20070131

Escaldado

escaldado
Cuidado com o que você deseja.

20070130

O Dyer

Photograph […] can be sensitive to sound as it is to light. Good photographs are there to be listened to as well as looked at; the better the photograph, the more there is to hear. The best jazz photographs are those saturated in the sound of their subject.

E eu pergunto, ao fotografar, can it swing?

Confissão

Confissão
Bem quis este que aqui se prostra, virado para a Meca, que assim não fosse. Mas é forçoso admitir. E, portanto, admitamos e façamos contrição, ajolhemos no milho, açoitemo-nos em praça pública, e tentemos, uma volta mais, purgar tudo isso que não nos permite paz.
Continuam, teus olhos, a chamar-me a cada vez que eu viro a cabeça um pouco mais rápido, mormente para a direita. Aparecem, sem ser chamados, e ofuscam-me. Olhicerúlea, miserere nobis. Apiede-te de nós, sim, que não temos força para resistir-lhe.
Assomam, ainda, os furinhos nas tuas costas. Aqueles detalhes arquitetônicos que têm apenas função estética — e as mais que lhes dava sempre que neles tocava, ou que lhes dou, agora. Não há noite sem que eles me percam, imbecilizado, enlevado, atônito e sem-vergonha.
Destrói-me a curvinha. O canto da boca, a expressão maior da sua inteligência misturada à sua ingenuidade, à sua capacidade aparentemente infinita de sedução, sua tristeza que, parece, só eu vejo, seu desespero charmoso, sua sem-vergonhice contida e paradoxalmente tímida. Essa curvinha tem o péssimo hábito de ir me buscar onde quer que eu me refugie, brincando nos meus sonhos, nos meus desejos e fazendo de mim o mais brega dos mortais.
Então confesso que é provada, empiricamente, essa paixão. Improvavelmente, ela persiste. Incrivelmente, ela não arrefece. E não adianta mais fingir que ela não existe e torcer para ela ir embora sem cobrar, sem tomar o que lhe é de direito. Não. Só me resta orar. Só me resta crer. Só me resta viver, e mais um dia viver. E admitir que é melhor mesmo não falar com você. Porque o preço já passou do que permitiam minhas posses, e eu sempre pago.

20070129

Pidoncho

Pidoncho
No final das contas ando cheio de dedos quando eu queria mesmo era te pedir esse minguado tempo extra que você porventura venha a ter, entre quintas e domingos, ainda que seja de má qualidade e que tenha aroma imitação de morango.
Eu sei que não mereço e que tenho de competir com todas as coisas mais importantes do mundo, assinaladas e averbadas, e eu sendo essa improbabilidade quântica que não se pode prever a velocidade quando se sabe a localização. Nuvem.
Mas eu sei também que basta que você tome ciência de que eu quero, e apenas isso já faz seu dia um pouquinho menos medíocre nessas coisas que têm realmente importância implanilhável. Vês? Meu mundo é cada vez mais implanilhável.
Cada vez menos mensurável.
Então saiba, pelos canais outrossim eleitos competentes, que este recado se auto-destruirá em dez segundos, antes mesmo que você possa dizer desoxirribonucleico e dançar um tango.
É sempre importante dançar um tango. Mais que entender a mensagem.

SMSeando Lorca 3

"La sombra de mi alma
huye por un ocaso de alfabetos,
niebla de libros
y palabras."

mto boa frase...
bjz garoto poliglota =]


(via scrapbook do Orkut)

SMSeando Lorca 2

"La sombra de mi alma
huye por un ocaso de alfabetos,
niebla de libros
y palabras."

Hj o alfabeto com G. Nao de garcia lorca, mas da resposta a todas as aflicoes da alma. Google.

Google não tem alma. É deus ex machina.

Q nao tem alma eu sei, mas ajuda a acabar com as duvidas mundanas da minha.

Oráculo instantâneo: just add water.

SMSeando Lorca 1

"La sombra de mi alma
huye por un ocaso de alfabetos,
niebla de libros
y palabras."

ni tieblas ni caos - borges

Méo portuñol é a justa medida da minha guapequíce.

