Olhares

Dá-me mais uma vez esses olhares que eu já achava perdidos, ou frutos de eras não vividas e inventadas, porquanto são inventadas todas essas memórias e, de resto, é inventada toda memória.
Então preciso desses olhares sempre e de novo; já que não posso confiar na memória, resolvi acreditar em meus sentidos. Mas dizem os sentidos coisas difíceis de acreditar — e por isso falava dos olhares.
Também teu olhar é de incredulidade. De curiosidade, de súplica, olhar de quem come com os olhos, morde com os olhos, Coríntio de folclore de quadrinhos. Olhar de gazua, desmonta em treze nanossegundos (e, sim, serão sempre treze nanossegundos, unidade cabalística de tempo, de cálculos subatômicos e movimentos diastólicos e processos de derretimento de sorvetes em CNTP), qualquer sólida teoria apoiada em vinte ou mais anos de experiência e reflexão. Assim, de estalo.
Porque parecem tão fáceis, tão simples e naturais esses olhares, que os acredito não-intencionais, mesmo eu já te sabendo succubus. Parecem mesmo espontâneos — mais um desafio à lógica. Olhares-campo-gravitacional, tão fortes que distorcem a realidade, o tempo, o espaço, o dia, os sentidos. A memória.
Agora, aqui parado, mudando ligeiramente o discurso por não querer decidir a grafia de "complexíssimo" e evitando escrever "complessíssimo" mais por efeito sonoro ou visual e para a consternação do mundo e pela diversão de um pequeno cognitive hazard que faz os dias menos aborrecidos; agora, absorto em lembrar teus olhares, defino-os, insight causado pela primeira dose de cafeína do dia, pela obviedade do título no alto da página, do conceito que, afinal, aqui me trouxe e que, muito provavelmente, nos aproximou, gatos curiosos, bichos diferentes, olhares inquietos, uma vez mais: cognitive hazard.
Você me olha, Pequena, e já não importa o real.

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