20070809

Som

Som
Era difícil respirar ali, com todas aquelas luzes: refletores, spots difusos, canhões de cores diversas. Canhões de olhos fuzilantes — centenas de holofotes atentos a cada possível gesto, a cada promessa de expressão, a cada ensaio de suspiro. Se ele conseguisse se mexer. Se pudesse respirar.
O silêncio era tal que ele ouvia o zumbido grave dos refletores, não com ouvidos, mas nos ossos: o som que a luz emitia. E era como se a luz fosse tudo o que existisse. Ninguém, enfim, respirava. E a tensão acumulada não tardava em forçar elétrons a trocar de orbitais… Luz.
Algum suor lhe brotava na testa, mas era impossível se mexer agora: tensão, medo, fôlego suspenso, silêncio, luz. E era tanta luz, e consigo o calor, que a gota de suor morria ali, órfã, efêmera, mais insinuada que real e, muito provavelmente, desapercebida pela platéia também suspensa em silêncio.
Um movimento curto, involuntário, imperceptível, ameaça de respiração, e toda a tensão desce ao abdômem, sobe pelas costas, retesa braços e, finalmente, franze-lhe o cenho, narinas dilatadas, respiração interrompida em tempo de não-existência. E todos os demais se apóiam na pureza da luz, apavorados com a possibilidade de qualquer som ou qualquer gesto estilhaçar o silêncio e a própria luz e trazer caos ao mundo.
Nada se move. Nada respira. Nada existe, afinal.
Devagar lhe assoma a vontade de interromper a perfeição daquele universo de vácuo iluminado, estupor contenção paz silêncio pureza tédio morte fim. Fez-se simples, portanto, a escolha: vida ou morte, ordem ou caos, luto ou regozijo.
Deu as costas à platéia atônita, mas por demais acostumada à passividade intrínseca de esperar — spectare — para qualquer manifestação perceptível, e deixa o palco. Para se meter pelo som; para dar-se à fúria; e sentir, uma vez mais, agonia êxtase dor gozo descontrole imperfeição recomeço vida. Ainda que isso signifique seu fim.
Seria mais um.

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