20070228

Casanova de mérde

Casanova
Porque tem de ser no mesmo dia que sua terapeuta, deixando você falar feito um velho jornalista esclerosado, que tem miríades de histórias e nenhum ouvinte, e guiando suas divagações com pequenas incursões quase cirúrgicas, resolve soltara bomba:
— Você gosta do jogo porque todo sedutor gosta do jogo.
Ahn? Peraí. Sedutor? Ahn? Como?
É. Você não esperava por essa. Sua baixa auto-estima nunca, em eras geológicas, deixaria essa passar. Oras, eu sou o cara que raramente ficou com a garota que queria. Raramente. Tipo, deve ter acontecido umas duas vezes. Sempre que eu tentei seduzir alguém, quebrei a cara. Se alguma coisa acontece, ela não é consciente e isso começa a me deixar bem puto. Porque eu posso estar machucando gente. Sem perceber. E todas minhas conquistas pareceram muito obra do acaso. Não uma coisa pensada e articulada e planejada e desejada.
E, no final do dia, continuo achando que sou um merdinha romântico e sem sorte no amor.
O pior dos mundos.
Eu fiquei tão abalado que a Tia mandou:

— Vai, me xinga de filha da puta.
— Não. Eu só tenho uma pergunta. Alertar um sedutor de que ele é um sedutor não incorre em irresponsabilidade social?

Quarta-feira, a coisa promete.

Algo errado

Teste indicado pela Lagarta:

20070227

Do dance

TS Eliot. The four quartets. "Burnt Norton".

At the still point of the turning world. Neither flesh nor fleshless;
Neither from nor towards; at the still point, there the dance is,
But neither arrest nor movement. And do not call it fixity,
Where past and future are gathered. Neither movement from nor towards,
Neither ascent nor decline. Except for the point, the still point,
There would be no dance, and there is only the dance.

Ansiedade

Ansiedade
Qualquer minuto gasto com nada me parece um desperdício imenso de tempo.
Após o problema todo com a Mimosa, mais que antes.
Mais que sempre.
Até mesmo escrever estes textelhos fazem de mim uma pessoa mais útil, completa, satisfeita, realizada, [insira adjetivo banalizado aqui]…
Mesmo jogar algum game de computador.
E aí todos os compromissos do mundo são marcados e todas as horas tomadas e todas as pessoas chamadas a apaziguar esse ennui com jeitinho de depressão que me quer, ah, quer a mim como nerds querem banda. E se, porventura, um deles falha (o compromisso, não o nerd), há o backup, o plano B, o telefonema que resolve o cinema pelo o café. A trepada pelo o cinema. O café pela cerveja.
Mas nem sempre isso é possível. E fica-se sem opção. E convence-se de que é imperioso arrumar os livros ou inventar alguma nova coisa de gastar tempo sendo construtivo e beneficiando whoever.
Daí que não é possível relaxar, a menos que se convença que isso serve a algum propósito maior. Como convalescer.
E eu deveria fazer os dois. relaxar e convalescer.

20070226

Dúvida, mais uma

genérico
Da série: você já parou para se perguntar? Especial para amigos blogueiros:

Com quem você acha que está falando?

Tchekhov, with a twist.

Agradáveis, talentosos. A gente se encanta e ao mesmo tempo não consegue de maneira alguma esquecer que está com vontade de fumar.

Tchekhov falava dos artistas seus contemporâneos. Mas poderíamos falar das pessoas que insistem em me apresentar. Onde é que estão mais de vocês, coisas? Ana, Bia, Carol, Cris, Camila, Ma, Rê… Tem de haver mais.
E eu sempre quero mais.

20070225

Genérico

genérico
Pense em mim como uma alternativa. Afinal de contas, eu nunca fui a primeira escolha. Nem nos tempos do futebol de rua (gol caixote e saída bangu).
Pense em mim como uma espécie de prêmio de consolação. Aquela coisa que irrita mais ganhar do que não ganhar nada porque funciona como um lembrete de que, afinal, você falhou. E sequer dá para vender.
Pense em mim como uma marca diferente, à qual você não está acostumada, pela qual tem um certo desprezo mas, enfim, é o que há ali e todos os supermercados estão fechados a essa hora.
Pense em mim como um prato que sua mãe fez, na casa da fazenda. Você não tem alternativa. Queria outra coisa mas é o que tem para hoje.
Pense em mim como aquele quebra-galho, o remendo, o camiseta que sua amiga te emprestou para dormir — só hoje — na casa dela, já que você não trouxe roupa. Pense em mim como o elástico para prender qualquer coisa, o improviso, a solução intermediária, ainda que criativa.
Pense em mim como algo que nunca esteve nos seus planos.
Pense em mim como o azarão; pense em mim como o substituto; pense em mim como o reserva, a redundância, o backup, a reprodução, o similar nacional.
Agora convença-se de que você não tem de se contentar com tão pouco.

Tchekhov

TchekhovAcabando O assassinato e outras histórias, edição bem bacana da Cosac & Naify, o tal do Anton põe as manguinhas de fora nas cartas ao seu editor e "descobridor". Para além de ser meio drama-queen, o cara destila. E nós adoramos uma acidezinha.

Ela acredita na "vida", e isso significa que não acredita em nada, se for inteligente, ou simplesmente que acredita no Deus dos mujiques e se benze quando fica no escuro, se for ignorante.

Se alguma coisa interessante acontecer, por favor me escreva. Falando sério, me entedio muito aqui e, sem cartas, posso me enforcar, aprender a beber o horroroso vinho da Criméia ou sair com alguma mulher feia e burra.

20070224

0,6s

0,6s
A bosta, o rebosteio, a cagada, a merda estava feita. Ali, à vista. Ele tinha 0,6 segundo para pensar numa justificativa boa, senão estava ferrado além da sua capacidade de esquiva, humor nonsense, atos de fofura extrema ou da capacidade de correr.