(via MSN messenger)

20070128

Famélico

Famélico
Não se alimentava bem desde há muito, por vontade e por experimento bio-psicológico. Percebia e registrava suas alterações de humor e de aparência. Tentava entender como aquela vida de Super size me poderia lhe render algum insight que o ajudasse a entender os processos que o levaram até onde estava e, por meio da piora premeditada da situação, entender seus limites e sua natureza.
Cada vez consumia mais e com menos substância, com menos nutrientes. Verdade seja dita, ele não se preocupava mais com o conteúdo, a aparência decidia o menu a cada noite. Após algum tempo, ele deixou de escolher, deixou de ter critério. A primeira coisa que aparecia era boa o suficiente.
Sempre cônscio de estar aviltando a si, ele não via remédio, senão alimentar a compulsão, a única coisa que parecia mexer consigo o suficiente para dar-lhe a ilusão (ou percepção) de estar vivo.
Quanto tempo ele agüentou? Toda uma vida. Todo o arremedo de vida a qual se propôs a experiência.
Hoje, jejua. Mais por fastio que por recomendação médica. Mais por tédio que por vaidade ou princípio.
Água. Ar. E alguma sociabilização.
Famélico.

20070127

Insônia

Insônia
peyote says: You ok?
ketamine says: as good as it cames
peyote says: alguma parte de mim deve ter entendido isso.
ketamine says: e tu? tá bôa?
peyote says: ressaquinha feia, melancolia. má o mêno, sã?
ketamine says: eu passarei 6 meses de minha vida sem o auxílio etílico
ketamine says: Baco tirou férias
ketamine says: Baco's gone
ketamine says: Baco's left the building
ketamine says: já ressaca, eu tive só duas na vida
peyote says: But Baco ain't dead.
peyote says: Good for you!!
ketamine says: e nem mesmo foram os porres maiores: foram as bebidas mais podres, actually
ketamine says: Baco's gonna be back, in style
peyote says: quando a pinga é feita com água ruim, não há o que segure a ressaca.
peyote says: tomou sapupara, or the likes?
ketamine says: nope. tomei já coisas com cheiro de acetona que juravam ser vodca. Olhe, eu sou uma vodca. Me toma! Me toma!
peyote says: sheeit
peyote says: sheeeeit!!
ketamine says: era o que tinha. Tinha o que dava. Dava o que pegava. E Baco subcontratava, eu tenho certeza.
ketamine says: e o frio tava de doer o mocotó
peyote says: cara, sabe que isso mata vários neurônios.
ketamine says: ah, eu matei muitos, e aleijei muitos mais. E humilhei os que não caíram no peão. Não sobrou nenhum normal. Os normais se sentiam diferentes e se suicidavam. Ou fugiam. Desconfio que eles foram parar no meu trato digestivo, por isso ele é tão opinadinho.
peyote says: e eu aqui ia pedir pra você me dar alguns
peyote says: xi
ketamine says: dôo. pode levar. os bichos aqui fazem uma suruba que você não tem idéia
peyote says: se emprestar depois eu devolvo direitim.
ketamine says: dendrito de bêbado não tem dono
ketamine says: nem axônio
peyote says: ;D
peyote says: putz merda ;))))
ketamine says: aí sempre nasce um ou outro, resultado das bacantes
peyote says: hahahahahahah
ketamine says: uns bichinho safado. mas funcionam. mais que minhas válvulas.
peyote says: inda bem que é tudo safado, que aí reproduz. vou ensinar os meus a fazer isso.
ketamine says: sex is gonna save the world. but not in a hippie way
peyote says: naaah. tem que saber pelo menos tomar banho antes.
ketamine says: além do quê, love will tear us apart
peyote says: vige, tá em SMS mode. turn it off!
ketamine says: hahahahahaha
peyote says: night night, cute one.
peyote says: :*
ketamine says: sleep tight

