados pelos mesmos odiosos ultra-arrogantes que nos dão asco. Preconceitos que adotamos por preguiça e, então, nos damos asia.
Queima os coletes salva-vidas comigo, querida, agora que resolvemos ser tubarões e aprendemos a gostar de sangue. Queima o manual de boas maneiras, queima a porra da floresta amazônica e todo "panda imbecil que não trepa para salvar a própria espécie."
Ou volta a jogar sudoku e ouvir muzak e saber tanto e ter tantas certezas. Eu já não posso mais. E não é de hoje.

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