"Veja bem…", começaria. Mas "veja bem" é metade da frase que deveria continuar com "…eu vou tentar te enrolar para ganhar tempo com digressões intermináveis enquanto penso numa resposta minimamente coerente." É, "veja bem" não funciona. E você vê bem, isso é um dos seus maiores defeitos. E ela vê bem. Hm.
0,5s
Oficialmente correr não é opção. Pensa, carcamano, pensa. OK. "Não foi isso que eu quis dizer." Ah, agora sim, agora você aproveita e desembesta uma conversa sobre Derrida e sobre intenção do emissor e discorre sobre McLuhan, desviando do assunto e sei lá mais o quê. Vai funcionar, sim, viu? Vai funcionar uma cara de enfado, outra de irritação profunda e uma resposta atravessada. Nope.
0,4s
"Você não entendeu…" Ah, claro! cada vez piora a situação. Por que já não manda logo "Sua burrice não te deixa ver que eu te amo"? Ao menos tem apelo cômico. Você até arrancaria um sorriso, se a situação não fosse séria. Você já se deu conta do quão séria é, ou não? Além do que, seu problema começa exatamente no fato dela ter entendido. Baixa a cabeça agora e respira fundo. Sei lá, alguma coisa com apelo dramático. Você tem de ganhar tempo. Você tinha era de ganhar tempo na loteria, do jeito que se ferrou…
0,3s
Ela é realmente linda. Não, não é, quando você para para olhar de verdade; ela tem vários defeitos, várias coisinhas que o desagradam. E não é o conjunto. É o que você sente por ela, mais que outra coisa. Quem ama o feio, sabe aquela história? Mas tem mais aí. O corpo está fora de questão. Absurdo. Quase perfeito. Mas o que ela faz com você cada vez que você a olha é algo de impressionante. Psicologicamente falando. Tipo agora, que você está perdendo tempo olhando para ela, embasbacado, e não pensando no que deveria. Anta.
0,2s
Hm, e se você desistisse? Fosse escroto, por exemplo. Dissesse qualquer coisa que não fizesse o menor sentido, como "As tartarugas só põe ovos no outono" ou "Eu te amo" ou "O tempo irá me redimir"? Faz o Pereio, sei lá. O Valadão. Nah, ela gosta de discutir. Só ia dar mais pano para manga. O que você precisava era de uma intervenção cirúrgica. Um golpe só. O que você não pode é entrar em outra DR. Sua saúde não permite.
0,1s
OK. Oficialmente você se fodeu. Sem buracos-portáteis ACME. Sem teleporte. Sem esquadrão de chinchilas ninjas grávidas suicidas em chamas. É só você e a dirgra. A dirgraçada. Esses olhões fritando seus pedaços de segundo, suas chances, seu jogo de cintura, sua paz, sua vontade de brigar, seu amor-próprio, seu orgulho intelectual, sua careteirinha de sócio-mantenedor do Sport Club Montenegro de Football e Athletysmo, inválida há duas décadas. É você, ela, o poente e tumbleweeds passando por ali.
0,0s
— Olha, desculpe.

(hm, começou bem.)

20070223

Dúvida, bis

Dúvida, bis
Da série: você já parou para se perguntar?

O que diabos você acha que está fazendo?

Capitulação

Hoje, eu capitulei.
Eu nunca tive sequer uma chance.
Você foi cruel, admita.
E todo mundo percebeu.
Thank god is friday.

Se deus houvesse.

20070222

J.

J.
Eu já não era mais um adolescente. Nem um jovenzinho ingênuo. Mas J. me fazia parecer um menino. J. tinha a capacidade de me surpreender a cada encontro, fortuito, impreciso, assustador.
E era bem mais velha.
Houve uma vez que J. me machucou. De verdade. E eu nunca soube o que fazer direito com aquilo. Na hora, a gente simplesmente parou e se olhou. E ela tinha um olhar de condescendência que eu não queria nunca mais ver na vida. Mas naquela hora, não havia como reagir.
J. me ensinou a baixar a bola. J. me ensinou um jogo de poder com o qual eu teria de lidar o resto da vida.
J. me ensinou dor.
J. sumiu. Eu nunca me dei ao trabalho de procurá-la ou de saber o que ela fez depois que paramos de nos ver.
Hoje eu saberia como reagir a J. Mas hoje isso não faria mais sentido.

20070221

Caminhos

Caminhos
Eu ia dizer que há dois caminhos, mas Ornette me corrigiu e disse que há muitos. Vários. Variegados. Eu pergunto onde diabos ele aprendeu a dizer "variegados", felino de merda, arremedo de Gato Felix.
Ele fica puto. Gato Felix sempre funciona. Fica puto, solta um pum e vai pra varanda, varanda que não, não tem aquelas redes protetoras dos animais e das crianças menores de seis anos.
Ornette sabe se cuidar.
Aliás sabe se cuidar melhor que eu, que fico aqui reduzindo tudo a mensuráveis entidades, porções manuseáveis de vida, quando devia era mesmo entrar na competição do toboiogurte, aberração apresentada pelo Veiga, que é pervertido sem saber.
Então, dizia Ornette, já que você aquiesce que são numerosos caminhos, pode muito bem largar essa merda que está fazendo e ir tomar sol. Ah, você não pode por causa da cicatriz, que pena.
E eu não posso sequer ameaçar esse puto de morte. Desinfeliz. Posso tirar da cara dele, no máximo. Mas ele é melhor que eu nisso, então… é contraproducente. Melhor ir cuidar da minha vida.
Mas tranco o desgramento do lado de fora, na varanda, antes de sair de casa para ver o mundo, encontrar um amigo e acabar gastando dinheiro com um Rider-Waite, que foi desenhado mesmo pela Pamela Colman Smith, coitada. Virou rodapé de verbete, a moçoila.
Depois da primeira leitura, eu me toco que Fez está mais perto um tiquinho. E que Berlim também está mais perto. E vou destrancar o Ornette e o celerado está dormindo e não se levanta quando eu abro a porta. Fica lá, olhando a lua. E me olha com desdém: vai aprender quando, ô mané?
Um dia, Ornette. Um dia.