20070126

Coyote

Coyote
Pode deixar na mão. Eu só pareço frágil. No fundo, steady as a drum.
Cola no pião, se tem as manhas. Porque você tem de saber seu CEP, ou seu RAP. De um jeito ou de outro, sem saber de onde você vem, não tem respeito na quebrada.
Mas vem com a bola baixa que se perder a linha, sobra no rolê. Chegou na minha área, baixou o farol, não tem erro. Mão branca não cola. Se você segura sem dar güela, vai ficar de boa, daquele jeito.
E, liga só, eu não durmo na quadrada. É tudo aqui no plá. É, nem desacredita que eu não dô ponto, Jão.
Vida loka é mato, e eu não preciso de pango e pano de elite, vê se me erra.
Meu tempo eu fiz, Joe. Agora é tua vez, sem crescer os olhos, sem reclamar pra ninguém. Porque você sabe que está sozinho no rolê, sempre esteve. Quente é mil grau, e você tem o seu pra cuidar, e tem que provar duas vezes.
E você morreu uma vez. Eu morri três. Three is a charm, e foi quando eu parei de vez.
Firma.
(no, no hay aduana)

20070125

Exercício

Exercício
Se, como você, eu não tivesse amigos, talvez agisse da mesma forma. Não, não; não estou falando desse bando de gente que vai ao boteco com um monte de pessoas e você no meio. Estou falando de amigo, nego.
É. Azar o seu se toda minha condescendência para seu tipo de "pessonha" ficou presa no último engarrafamento do ano. Os que conseguiram chegar foram engolidos no deslizamento do metrô na Linha Amarela. A essa altura do campeonato, não há mais sobreviventes.
Foram acompanhar sua competência no meio do Hades.
Pessoinha mais Nescafé, você!

But Beautiful

But beautifulGeoff Dyer compõe textos curtos baseados no anedotário do mundo do jazz em sua era bebop. Textos sensíveis, delicados, textos de quem é apaixonado pelo assunto.
Duke. Mingus. Webster. Monk…

He carried his loneliness around with him like an instrument case.

Impossível ler sem ouvir músicas do "representado". Impossível ler o livro sem ver reforçada a sensação que assola quase a totalidade das almas com quem convivo — a certeza de ter nascido na época errada.

Um bourbon, agora, cairia bem.

20070124

Tandem

Tandem
Minha cabeça, e a sua não é diferente, fica assim, queimando, incessantemente fazendo conexões, das mais absurdas às mais óbvias, buscando um padrão que faça algum sentido.
Meus medos, iguais aos seus, são insidiosos e cheios de recursos. Quando menos se espera, lá estão, tentando atrapalhar decisões, conclusões, mudanças; trazendo consigo a prostração que tem por bônus o reconfortante tédio das certezas compradas à prazo.
É por isso que não conseguimos deixar de nos falar. Por causa dessa inquietude que acha eco na incongruência do outro.
E quando você se enfurece, eu pisco, para depois ver que não havia motivo, mas não quero achar que o motivo era mesmo eu — isso seria alimentar confusões, que já estão bem fornidas, as is. Melhor seria dizer você está louca. Mas nem mesmo isso.
Mesmo que isso se pareça com a verdade.
Mesmo que não tenha sido eu a pensar nessa hipótese, originalmente.
Não.
Melhor mesmo é esse silêncio de mentira que a gente consegue com muito esforço. Eu só continua achando esforço debalde. Melhor seria trepar.
Mas só depois do carnaval.

20070123

Abstêmio

Abstêmio
A questão que fica é descobrir quais amigos ficarão chatos, uma vez que eu não esteja, digamos, com a percepção alterada. Mais sóbrio, mais discernimento, menos tolerância? Acabarão amizades? Descobrirei cafés ruins?
E a falta de álcool, que nunca fez falta na minha vida, sejamos sérios, é só no encontro do boteco, na mesa do bar. Então acho que é mesmo drama.
Mas a falta de sexo…
Até o carnaval.
Vinte de fevereiro.
Terça-feira gorda.
Vinte e um.
Quarta-feira de cinzas.
E você ainda quer DR sem termos relação que justifique?
Eu não tenho paciência.
Juro que não.

20070122

Prostração

Prostração
O corpo não responde. O cérebro ainda tenta usar o corpo como usava o corpo. O corpo se recusa a responder. O corpo faz menos, cansa mais, reclama, dói. A fragilidade é inegável e a possibilidade de depressão, iminente.
Tento ignorar. Não é mais possível.
Seis meses. Longos anos.

