Paúra

Há que ser dolorosamente honesto, já que aqui chegamos. Honesto a ponto de sova.
Honesto ainda que isso me mate.
Doeu e a segunda amanheceu cinza, stormy monday; doeu e tive de fugir para aquelas luminárias horrorosas por não saber como era possível doer tanto e eu não queria que você visse o tamanho do rombo.
É, deu medo. Foi bem estranho sentir medo dos teus medos. E eu mal conseguia te enxergar por detrás deles. E já cresciam os meus.
Fui embora com pernas emprestadas e o coração fingindo ser meu. O mundo havia acabado e não tornaria a ser habitável até a manhã seguinte. E a manhã seria insuportável.
Arrastou-se, o medo, por dias, e toda luta para mantê-lo em tamanho manuseável era um convite ao desastre.
O que eu não sabia e, certa monta, não esperava, era da lucidez, ou antes da loucura coerente, da ausência de senões, da clareza do jogo. Simples. Leve. Inequívoco.
Bastaram algumas notas, mas era necessário chegar até ali, ir até ao fundo, não ver o caminho, e Claire podia, enfim, devolver-me um rumo.
Um sorriso, era o que bastava. Mas só se fosse você.

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