20070220

In spite of me

In spite of me
Hoje eu contei para um estranho tudo sobre você. Tudo o que sei sobre você. Era um desconhecido que encontrei de um jeito bizarro, numa situação estranha por causa de uma eventualidade nada a ver. Não era para ele estar ali. Nem eu. Mas estávamos.
Enfim.
Contei tudo pra ele e ele me olhava com aquela cara de quem não estava acreditando, ou estava achando muito estranho. É claro que pensei na música do Morphine, mas só depois, quando voltava para casa. E é óbvio que tive de colocar a música para tocar para escrever o texto.
E, definitivamente, eu não deveria ter colocado a música.
Mas, eu dizia, contei a história toda lá para o cara, que era bem estranho, mais estranho que eu, e a gente comia um PF de omelete no Centro, ali na zona do baixo meretrício, Major Sertório, essas bandas, e dividíamos o balcão com travestis e prostitutas, protegidos pelo anonimato instantâneo de São Paulo. Mesmo sendo nós dois tatuados de cabeças raspadas falando de cinema, relacionamentos e física quântica.
Contei a história e ele escutou, e tomava lá sua cerveja, e ouvia, e coçava a careca, e cofiava a barbicha grisalha que começava a despontar no queixo. E ele disse: essa mulher é louca.
Veja.
Perceba.
Situe.
Entenda.
Fui buscar uma das figuras mais bizarras que já conheci, e que eu via pela primeira vez, para que ele me dissesse com todas as letras a mesmíssima coisa que minhas amigas já me haviam dito nos meses desde que os eventos em questão tomaram lugar nessa realidade colapsada de todas as possibilidades todas tudus. Justo esse padrão é o que surge.
Juro que não acho que você seja louca, por mais que eu seja a voz dissonante. Mas aí me lembro que você mesma me disse que mulheres são loucas e acabo achando que eu é que forço a barra na idealização.
E que eu deveria ouvir mais as pessoas.
Vox populi.
E é aí que paro para pensar nas coisas que você fez e que você me fez e, principalmente, nas coisas que você fez e com as quais eu não tinha nada a ver, ou não deveria, ou não deveria achar que tinha algo a ver, ou que não tinha direito de opinar ou de saber ou de… Enfim.
Saí de lá explicando a um amigo que estava junto que não, aquela moça que sentou-se ao lado dele não era moça, era moço. E me perguntando por que dou corda? Por que deixo todos esses desequilibrados se aproximarem, trato bem e ainda sou tido como amigo? Porque eles são infinitamente mais divertidos que as pessoas de bem?
Most probably, yes.
Já a caminho de casa, a música tocava no hi-fi quadrifônico valvulado que tenho escondido atrás do meu cerebelo. A do Morphine.

And I know you did it all
In spite of me…

20070219

Escolhas

Escolhas
Escolhas conscientes são coisas pentelhíssimas. Pentelhississíssimas. Sujeito faz escolhas todo dia desde a hora que levanta. Vou ao banheiro ou não? Aperto o tubo de pasta de dentes no meio ou no final? Vou ou não trabalhar hoje? Ligo ou não ligo?
Escolhas. A vida toda. O maldito jardim dos caminhos que se bifurcam do Borges.
A maioria é impensada, quase inconsciente. Se assim não fosse, ninguém seria são. Er… Enfim. Ninguém manteria essa aura de sanidade tão necessária para a vida da pessoa moderna.
Mas.
Escolhas.
Essa semana pré-carnavalesca, rescaldo do 2006 dos infernos, deixou-me com três para tomar. Sob ameaça. A primeira delas, relativa a trabalho, teve de levar em conta uma fidelidade que eu não sabia que ainda tinha para com pessoas que ajudei. Não que elas tenham pedido algo. Não que elas teriam pedido algo se soubessem da decisão que eu precisava tomar. Mas foram levadas em consideração e me fizeram decidir (eram duas partes, complementares. Não havia causalidade, mas havia sincronicidade). Ou seja, preferi o risco. O engraçado é que, para todos, vai parecer a solução cômoda, mas é a mais arriscada, a mais difícil, a mais desgastante e a com maior chance de dar bosta. Das grandes.
A segunda teria sido mais leve porque é a única saída digna e a coisa já foi repensada tantas vezes — e não só por mim —, que não havia efetivamente uma escolha. E doeu. Doeu pracaralho. Ainda dói toda vez que penso nisso; agora, por exemplo. E eu ainda me pego chorando, besta que sou. Acho que o tempo arruma essa aí. o tempo. É a decisão que dá mais vontade de destomar. Mas, a man's gotta do what a man's gotta do.
A terceira foi detonada por uma decisão alheia. Uma decisão sobre a qual eu não tenho o menor direito de criticar ou de tecer comentários sobre. Nenhum. Nada posso dizer. E no entanto, há uma parte de mim morrendo pela pessoa que tomou a decisão. E essa parte que morre, determina a minha decisão. E eu sei que vai doer e eu vou perder muito e que eu talvez venha a me arrepender, mas é o que eu preciso fazer agora, é o que me devo.
E é assim, crianças, não tendo quase nunca aquilo que se gostaria, sempre tendo de abrir mão mais um pouquinho, sempre tendo de ver o mundo esboroar em caminhos que não fazem sentidos, vendo pessoas fazendo o que fazem e não tendo a menor idéia dos porquês. É assim que se passa mais um dia, pensando que vae victis e sic transit gloria mundi e que vanitas vanitatum et omnia vanitas e que suave mare magno, no final das contas; e sim, eu achei meu livro do Asterix, aquele que comprei em Paris, com as citações em latim, e na verdade, na verdade, fico aqui com vontade de cantar-lhes que o mundo é um moinho.
Mas não vou.