Hesse, bis

Vive demasiadamente faminto e cheio de desejos para um mundo tão singelo, tão cômodo, que se contenta com tão pouco; para o mundo de hoje em dia, que lhe cospe em cima, você tem uma dimensão a mais.

E eu me pego enviando SMSes, do leito do hospital, às duas ou três almas a quem precisava dizer exatamente isso. Ao pequeníssimo clã de pobres coitados de uma dimensão a mais, de um passinho a mais, de um empurrãozinho mútuo.
Amo.

20070121

Incorianas III

O senhorzinho queria me "confortar" com a palavra de deus. Que deus? Ah, o católico, acho, ou cristão, se é que eles fazem distinção.
Mas, no meio do papo, ele solta:

— Eu nasci dois anos depois do meu pai morrer.

E eu não conseguia mais ficar sério.

H.

H.
Ela chegou botando banca. Tinha dezoito anos, na época. Falava mais que a boca e as coisas que falava… Meu relacionamento na época estava indo de mal a pior e eu meio que estava começando a me interessar pela amiga de H.
Acabei desmanchando o namoro porque, afinal, se eu olhava para a outra mocinha, a coisa não andava mesmo bem. E eu achei que ia acabar resolvento o papo com a N. (a amiga). Tolinho.
Assim que ficou sabendo, H. apertou o cerco e não me deixou muita opção. Acabamos na praia por uma semana. Perdi minha virgindade (até então eu só tinha feito e recebido sexo oral; e sexo oral, depois do episódio Lewinsky, bem… Não conta.), perdi o resto de vergonha na cara e perdi o resto do trauma do pau-nipônico. Eu era mestiço mesmo. De italiano, mesmo.
Ao nos despedirmos, no metrô, depois de cinco dias de barba, cabelo e bigode, eu contei à H. que era virgem. Foi quando o acordo prévio, de que aquela viagem não significaria nada caiu. E eu realmente estava era a fim da amiga dela. Mas queria namorar. E o caldo desandou.
Ainda nos falamos umas duas vezes. Não sou pai de nenhum dos dois filhos dela, apesar do susto que ela tentou me pregar, e a amiga hoje mora na minha rua.
H. foi minha professora. Literalmente. Metade do meu prowess é culpa dela. Mulher que gosta e entende do riscado, uma bénção. Grazie, H.

Mais Hesse

Sei que você tem uma amante em algum lugar do mundo, com quem se encontra de seis em seis meses para brigar.

Relacionamentos fáceis são assim. Duas vezes por ano.

20070120

Veritas, vanitas

Veritas, vanitas
Hoje eu disse a você o que eu penso. Ou comecei a dizer a você o que eu penso. Ou disse uma ou duas coisas que eu ainda não havia lhe dito antes, mas que eu pensava — nem foi assim tão dramático.
Você se assustou. Saiu correndo do trabalho, foi até a esquina me ligar. Disse-me, já ao telefone, que não entendia o que mais teria eu para falar, uma vez que eu já havia dito barbaridades e coisas, oh, tão pesadas.
Ora, meu bem, eu tenho de falar nada. Eu não tenho de falar. Eu só disse que você não agüentaria a verdade, como não agüentou o pedacinho de verdade, o que deu tempo de contar.
Você percebe o meu tamanho? Você alguma vez parou, realmente parou para me olhar e sacar que tipo de freak show eu monto, todo dia, para ver o mundo?
Não.
Percebeu que eu tentei te dar? Percebeu o que eu tentei te dar? Não. Você ainda não se deu conta do que perdeu. Tem mais de onde saiu isso, mas não é (mais) para o seu bico.
E é triste, porque você ouve. E isso é difícil hoje em dia. Você ouve, voce se incomoda. Você fica emputecida e vai para casa e pondera. Você perde tempo com essas minhas digressões que mudam no dia seguinte e eu tenho de fazer um esforço para lembrar do que mesmo que eu estava falando naquele dia… Porque você reutiliza na próxima conversa, digerido, assimilado. É bem bacana de ver.

Verdades sabor baunilha. Pamonhas de Piracicaba. Eu tenho muita fé em você e sei que você vai perceber (e eu diria que mesmo sozinha) que são coisas intercambiáveis. E não têm a ver uma com a outra.
Fica já o convite: se quiser se incomodar, apareça. Mas não ache que vai ser fácil. E você já está na idade de levar uns bofetões.

