Afastamento

Dias difíceis, dias arrastados. Você tem certeza de que nada que faz é novo, que não produz nada de original. No trabalho, na sua música, tudo são padrões usados, idéias de segunda mão, vida recondicionada. As pessoas se vestem do mesmo jeito, falam em jogral e repudiam diferenças.
Você, uma vez, quis ser igual. Mas sempre procurou se desafiar, ver se essas suas idéias e valores se sustentavam em situações barabaramente diferentes. Você, verdade seja dita, nunca acreditou em CNTP.
Por esses dias tristes e pesados foi que você se deu conta de que chegou aqui andando, e que veio sozinho. Percebeu — e ficou mais triste um pouco —, que ninguém gosta de ser questionado. Poucos, pouquíssimos, admitem a possibilidade de estar errados. Ninguém gosta. Ninguém entretém dúvidas. É mais fácil repetir comportamentos. Mais simples é seguir o condicionamento. Omissão, para essa turba, é aceitável. Desejável.
É durante esses dias cansados e entre esses dias de desespero, que você se decepciona mais um pouco e assiste a amores recauchutados, presta asistência a atitudes requentadas. E é obrigado a pagar por vidas de prateleira. Vidas que têm todas o mesmo sabor de caldo Knorr.
Até a dor é preferível a isso.
Por isso é que você sonha com Pequena, gengibre, entrega, sinceridade.
Saudade.
E dor.

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