20070218

ACME Illustrated Catalog

Internet serve para isso.

Desligando

Desligando
Pensava já há meses na possibilidade e agora tinha decidido: deixaria de ver cores. Daria férias permanentes aos cones. Ou eles ajudariam os bastonetes, sabe-se lá. Mas era já fato: deixaria de ver cores. Cores lhe pareciam supérfluas, esforço desnecessário, enfeites pequeno-burgueses, exageros estéticos de uma aristocracia moribunda, quase que deselegâncias. O mundo seria como o retratou Cartier-Bresson. Ou Doisneau.
Era um domingo de Carnaval. Nada melhor. Aquele mundo despropostitado de cores exageradas tentando atrair a atenção do mundo para uma alegria tão falsa e enfadonha quanto exagerada. Não deveria ser mais difícil que deixar de sentir cheiros. A anosmia voluntária foi uma decisão tomada no verão anterior. Acreditava que o olfato era o único sentido que ainda não lhe permitia a libertação de certos preconceitos de classe, principalmente. E o olfato sempre lhe fora o sentido mais aguçado. A possibilidade zen de perder um sentido e se desligar um pouco do mundo material também lhe agradava e assim o fez. Deixou de sentir cheiros.
Agora as cores.
Não lhe escapava a ironia da falta de sentido de sua vida recentemente. A ageunesia não era uma coisa a se desconsiderar. E a anestesia poderia ter suas vantagens. Quem sabe como seria a vida sem intermédio de perpções fisiológicas, um mundo puramente conceitual? Ora, uma vez que ele fazia mesmo a interpretação de estímulos e a comunicação era impossível, uma vez que duas pessoas não sentiam da mesma maneira, qual a vantagem? Guardar para si? Ou tentar desesperadamente, como tentara a vida toda, por meio de sua música ou de suas pinturas, sem sucesso, fazer com que os outros percebessem?
Não. Era assim e assim seria. Quem sabe no ano que vem ele teria colhões para deixar de sentir gostos. E se alimentar por necessidade fisiológica, apenas, não mais por prazer. Seria mais fácil ater-se a uma dieta saudável, além de tudo.
Um dia poderia, também viver sem música.
Talvez.

20070217

Manemolência

Manemolência
Sentada ali, com os óculos 3D no rosto, não sabia bem se ia ou ficava. Achava graça nas gentes passando, coloridas, fantasiadas, bêbadas.
Era Carnaval e ela não sabia por que cargas d'água não estava odiando completamente o Carnaval daquele ano. O último Carnaval de que se lembrava tinha sido num clube em outra cidade. Ela tinha certeza de que era uma matinê. E que havia tocado algo como um funk do Kool & the Gang.
Ela colocara os óculos 3D por falta total de paciência para guardá-los na bolsa. Óculos daqueles de celofane azul e vermelha. No caso, plástico mesmo. Por falta de paciência de voltar ao estúdio e devolver os óculos. Por preguiça de ver o mundo sem distorções.
Essa vida de pensar e teorizar e repensar e espremer significados de amores e laranjas a estava desgastando e secando-lhe os olhos. Alex de Large, ela lembrava, e todavia não podia tomar as decisões certas.
Todavia, usado de um jeito errado.
Mas será?
Óculos cor-de-rosa não iam adiantar agora. Óculos 3D. Sim. Nada mudava, nada ficava 3D. Mas o tempo passava e ela se sentia um pouco mais esquisita a cada hora. E cada olhar de desagravo a deixava mais feliz. Mais livre. Mais sozinha. Mais faminta.
Deixa estar, Vossa Majestade. Esse seu reino é de quatro dias.

20070216

Love, actually, bis

Dal momento che ci fu, questa conchiglia fu anche un luogo necessario e indispensabile per starci dentro, una difesa per la mia sopravvivenza che guai se non me la fossi fatta, ma intanto che la facevo non mi veniva mica di farla perché mi serviva, ma al contrario come a uno gli viene di fare un'esclamazione che potrebbe benissimo anche non fare eppure la fa, come uno che dice "bah!" oppure "mah!", così io facevo la conchiglia, cioè solo per esprimermi. E in questo esprimermi ci mettevo tutti i pensieri che avevo per quella là, lo sfogo della rabbia che mi faceva, il modo amoroso di pensarla, la volontà di essere per lei, d'essere io che fossi io, e per lei che fosse lei, e l'amore per me stesso che mettevo nell'amore per lei, tutte le cose che potevano essere dette soltanto in quel guscio di conchiglia avvitato a spirale.

