20070828

Monstros no coletivo

Monstros no coletivo
Fingia que dormitava no ônibus para manter os olhos semi-cerrados e observar o rapaz que sentara ao seu lado e agora bloqueava o acesso outrora livre ao corredor — e se houvesse acidente? O avançado das quase onze horas trazia consigo outra preocupação: o rapaz poderia ser um assaltante.
Abraçou a pasta, que nada continha de valioso, em movimento involuntário. Flexionava o músculo do medo sempre, à menor possibilidade de ameaça. Ou ameaça de possibilidade. Velho hábito, músculo liso.
Empertigou-se na esperança de que sua estatura pudesse intimidar o suspeito, que lia, ou fingia ler, um livro em francês e ouvia qualquer coisa indecifrável pelos fones de ouvido. E anda bem que a ouvia em baixo volume e não lhe imputava aqueles barulhinhos horrendos com os quais todos os utentes, mormente adolescentes, insistiam em inundar os coletivos.
Enternado e gravatoso, apertou mais a pasta ao encontro do peito, uma vez que sua ameaça sequer fora percebida pelo meliante, impassível a fingir ler o Verlaine e, com certeza, a medir os movimentos de Carolíngeo.
Chamava-se Carolíngeo, de fato, "sandices de mamãe que, obviedades não se calam, nomeou meu irmão mais novo Merovíngeo." Esmagava a pasta enquanto puxava a ponta do paletó presa sob o facínora. Pronto, amassara o terno. O terno que acabara, no dia anterior, de buscar ao alfaiate, terno entregue com um sorriso e um "Já está, senhor Carlo, recém cosido." "Cosido e mal-passado", quis retrucar, desgostoso com o erro no seu nome, mas não se sentia em espírito jocoso e, ademais, "não se dá confiança a essa espécie."
Espécie humana.

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