20070913

Culpas

culpas
Assumir culpas que não eram suas era sua maneira burra de tentar salvar o mundo. O raciocínio, simplista, era que, uma vez a culpa sendo sua, poderia remediar situações, poderia resolver os problemas. Todos eles. E, o que era ainda melhor, sem depender de outrem.
Era seu segredo — como salvar o mundo. E, em sua visão distorcida, o mundo precisava ser salvo. Por ele. Pior: o mundo queria ser salvo.
Uma vez assumido tal fardo, imediatamente viu justificados seu mau-humor, sua intolerância, sua acidez, seu cansaço. E, milagrosamente, a culpa não era mais sua, era do peso que carregava: fardo, cruz, expiava o mundo dos pecados, salvava almas, beatífico, soberano.
Levou assim a vida por décadas, até que encontrou aquela que não lhe permitia assumir suas culpas. A primeira no curso de uma vida. E se perdeu, perdeu o controle e, uma vez mais, voltou a ser responsável pela própria felicidade. De ninguém mais.
Mas esse fardo era demais.

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