20070914

Coleta

coleta
Ouvia o noticiário enquanto reclamava da vida. As contas atrasadas. O carro quebrado de novo. O assalto da noite anterior resultara em surra porque ele não carregava dinheiro consigo. Ainda sentia dores por todo o corpo. E Leninha o deixara em definitivo. E chovia.
Estranhamente, não estava deprimido. Nem mesmo com os indícios de tendência mundial de volta da inflação. Não. Por algum motivo estranho tinha em si uma serenidade de condenado à morte.
Não lavou os pratos do café. Saiu e foi a pé até o metrô. Entrou na estação decidido a visitar, naquele mesmo dia, todas as estações de todas as três linhas da cidade. Teve o cuidado de deixar o celular em casa, desligado.
A cada estação, reconhecimento de campo, estudo de rostos; um papo rápido com um dos seguranças: nome, idade, coleção de histórias. A cada parada, um souvenir — algo tão ordinário que não pudesse representar nada por pura ausência de individualidade. O objeto mais comum, o mundano, o invisível. Um pedaço de qualquer coisa tão desprovido de significado a ponto de em si caber qualquer significado e todas as significações do mundo.
E tudo ele guardava no bolso, e catalogava angústia, saudade, enfado, desespero, sonho, descrença, rim, fígado, baço, piloro e quisto.
Todo o mundo nos bolsos levava, até jogar o mundo todo no lixo. E poder voltar a dormir.

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