Ainda o Lobo

Pois o que eu odiava mais profundamente e maldizia mais era aquela satisfação, aquela saúde, aquela comodidade, esse otimismo bem-cuidado dos cidadãos, essa educação adiposa e saudável do medíocre, do normal, do acomodado.

E eu, cada vez mais, me afastando da curva. Felicidade para quê?

Tarado

ValentinaHoje, sábado dia 20, o Corrieri della Sera começa a publicar todas as histórias da Valentina, de Crepax, em dezoito volumes. O preço? Um mísero Euro, mais o preço do jornal. Dezoito. Tudo. Em italiano!
E eu ainda moro em São Paulo. E a edição brasileira (que custa R$ 7,00) não traz, obviamente, o livro.
Snif.
Depois vamos poder comprar aqui, mas sabe-se lá a que preço. E não me recordo de nenhum brasiliano morando na Itália, broder, e que fique lá até o final de maio, quando eu, alegremente, pagaria, não dezoito, mas trinta e seis euros pela coleção. Cinqüenta e quatro, se fosse o caso.
Enfim.
Cosa facciamo?…

20070119

Bemol

Bemol
Música é uma combinação arbitrária de ar e tempo. Ar vibrando em freqüências audíveis. Posso divagar e apontar Ballard falando da música ultrassônica, além das freqüências audíveis em seu conto "The Sound-Sweep". Mas é melhor deixar assim, já que estamos aqui fazendo um arremedo de ciência, determinemos logo esse corpus sacripantas, e o mais limitado que pudermos, como bons acadêmicos medíocres, que é para dar menos trabalho e, afinal, eu já tenho os créditos.
Tá, chega de viagem. O tempo vai recortando e limitando essa vibração toda. Determinando a duração da mesma ou a presença metrificada dos silêncios. Eixo ar. Eixo tempo. Determinar essa essência é definir exatamente o que não importa na música. Mais cartesiano e científico, menos música.
Aí música passa a ser uma dessas coisas boas para se definir pelo que não é. Ou para reduzir ao absurdo, ao gosto do freguês. Mas se eu não pude passar essas semanas sem música, e a música era uma das coisas que eu questionei se queria/precisava/era importante, e foi uma das brigas mais difíceis na batalha campal da abnegação, a música acabou por me parecer uma necessidade orgânica. Parelha de água e ar. E comida.
Mais para comida.
E aqui eu poderia começar uma digressão de decênios sobre comida, mas não vou.
Lembro de Scott McCloud definindo arte como o que o homem fazia quando o que fazia não tinha utilidade de sobrevivência, preservação ou reprodução. É inútil, é arte.
Então a música é uma inutilidade fisiológica, por assim dizer.
Cheguei em casa e a primeira coisa que fioz foi colocar um CD para tocar. Sequer liguei o computador ou fui ao banheiro. Duas semanas de hospital e a primeira coisa que eu fiz ao entrar foi colocar um CD do Coltrane (porque era o que estava à mão) para tocar. E sentei no sofá. E deixei a sala se encher de ar e de tempo e meu corpo se encher de alguma coisa que eu não sei o que é, mas que eu estava sentindo falta.
Depois de acabada a segunda música, minha mãe me olhando como se eu fosse um gato de duas cabeças, verde, de bolinhas, fui ao banheiro. Depois tomar água, essas coisas.
But beautiful, não é mesmo? Um agradinho ao esteta que eu nem sabia que morava aqui (e já me acusaram de só namorar meninas lindas).
Música.
Vinus et musica laetificant cor.
E o vinho só no meu aniversário.
E Carinhoso sai de uma tirada, 5 minutos no sofá.
Eu não tenho vergonha. Alguma.