Calvino. "La spirale". In Le Cosmicomiche

Alforria

Alforria
Como assim eu não posso sair? Mas desde quando isso aqui virou uma prisão?
Er, eu tenho um salvo-conduto em algum lugar, mas pode ser que quando eu troquei de calças… Mas o que eu quero entender é o porquê desse controle agora. Afinal de contas foi você mesma quem me quis fora. Foi todo um processo de despejo e tals. Eu cheguei a brigar para ficar, mas quando vi que não ia rolar eu aquiesci. Para você me fazer essa presepada agora?
Não, sério, justo agora que eu estava realmente de saída, indo embora, mala feita, contas pagas, tudo arrumado para ninguém dizer que eu deixei o lugar uma bagunça. Você até fez a porcaria da inspeção. Inspeção, vistoria, whatever!
Mas, então? POSso sair? Eu tenho que o quê? Pedir desculpas? Sério mesmo? Não, espera aí. Eu fui despejado. Eu fui escorraçado. Eu fui contrariado, eu fui abandonado, eu fui, de certa forma, traído. E eu tenho de pedir desculpas? I do not think so.
Não. No máximo eu posso tocar My funny valentine no clarinete, aceita? E veja você que eu deveria ser irredutível nessas horas, mas faço piada. Faço graça. E até tento te arrancar um sorrisinho. Mas, e aí? Está ficando tarde, você deve ter mais o que fazer além de inventar desculpas absurdas para me prender mais um pouco e um pouco mais. E cada dia é uma.
Olha, estão aqui todos os formulários, todas as autorizações, todos os relatórios, todos os carimbos, os DARFs pagos, as chaves e suas cópias. A declaração de que não vou usar seus apelidos com outrem, de que não vou dar a outras mulheres o amor que era seu. E você ainda não entendeu que isso não era mesmo possível e exigiu a declaração. Pois aí está, em três vias, reconhecidas em cartório.
E, deixa eu dizer, você nunca foi fã de documentos. Acho que foi o episódio de ter sido planilhada que fez isso contigo. Agora virou até burocrata.
Tá, tá. Sossega. Não está mais aqui quem falou. Só me deixa ir embora, vá. Se não por nada, porque você já foi bioluminescente, um dia. Porque você já foi genial e bebia vida todo dia e sorria com o corpo todo e exsudava pó de pirlimpimpim — porque aquele treco deixava a gente bem doido. Doido de não saber o tempo.
Enfim. Você já está ficando com um monte de coisas. Meu sorriso, meu assunto… Sabe? Deixa eu ficar ao menos com as coisas que você me ensinou. A não ser tão besta. A não ser tão sério. A não ser tão sabichão. Não ser medíocre nem crica nem tão bom. A não ser tão crédulo. É você acabou com o que me restava de fé. E ficou com o saca-rolhas.
Eu vou levar só o tapa-olho.
A terça-feira gorda de carnaval.
O orgasmo múltiplo.
A parede pintada com motivos japoneses.
O resto é teu.
Só me deixa ir que eu tenho hora marcada com uma amiga que quer emprestado umas coisas que você não usa mais. Vai que daqui a pouco alguém te chama e você não pode mais falar comigo, vai?
Adeus.

20070215

Forget regret

Anéis
Sei lá. Tenho uma música aqui do Roy Hargrove. Não sei quem canta nela. Não estou com paciência de ir procurar. A música tem um solo de sax que me arrepia toda vez. E a mulher cantando me deixa de quatro. Toda vez.

Forget Regret

your sugar
your feel
your touch
your hair
your voice
your whisper
your moan
your prayer

your head
your step
your spin
your care
your shadow
your heat
your light
your stare

I don't want to be free
If it means that'll be
without you, babe
without you, babe

I just want you to see
Just how much you mean to me
I really love you
I really love you


Update. Ela se chama Stephanie McKay, essa mardita.

20070214

Anéis

Anéis
Da série "Revisitando o chavão":

Vão-se as interlocutoras, fica a dignidade.

Sei não. Acho mais divertido ficar com as interlocutoras…

20070213

Gênese

Gênese
Novamente todas as possibilidades estão ao meu dispor e me lembro daquela minha amiga que sempre me pede: não me dê escolhas!
Mas eu vou fazer o quê? Abriram as porras das caixas de Pandora todas tudus. Ao mesmo tempo. Queimaram todos os navios, tá vendo? Não tem mais jeito. Fodeu.
Fodeu e com estilo. Mais velho, mais podre, mais gasto, mais consciente um tiquinho. Não tenho mais desculpas e não dá mais para disfarçar: fica até ridículo. Keep on rocking, keep on shocking. Till it's all over.
Eu disse antes: fasten your seatbelts. E cuidado para não cair.

20070212

Absurdo

Absurdo
Sempre haverá formas diferentes de sofrimento.
Sempre será uma questão de escolha.

Sempre haverá maneiras novas de se humilhar alguém.
Sempre será consensual.

Sempre haverá decepção maior.
Sempre será uma questão de fé.

Sempre haverá mais culpa.
Sempre será ilusória.

Sempre haverá mais tristeza.
Sempre será uma questão de importâncias.

Sempre haverá outras.
Sempre será a mesma.

Sempre poderia ser pior.
Sempre haverá um lado bom.
Sempre nos enganaremos.

Nunca me esquecerei…

Quantum jump!

Oficialmente deixamos o domínio do bizarro (as in World Bizzarro) e passamos para a inverossimilhança.

Fasten your seatbelts.

20070211

Delirium

Delirium
No meu sonho você falava e borboletas farfalhavam por sobre seu corpo, como se fossem sua roupa. Você mexia a boca e fazia caretas e movia os braços, mas elas emitiam o som.
Era um som, não há outra descrição possível, multicolorido. Milhares de vozes compondo um acorde de voz multicolor.
No meu sonho você mudava de cores porque as ia roubando às borboletas. Quando as borboletas perdiam as últimas cores, elas caíam do seu "vestido", mortas. Você dizia coisas meigas e coisas divertidas e coisas de fazer lagriminhas saírem dos meus olhos e você sorria. No meu sonho você sorria o tempo todo.
No meu sonho, você nunca me dava as costas — você não tinha costas. No meu sonho, você era bidimensional, mas disfaçava bem por causa das borboletas.
Acordei com muita pena de você. Eu ainda não sabia.

Shoot the shooter

Goswami
De vez








em quando








eu tiro








fotos.

