S.

S. foi o segundo maior sorriso da minha vida. S. sorria com o corpo todo, com olhos verdes e covinhas e ombros e trás-cotovelos e dedos dos pés. S. sorria tão absolutamente que sorria com meus dedos dos pés.
S. foi meu primeiro beijo na boca, e me ensinou desejo. Desejo, fome, insaciedade de corpos e desespero de completude. S. mostrou-me que eu nunca seria inteiro estando sozinho. Ela me fez incompleto quando, inadvertidamente, completou o que eu não sabia defeituoso, e me deixou nesse estado de paixão do qual nunca saí (embora tenha tirado férias por uma ou duas vezes).
Foi S. quem me deu esse lust for life.
Décadas depois, S. tem uma filha e o mesmíssimo sorriso e, se não riu com meus dedos dos pés, foi porque eu desaprendi como se faz. Mas guardei, S., todo o carinho que lhe é por direito, e este tanto você soube.

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