Incorianas II

Há que se admitir a qualidade técnica e cirúrgica da equipe. Senão pelo sucesso da intervenção e pelas estatísticas favoráveis, pelo fato de que os caras conseguiram me abrir sem detonar minha tattoo. Bravíssimo!
Mas eu queria mesmo era contar do senhor, na UTI, que ficava ao meu lado, e que, certa noite (ou madrugada, o tempo na UTI segue uma passagem própria e nunca é noite no sentido de você deveria estar dormindo), começa a gritar, cada vez mais alto, até que algué lhe acuda:
— Ai, meu deus do céu! Ai, eu não agüento! Ai, eu achei que ia melhorar e estou piorando! Ai, que dor na urina! Ai, que dor na urina! Al, alguém me ajude!
Sim. Na urina.
Acordado tanto quanto me era possível com o coquetel na veia, eu torcia para alguém ir logo ver do que se tratava, e desejando sorte para descobrir onde diabos o cara estava com dor. Na bexiga? No rim? No pau? Na uretra?
A primeira a chegar foi a fisioterapeuta. Coitada. Não chegou nem perto de descobrir o motivo, desconfio que por má-vontade mesmo. Fazia o senhorzinho levantar braços e pernas e o sujeito continuava carpindo.
A enfermeira que correu ao auxílio também não fez muito mais que chamar a médica. A médica apalpou, perguntou, achei mesmo que ia mandar falar trintaetrês. Até que chegou a enfermeira mais velha, mais negra, mas grisalha, mais mãe, sei lá. Aquele tipo de enfermeira que te inspira respeito de mãe. Falou duas palavras com o velho e disse:
— Pode urinar, seu Xisipsilon.
— Mas eu vou sujar tudo aqui!
— Não vai não, vai cair tudo nesse baldinho aqui. Põe a mão lá para o senhor ver que tem um tubinho.
— É?…

Pronto. O velho mijou e a farra findou-se. O cara estava há sei lá quanto tempo segurando porque não sabia que estava com sonda (como nós todos, irmanados na prática assistida do toilete). A dor na urina, era em todo o aparato mijatório.
Imagino a cara dele quando tiraram a sonda. Uma das sensações mais esquisitas que já experimentei.

O lobo da estepe

Lobo da estepeTome Hesse.

Ah! lamentavelmente o olhar ia mais fundo ainda, ia além das simples imperfeições e desesperanças de nosso tempo, de nossa espiritualidade, de nossa cultura. Chegava ao coração de toda a humanidade; expressava, num único segundo, toda a dúvida de um pensador, talvez a de um conhecedor da dignidade e sobretudo do sentido da vida humana. Esse olhar dizia: "Veja os macacos que somos! Veja o que é o homem!" E toda a celebridade, toda a inteligência, toda a conquista do espírito, todo o afã para alcançar a sublimidade, a grandeza e o duradouro do humano se esboroavam de repente e não passavam de frívolas momices!

Não sei se por causa de Siddharta, mas eu já conhecia a voz do Hesse. Então esse Lobo foi meio que uma conversa longa com um velho amigo. Ou foi a impressão que me deu. Ou foram os remédios que eu estava tomando no Incor. Ou foi o coração combalido. Enfim. Gostei tanto que acho que vou comprar o original e me forçar a aprender alemão.
O que me abriria um mundo novo. E há Berlim em 2007, reza a lenda. O telefonema de hoje dirá bastante sobre isso.

20070118

Salto

Salto
Há um tempo, questão de anos, não muitos, alguns, eu dizia aos amigos: nenhuma mulher tem mais a altura que tem. A observação era puramente fashionista. Não tinha eu, à época, idéia dos desdobramentos sócio-antropológico-putanhescos da tendência.
Saltos. Cada vez maiores. Dez, quiçá vinte centímetros a mais. E havia aquelas que, já dotadas de belos metroesetentaecinco, abusavam das plataformas.
Do alto dos meus 158cm, eu nunca pude escolher e, tirante duas gloriosas mocinhas, todas as minhas namoradas e ficantes e etecéteras sempre foram maiores que eu. Desde há alguns anos, sempre foram muito maiores.
Mas este último ano, repleto de situações bizarras, situações hilárias, vexatórias e sublimes, mesmo as geniais; neste 2006, eu forcei-me a não barrar experiências (o ano do sejogation). E percebi uma ou duas coisas.
A uma foi a seguinte: não é preciso mais quebrar as pernas de uma mulher. Basta quebrar-lhes o salto.
Explico.
Acostumadas a não mais sair em público sem salto, boa parte das mocinhas interiorizou o fato de ser, de repente, uns quinze centímetros mais alta. Falar com os mocinhos olho no olho. Eu entendo como isso pode ser um ego-boost, um artifício de primeira impressão. Lembrem-se, eu sou muito baixo, quase-anão. E sem a possibilidade de usar plataformas por uma década de diferença de moda, tive de aprender a causar a impressão primeva de outras maneiras. Sim, me fazendo de palhaço também, quando requeria a ocasião — versatilidade é uma das coisas que se aprende quando não se é branco, alto, lindo, rico, essas paradas.
Mas essa coisa de saber o que pega é que acabou me deixando tão tranqüilo com os saltos e as mocinhas e o mundo de repente com trinta centímetros a mais que eu. Acho que é próximo da técnica de pensar, em cima do palco, que a platéia está nua. Todo mundo constrangido, ninguém constrangido. Se bem que é diferente. Acho que acabo sendo, no final do dia, o único que fica à vontade nu.
E não, eu não tenho pau grande.