20070210

Flerte

Flerte
— Me ajuda?
— Claro! O que você quer fazer?
— Então… Eu quero te enganar…
— Como? Como assim?
— Assim. Eu quero te enganar, fazer você acreditar que a vida sem mim não faz sentido. Que você precisa de mim para viver. Que ficar afastado de mim é um sofrimento imponderável e mais valeria estar morto.
— Peraí. Por que cargas d'água alguém iria achar isso?
— Porque eu vou te tratar bem. Bem assim: te cobrir de mimos e atenções; vou me preocupar com aqueles detalhes que te pegarão de surpresa e farão você pensar, toda vez, que eu não existo, que eu faço coisas para você que ninguém mais faz. Eu vou fazer você se achar especial, entende?
— Hm, mas isso amigos meus fazem, por que eu desenvolveria essa necessidade de estar com você? Por que nesse nível quase patológico.
— Aí é que está. Não é quase patológico. É meio como uma doença mesmo. Saudades, falta de atenção, nervosismo, tomadas de decisões sem lógica. Você vai deixar de ser você mesmo para se tornar alguma coisa entre metade de um casal e um ser cujo objetivo na vida é me fazer feliz. Tá sacando a parada?
— Hm. Isso não faz sentido ainda. Que vantagem Maria leva?
— Nenhuma. Quer dizer, eu vou te dar atenção e tals, vou ser mais presente na sua vida. E sexo. Não se esqueça disso que é muito importante, principalmente para vocês, homens: sexo quase a toda hora que você quiser.
— OK, sexo com você parece ser uma coisa bem divertida. Mas não é, assim, que esteja faltando, sabe? Até agora, do que você disse, não vejo muita vantagem sobre minha vida atual. Tenho sexo, tenho carinho de amigas, de parentes, tenho papos com amigos… Seria uma exclusividade, é isso? Você seria uma posse minha, uma coisa que eu posso guardar na gaveta?
— Quase isso. Nem sempre essa exclusividade rola, mas é, digamos, uma prerrogativa, um passe VIP. Mas o mais maluco é que, se você tentar me tratar como uma propriedade sua, eu vou te agredir.
— Isso seria mesmo o natural. Por que você acha maluco?
— Porque toda a base desse relacionamento que eu quero estabelecer com você é de posse. De exclusividade. De isolamento. É criar um mundo novo, apartado dos mundos em que a gente vive hoje. É um apagar a própria personalidade em prol da entidade maior do Casal. É claro que, depois de um tempo, eu vou te acusar ter mudado, ou de eu ter mudado por sua causa, ou de você não me deixar respirar, ou que a gente acabou muito ensimesmado e que precisamos de novidades nas nossas vidas. Coisas assim.
— Espera um pouco. Isso não parece com você. Isso não me soa como o tipo de coisa que você faria comigo, muito menos com você mesma. Não está fazendo muito sentido.
— Não precisa fazer sentido. É assim mesmo que funciona, eu andei pesquisando. E fica tranqüilo que não dura para sempre.
— Claro que não. Se a gente não se matar, vai se cansar de fingir um pro outro rapidinho.
— Mas não é essa a questão. A questão é que é um modelo milenar e todo mundo faz isso, menos a gente.
— O que não quer dizer que estejamos errados.
— Mas você não se sente um freak? Um anormal?
— Haha. Eu me senti assim a vida toda, qual o problema?
— Enfim. Eu sabia que isso ia ser difícil com você. Mas, e aí? Me ajuda?
— A me enganar? Até ajudo, mas acho que não vai funcionar.
— Vai sim, você vai ver. Em pouco tempo você vai acostumar com as coisas que vou fazer e se sentir "completo"…
— Odeio quando você faz esses sinais de aspas com os dedos. Hahaha.
— Tá vendo, é bem por aí. Essa é uma das coisas que você tem de guardar com cuidado. Daqui a uns anos, você pega isso, finge que é importante, discute comigo e fica livre de mim.
— Mina, isso faz menos sentido ainda! Você tem certeza de que está bem?
— Absoluta. Eu só queria testar, sabe. Mostrar para minha mãe e minha irmã que eu posso fazer essas coisas também, por mais estúpido que isso pareça.
— Tá, mas isso não vai fazer a gente se odiar, no final das contas?
— Ah, não necessariamente. Quer dizer. Sim, mas pode ser por pouco tempo. Depois a gente volta a ser amigo.
— Eu tô achando a maior idéia de jerico que você já teve. Eu adoro suas idéias bizarras, mas essa está ganhando. E eu tenho a impressão que a gente pode se machucar muito no processo.
— Vai me ajudar ou não?
— Machucar de verdade, sabe? Ficar com raivinha, de si e do outro. Não-bom.
— Vai me ajudar ou não?
— Você não presta. Sabe que eu sempre acabo comprando suas idéias. OK. Vamos lá. O que eu tenho de fazer?
— Vai embora para eu poder te ligar e dizer que estou com saudades.
— Hein??

20070209

Lola

Lola
Dificilmente ele encontraria saída do emaranhado emocional em que se metera. Ela o olhava com um desdém salpicado de comiseração que só quem convivera com ele por anos poderia: era um misto de reconhecimento pela profundidade que ele era capaz de dar às coisas mais imbecis, enquanto flanava por sobre os poços abissais que não lhe chegavam a fazer cócegas. Era uma lógica toda dele, uma lógica que desafiava até mesmo as mulheres.
Mas, daquela feita, ele parecia acuado. Ele parecia cansado. E isso a preocupava mais que tudo. Nunca, nos piores momentos, nas derrocadas mais injustas e absurdas, ele perdera o humor ácido e o entusiasmo que nada tinha de pollyannesco. E agora ele estava cabisbaixo. Acorcundado, se me permitem. Era uma cópia mal-ajambrada dele mesmo, um arremedo do mostrengo folgazão que não parava; ele antes simplesmente não parava.
Agora estava ali, prostrado, perdendo dias ensimesmado, chafurdando emoções e pensamentos antagônicos, tentando fazer algum sentido daquilo tudo. Essa era a pior parte. Ele sempre se dera bem em todas as situações, sempre se saíra melhor que a maioria dos ursos porque não parava para tentar entender, não queria fazer sentido, não precisava enxergar o padrão. Ele vicejava no caos. Ele sempre amara a confusão.
Até que conheceu der Blaue Engel. Chama-la-emos Lola.
Ela odiou Lola desde o primeiro minuto em que a viu: não é mulher para você!
— Como assim? Tá me tirando? Tá achando que eu não posso?
— Não, imbecil, Ela é menina demais pra você. Você precisa de mulher. Mulheeer, saca? Ela vai fazer você sofrer. Você vai se fodeeeeeeer!
— Caceta, Cassandra! Tá de TPM?
— Eu avisei, só se lembra disso. E Cassandra é sua adorada mãezinha, aquela de quem você vai tirar o coração...
— Lupicínio?
— Acho que é.
— Hm...
Na verdade, estava mais para Nelson. Rodrigues.

