20070331

Fitzgerald has it nailed

'That's all?'
'That's all.' With disgust he heard himself lying, but here and now the vastness of the subject could only be compressed into a lie.


in Tender is the night.

Hábito

Hábito
Acordo cedo por hábito e tomo café na padoca, por hábito. Pão com manteiga. Média.
E, por hábito, escrevo, na padoca. Mancha de café, mancha de gordura da manteiga quase perfeita.
E, para quebrar a rotina, pergunto-me se o que quero é mesmo interlocução.

20070330

Debalde

Debalde
Ontem você passou lá, enquanto eu trabalhava, durante o feriado. estava arisca, mais que o normal. E "arisca" é anacrônico, não preciso que me recordem.
Mas o padrão desesperador se repete e você também não responde meus e-mails e SMSes. E não comprei a desculpa do "intimidada".

20070329

Bobo

Bobo
Eu já me mostrei a você de maneiras menos sensuais e menos atrativas. Afinal, éramos amigos, ou algo assim.
Agora tenho exatos vinte e sete dedos e uma falange vestigial. E só contabilizo as mãos, veja você.
E, novamente, não sei dizer o que acontece. Se é genuíno, se é aquela forçada básica de barra à guisa de saída estratégica pela esquerda…
Mas eu dizia que acho que mato o pândego porque essa coisa de paixonite nos faz agir de maneira oposta àquela que deveríamos. Ou que achamos que devemos.
Porque é claro que eu deveria ser o palhaço. E, mais que isso, ser o Tolo.
E teu sorriso me faz bobo.
E eu sou uma besta.

20070328

SMSeando Peyote 2

"The rain isn't washing anything away. Words are still here, useless, weary, unwritten, unsaid. And wetter."

Mas chuva num leva nada embora. Impressao, tira foco somente. Se bobear, entope os esgoto tudo e vc fica se afogando ali no seu próprio soliloquio.

SMSeando Peyote 1

"The rain isn't washing anything away. Words are still here, useless, weary, unwritten, unsaid. And wetter."

Ponha para coarar. Palavras bem esfregadinhas ao sol ficam uma lindeza.

E qual a receita para nao desbotar?

Ah, coarar só serve para palavras brancas de dia a dia. Pras coloridas, secar à sombra.

Sabia que a palavra sombra vira umbra ao coarar?.

Sabia que o sabiá sabia assobiá? Na sombra do varal.

Limite

Limite
Há um limitena sem-vergonhice do sujeito. Só que esse limite é elástico. E não tem memória estrutural.

20070327

Duração

Duração
No meu sonho a gente comprava e vendia tempo. Quer dizer. As pessoas faziam isso, mas não nós dois.
Nosso tempo sempre era "reposto". A gente não sabia bem se era durante os beijos (e eram beijos demorados) ou se era quando a gente ria. Mas a gente sabia que estava tudo bem. E que o tempo não precisava passar.
Mas, de vez em quando, a gente deixava ele correr (o tempo) porque tinha graça.
E a gente se deixava largar e conversava e tomava o solzinho fraco do inverno paulistano, e era um parque que parecia mais com minhas lembranças do Central Park que o Ibira. Mas era o Ibira.
Sonho.
E a gente se beijava de novo e você se aninhava como fez aquela noite aqui em casa, no meu peito, e sorria seu sorriso de curvinhas e eu me enternecia tanto que doía, mas eu não te dizia que doía porque eu achava que você podia ficar preocupada com a Mimosa.
Você estava realmente feliz.
E eu acordei com lágrimas nos olhos. Talvez suas.

Fitzgerald delivers

Yet in the awful majesty of her pain he went out to her unreservedly, almost sexually. He wanted to gather her up in his arms, as he so often had Nicole, and cherish even her mistakes, so deeply were they part of her.

in Tender is the night.

20070326

Desancado

Desancado
Amicíssima, você não tinha o direito de me perguntar aquilo. Ainda mais como o fez, à queima-roupa, sem aviso, no contrapé.
Foi um golpe baixo.
Acabou com meu fim de semana. Desnudou-me mais uma vez. Eu sei que lido bem com a situação (de estar pelado em público), até mesmo em sonhos, mas fui pego tão desprevenido que acho que cheguei a corar.
Perceba que tudo o que menos preciso neste momento é de outra paixão. Amor. Seja lá como vocês chamam isso.
E tenho sido cada vez mais… Tyler Durden.
Não combina.
E eu já cheguei a lhe dizer que sou o isolamento voluntário de Jack.
Mas o pior mesmo foi você perceber que eu hesitei em responder. E não ter feito a finesse de fingir que não vira. Agora eu tenho de me dar explicações e achar uma saída racional.
Mas essas coisas pouco ou nada têm que ver com razão, não é mesmo? Apesar disso, minha fleugma não pode ser vendida separadamente.