Incorianas

Foi assim: uma semana antes do natal, mais ou menos, tive um mal-estar e fui fazer exames. Não me deixaram sair. Fiquei internado no Incor fazendo vários outros exames, para sair de lá com cirurgia marcada: 8/1/2007.
E foi o que aconteceu. Troquei a minha válvula aórtica podre por uma novíssima iValve bovina, com direito a bluetooth e tals. Dizia que só funcionava nos States, mas está me servindo bem.
Do dia doze até ontem, dezessete, estive no quarto 6009, esperando a alta, fazendo o bom-moço e comendo até mesmo a comida da tia malcomida. Os russos dizem que não se deve confiar em cozinheiro magro. Nem em nutricionista malcomida, acrescento. Fingi tão bem que me soltaram e agora posso espalhar a maldade pelos sete mares, impune, de coração tunado e menos humano!

Boa parte das reflexões filosóficas e existencialistas ficaram onde pertencem, na vida anterior. Ciclos de 37 anos e meio, veja você. Acho mesmo que a ligação da moça, ontem, teve algo a ver com a possibilidade de dar o caso por encerrado. Mas fujo do assunto. As duas semanas (quase) no hospital.
Além de acabar o Capra e ler o Mishima, tive tempo para um Saramago, um Hesse, um Ballard, um Veríssimo (fil), um Palahniuk e uma coletânea de blogueiros. É. Eu sei. Eu sei o que é tédio. Agora sei. Nunca mais vou reclamar de comprar sapatos com a namorada.

E ficou a sensação de que devo limpar meu corpo de toda aquela comida nutritiva e balanceada de hospital. Porque a comida de hospital é pouco mais que nutritiva e balanceada. Em sua essência, ela é morna e triste. Não chego a culpar as cozinheiras, desconfio que qualquer cozinheiro subordinado a um nutricionista é um pobre miserável que ou odeia sua profissão, ou sofre desesperadamente por não poder exercê-la a contento. Mais que não respeitar os ingredientes, como quereria St. Bourdain, nutricionistas os ignoram solenemente e só os vêem em categorias como carboidratos, proteínas e fibras. Ou algo que o valha.
Desculpe o palavreado.
Mas você deve estar esperando o real motivo da minha revolta, sabendo que eu já comi pior pagando. A ele: a senhoura reduziu minha quota de café para três xícaras diárias.
Três.
Nem uma, nem duas, nunca quatro ou mais de quatro.
Três.
Três tiros de trabuco no reto dessa transcorva.

De resto, passa bem a nação gialla. Convalesço, decerto, mas com firmeza.

Acts of worship

Acts of worship
Sim. Gostei do Mishima.

Being twice as sensitive as other men, and a lover of beauty in the bargain, he probably felt that the times he spent alone with Tsuneko, seated at the very stern of life, were the only times when he could relax: relax in the knowledge that, having no part in beauty, he was in no danger of doing it any injury.

Confesso que ele quase me fez perder a paciência em passagens lindas, tão lindas quanto algumas cenas de Kurosawa, e tão no limite do aborrecido quanto. Deve ser alguma técnica oriental de quase te fazer desistir para dizer, depois, não falei? Não vai funcionar com ninguém com menos de 30 anos.