20070208

Adestramento

Adestramento
Quando você diz coisas como as de hoje, coisas que não fazem sentido, quando suas respostas não condizem com as perguntas, é aí que eu amo você mais.

Quando você me elude uma vez mais, e eu não faço mais idéia do que vai acontecer, e eu desisto solenemente, e você não me deixa fugir, é aí que eu odeio você mais.

Mas quando você me beija de volta, fazendo questão que eu saiba que eu forcei a barra, mas me beija e respira apressadamente e treme, e fecha os olhos em clara entrega de sentidos, quando você corresponde meu tesão, à revelia do discurso ensaiado em frente ao espelho, é aí que você me confunde mais.

Mas quando você me escorraça, me humilha e me desdenha, quando você é só menoscabo e contrafação, quando você me ignora e deixa migalhas de atenção para que eu não morra de inanição, é aí que eu fico mais lúcido.

Por incrível que pareça, foi hoje, no meio da troca de frases incongruentes, enquanto cada um falava uma coisa e nem eu nem você entendíamos pissiroca alguma, enquanto as palavras perdiam o sentido e só ficavam os olhares atônitos e o meu tesão porcamente disfarçado, enquanto você me perscrutava cada vez mais, tentando achar uma brecha, uma palavra, uma salvação, foi bem mesmo hoje que eu me dei conta que eu posso me ver livre de você.

Mas você não.

20070207

Uriah

Uriah
Você parece ter aprendido bem a lição do Bansky: the only thing you have to be good at is lying. Once you've mastered that, you're automatically good at everything else. E usa sua lábia congênita para convencer a quem faz diferença na cadeia alimentar de que você é bom no que faz. E é claro que o idiota aqui diz que o rei está nu e é preso.
Você acumula esse poderzinho de zelador e quase tem orgasmos quando pode dizer frases de vilão de filme de sessão da tarde, frases feitas na Dublassom (Guanabara). E não percebe que as pessoas têm tirado sarro da sua cara o tempo todo. Mas não são idiotas a ponto de arriscar seus empregos. E por isso parece que elas te respeitam. Hm, errado! Pééé. Elas estão apenas mandando currículos. Desesperadamente.
Você vai se dar mal porque puxa o tapete de quem era seu aliado ontem e, veja só, hoje já não tem serventia. Você vai se dar mal porque as pessoas estão indo embora e você não vai ter mais, em breve, em quem colocar a culpa. Surprise, you're dead!
Você tem visão tacanha e um papo tão desinteressante que só funciona com aditivos. Qualquer conversa sem adição de álcool é um emaranhado de teorias malformadas e bobagens colhidas de sites de curiosidades, folhetins de segunda mão. Você tem cultura de xerox de xerox de xerox. Mas fala com a autoridade de quem inventou a gravidade. É, inventou a gravidade. Esse é o nível.
Você foi o criador da gestão cogumelo. Você deve ler Pai rico, pai pobre escondido. Você com certeza não entende o que eu falo.
Você se tornou uma figura importante na minha vida, o que significa que a minha vida se tornou uma coisa mais medíocre, mais mundana, mais pobre e mais burra. E você tem de pagar por isso.
Sem que eu levante um dedo sequer.

Relações

Parece óbvio, mas só depois que alguém faz.

20070206

Apaziguado

Apaziguado
Ornette reclama que o dia demora a passar e eu chafurdo um pouco mais na procrastinação melequenta de trinta e dois graus que não me poupam o cérebro o miocárdio e sequer Mimosa a válvula bovina que tende a empatizar com tudo e com todos fazendo contraponto à minha intolerância cultivada com veneno de conchonilha e depois não quer que eu a chame de vaca a válvula que me entristece mais e mais me deixa à mercê de atitudes estapafúrdias de mulheres maravilhosas até o momento da perda total da razão provocada por egos tão enormes que não dão lugar a muito mais que espelhos essas coisinhas que não têm conteúdo algum e governam o mundo e fazem pessoas outrossim inteligentes se afundarem em poços de lama de baixa auto-estima misturada a vaidade que é dos pecados o melhor ainda que o filme não seja lá essas coisas é preciso se admitir quando a idéia que o moveu é boa esquecendo-se da execução ou das atuações mesmo porque a gente esquece que as pessoas em geral atuam o tempo todo na esperança de sei lá que comiseração que as faz mais vaidosas um tiquinho e se alimentam disso e quase somente disso numa dieta mais perniciosa que a do Dr. Atkins que morreu de problemas coronarianos vai dizer é isso não muito mais porque o calor não deixa as sinapses em paz e você não vai me deixar mesmo em paz e eu posso fazer o homem de gelo ou o escroto maior e você não vai me crer e vai me destruir com o olhar pidoncho ou a curvinha dimensional do canto da boca e então não há mesmo jeito e são boas noites aos queridos ouvintes e vocês ficam agora com o shuffle do iTunes com já mais de cinco mil músicas e eu sequer rippei minha coleção e com certeza não rippei meu coração.
Too close for comfort.

20070205

Óbvio

Óbvio
Você precisa entender que eu sou mais básico. Mais simples. Mais mundano e mais trivial.
Eu sou a solução elegante.
Eu nasci sob a lâmina de Occam. E sob a espada de Dâmocles, mas isso não vem ao caso.
Eu sou o cara que acredita que se uma coisa não pode ser explicada a uma pessoa de seis anos, muito provavelmente ela não valha a pena ser aprendida.
Tipo elétrons que fazem pop! de um lado e não têm que passar por todo o percurso para aparecer, pop!, do outro. Pop! para você também.
Eu faço milhões de rodeios para falar o óbvio e entrego o complexíssimo em duas linhas porque eu entendo o valor do espetáculo. Você nunca viu igual.
Eu nunca disse que era fácil. Embora você não tenha feito muito esforço.
Se eu me defino na alteridade, se eu moldo meu mundo com meu discurso, eu apenas sigo as leis entrópicas todas tudus de probabilidades e falta geral de sentido.
Eu sou o gato; e estou vivo e morto ao mesmo tempo.
É simples. É fácil. Mas tem de ter colhões. Porque reconhecer essa simplicidade toda de quase fazer fé é jogar fora todas as desculpas acumuladas em vidas e gerações e açoites e inquisições e confessionários e sacrifícios humanos.
Eu não tenho mais desculpas. Nem paciência.

