Faixa de pedestres

Compulsão em atravessar a faixa de pedestres era o que acometia madame Eva. Por isso não ia a lugar algum a pé. Para não passar vergonha. Ainda criança, isso começara: assim que lhe foi explicada, no pré-primário, em aula sobre trânsito, a função daquele zebrado nas ruas.
De repente, as plaquinhas coloridas perderam todo seu encanto para seqüência aparentemente desprovida de charme, tiras de tinta branca sobre o asfalto. Preto e branco. Contraste. Ordem. Segurança. Disciplina. Desde então exerciam poderes hipnóticos sobre ela.
Uma vez notada a disfunção por madame Cecília, sua mãe, deixou Eva de andar a pé pela cidade e, quando absolutamente necessário, nunca desacompanhada. A família, oriunda de longa estirpe da oligarquia cafeeira, podia dar-se a esses luxos.
Morreu naquele doze de outubro, paralizada em cima da faixa de pedestres, atropelada pelo táxi que andava em velocidade maior que determinava a prudência em rua tão mirrada e movimentada.
Em seu quarto, as obras completas de Cortázar. Um bilhete do metrô de Paris. Um retrato de Felipe I.

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