20070811

Typo

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Recolhia os tipos do chão após o empastelamento e notou, primeiro, a ausência dos As. Realmente, o trabalho de minúcia e tédio, quase puramente mecânico, escondeu por horas ao fato que nas caixas alta e baixa ele não colocara sequer um A. Com ou sem til. Com ou sem acento ou crase. Itálico ou redondo, em qualquer corpo e, agora somente lhe ocorria, em qualquer família. Havia perdido todos os As da tipografia inteira e não havia explicação. Não poderiam ter sido os oficiais que ali vieram impedir a impressão dos periódicos libertários, pornográficos ou subversivos — admitamos que a linha editorial da casa pouco ou nada deixava fora dessa lista e provocava dissabores cidade afora.
Não, teria sido impossível que naquela meia-hora de visita truculenta os rinocerontes fardados tivessem separado e levado, imperceptivelmente, todas as letras A. Além do quê, de aparência tão articulada quanto a dos ungulados das savanas de verdade, eles nunca teriam tido idéia tão brilhante. Não, o intuito era apenas adiar por algumas dezenas de horas a publicação de qualquer ataque à Sua Majestade, o Rei, que ali estava a inaugurar chafarizes, ou qualquer reizice equivalente.
Qual fosse o motivo, já lhe dava medo o fato em si: não poderia haver explicação natural para o sumiço cirúrgico e asséptico de todos os As de todas as fontes de todos os corpos de todas as decorações de todas as caixas da tipografia. Era mesmo coisa de abalar sua fé na falta de fé. E o fato de só após quatorze horas recolhendo e separando tipo após tipo que ele houvesse notado o sumiço o dava arrepios.
Enlouquecia, era a única resposta.
Mas chamava-lhe o dever cívico, e as publicações proibidas tinham de sair para que se mantivesse a esperança, para que houvesse liberdade a ser alcançada e heróis que celebrar. E pôs-se a compor a primeira linha daquele que seria um marco da imprensa do país por anos vindouros, um editorial sem letras As, sua melhor manchete.

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