20070204

Dúvida

Dúvida
Da série: você já parou para se perguntar?

Quem você pensa que é?

20070203

Disturbing

Disturbing little shit, Muppets style.

O casal

Casal
Queria sempre as coisas do seu jeito. Descobriu logo que as queria do seu jeito porque se lhe davam, sempre, como as queria. As coisas. As pessoas. Os amores. Era fácil ser ela. E não havia nenhum problema que um olhar não resolvesse.
Era fácil ser ela.
Quis sempre as coisas do seu jeito até um dia. E nesse dia o conflito era exatamente o querer. Cindiu a personalidade e brigava, diuturnamente, para saber qual das duas teria as coisas ao seu jeito. Durante um tempo conseguiu as coisas dos dois jeitos. As pessoas se entreolhavam, atônitas; mas acostumadas a fazer-lhe os mínimos desejos reais, corriam desesperadas por demandas tão díspares.
Quis, finalmente, morrer. Não houve quem lhe auxiliasse. Nem mesmo ela. Deixou-se largar e foi acudida como se fosse aquele um pedido de cuidados. O costume falou mais forte e ela bebeu aqueles agrados e mimos mecanicamente. Por anos.
Foi somente quando ele entrou na sua vida que pôde morrer. O único que não lhe deu tudo foi o único a lhe dar a liberdade. Ela o odiava e já não podia viver sem ele. E encontrou o descanso. Deixou de viver sem ele. Acreditava, com parcial razão, ter conseguido todas os caprichos, enfim.
A história dele? Exatamente o contrário. Por isso não a contamos. Porque ele gostaria que fosse contada.

The self-aware universe

GoswamiAinda nos princípios do livro, o medo que me assoma é de que a única voz razoavelmente lúcida em What the fuck we know? ser, ele mesmo, Amit Goswami, mais um prosélito, um "espiritualista" que quer explicar o Universo com alguma batatada do nipe de "foi deus quem quis assim".
Anyway, para o anedotário:

— Monsieur Laplace, you have not mentioned God in your book even once. Why is that?
— Your Majesty, I have not needed that particular hypotesys.


Diálogo entre Napoleão Bonaparte e Pierre-Simon de Laplace.

20070202

Crinipulcra

Crinipulcra
Rapunzel, jogue-me suas tranças!
Rapunzel? Jogue-me suas tranças!
...
Rapunze-el?
Rapunzel-ô!
ô, Rapunzel, joga as tranças, pô!
ô, felha, não vai nem responder, não? Tá no banheiro?
...
Rapunzeeeeeel?
Rapunzel, sua filhadaputa, tá pensando que você é quem, hein, minha filha? Eu não tenho o dia todo.
Rapunzeeeeeel? Jogas as tranças que eu quero subir e te dar o que você gosta, piranha!
...
Rapunzeeeeeel, joga as tranças que eu tô taradão, mina! Eu tô pior que o Lobo Mau.
Fetichista de merda! Eu sei por que você deixa o cabelo destamanho. E eu sei o que fazer contigo, be-atch!
Raaaaaaa. Onde cê tá, mulher. Deixa eu subir que eu vou te pegar de jeito!
...
Rapunzel! Tem alguém aí contigo, vaca? Eu vou escalar esse muro dessa torre de merda e vou subir aí, messalina!
Rapunzel, não faz jogo duro, não! Você nunca foi assim, amorrrrrrr.
Rapunzel! Eu vou contar até três!
...
Rapunzel? Ah, foda-se, vou aceitar o convite da Chapeuzinho Vermelho. Fui!

Ah, não, aquela bisca ninfeta não, seu puto!

20070201

Cosmicomiche

Cosmicomiche
Calvino, o Italo, admite:

Nella mia vita ho incontrato donne di grande forza. Non potrei vivere senza una dona al mio fianco. Sono solo un pezzo d'un essere bicefalo e bisessuato, che è il vero organismo biologico e pensante.

(apud Se una sera d'autunno uno scrittore; in L'Europeo, 17 novembre 1980)

E eu, que não sirvo para limpar as botas que Calvino, purtroppo, já bateu, vou dizer o quê?

I.

I.
I. Foi um encontro fortuito, de trabalho. Não era para a gente ter se conhecido. Depois, não era para ela descer comigo para fumar, porque ela odiava cigarro. E não era para ela me contar quase a vida toda, num tom de confissão serena de quem confiou a vida toda em mim. E não era para eu achar que podia confiar nela como se ela tivesse feito parte da minha vida desde sempre, ainda que eu possa confiar em I.
I. foi um erro de cálculo, um desvio do padrão, uma inconsistência na minha história. Feições finas, trato fino. I. envelhece bem, envelhece dignamente. Sim, ainda a vejo de quando em quando — almoços e cafés e aconselhamentos profissionais e as confissões.
Há qualquer coisa no fundo do fundo do olho de I. que não me deixa ir muito longe. Nem me afastar muito. Acho que o problema, para variar, sou mesmo eu. Mas ela está cada dia mais linda, e cada dia mais desgostosa com o mundo e com os homens. Que me veja, ainda, e perca comigo horas de seus dias ocupados e que me confesse mais do que eu acharia saudável, parece ser indício de alguma coisa a mais. Mais uma coisa a não se concretizar. Mais uma ponta solta na minha vida.
I wish.