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio.


E você vai esquecer o que disse na sexta, quando nos virmos na segunda. Porque a maldade, eu sempre soube, está em mim.
E eu curo dor com dor.

20070325

Motim

Motim
Mudou o vento, percebeu? pois é, eu havia notado há umas semanas, mas preferi fingir que nada acontecia. Poderia ser passageiro, afinal de contas. Poderia.
Shiva dançando.
E você voltou a dançar.
O que mais pesa, agora que já sabemos da mudança, é essa nostalgia antecipada. Afinal, a gente aprendeu a deixar tudo para trás. Piratas não têm lar. No rest for the wicked.
Será custoso e divertido e trabalhoso e conflitante e apaziguador, depois de um tempo. E a beleza do processo está em não sabermos as medidas desses pedaços. As proporções da receita.
Novamente: ufas e ais.
E ontem eu me sentia mais velho que hoje.
E amanhã é quando a gente se vê e fala do que viveu. Das bobagens. Das pilhagens. Das refregas. Dos revezes.
Mas amanhã.
Que hoje eu tenho de cuidar da bujarrona.
E me amotinar um pouco.

20070324

Guardo

Guardo
E se elas têm teu cheiro, e se elas têm teus olhos, eu fico quase triste e tiro a música do Costello para tocar na sacada, em homenagem ao que elas não têm.
E, quando me dou conta, misturo Só tinha de ser com você e It had to be you, porque é inegável, e eu sou um fedelho em comparação a essa coisa que não me deixa mais de sete horas.
Sete horas. Estamos evoluíndo.
Mas elas, eu dizia, não têm a curvinha, e podem até ter os furinhos nas costas, a bunda quase perfeita, os ombros apetitosos. Mas nunca terão essa configuração estelar de pintinhas que pedem para ser mapeadas.
Em minúcias.
Elas podem ter seus olhos de azul-impossível, azul de queimar determinações, mas lhes faltará sempre o inconformismo cunhado em educação confusa e esquizofrênica de pequenos-burgueses. A inquietação que se descobre inteligente demais para a própria saúde e posição social.
Curiosidade. Estranhamento. Dor.
A complexidade dos detalhes que te fazem Valquíria e que me fazem Loki nos une, e me parece questão de birra essa distância. Birra ou preconceito.
Há tanto que guardei… E muito me admiro serem inéditas minhas pequenas delicadezas e grandes safadezas de louvar a mocinha que tenha a mim por escolha.
E você merece tanto, e pode ter tanto mais que elas.
Desperdício, tão somente.
Afinal, elas podem ter o mundo, mas não podem ter a mim.

20070323

Cartógrafo

Cartógrafo
Dois mil trezentos e quinze retratos na parede. Nas paredes. A sensação era a de ver a própria vida passando na sua frente; um giro, dezessete segundos. Ou horas de contemplação.
Não havia muito, teria ido embora. Sabia reconhecer situações irreversíveis e não tinha ilusões quanto aos seus limites.
Olhava as paredes em busca do padrão. Perscrutava as imagens linearmente. Centrifugamente. Aleatoriamente. Não havia dica. Nada que pudesse usar. Não havia regra, não havia explicação.
Sua vida nunca teve uma gramática, um sistema coerente. Não seria possível reproduzi-la. Não era, definitivamente, uma vida criada em cativeiro.
Duas mil oitocentas e oito fotografias nas paredes. Lugares, pessoas e coisas que funcionavam como marcadores temporais, gatilhos que disparavam eventos e misturavam memória a uma certa liberdade poética.
Seu passado muda constantemente. E gravidade suficiente relativiza tudo.
Segue, destarte, fazendo o mapa que a ninguém terá serventia. Nem a si. Seguir é questão de sobrevivência, não é escolha. Cartografar é volição. Quereria dizer arte.
Ou amor.

20070322

Redundante

Redundante
Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades. Saudades.

Já te falei?

Pensei em você hoje.

20070321

Pânico

Pânico
Eu reescrevi o post vinte vezes e Ornette mais duas. Ditando, é claro.
Não há forma branda de falar do assunto. Melhor não falar e torcer para ser nóia minha.
Ornette diz que, se for verdade — e ele não tem opinião consolidada sobre o assunto ainda —, pode ser minha salvação. Ou a derrocada.
Eu sei. Tenho um medo desgraçado.
Tudo que não preciso agora é de mais um equívoco. Eu já não posso mais.
E, dessa vez, se não for nóia, não vai rolar fingir de morto.
Valei-me.

20070320

Crudelíssimo

Crudelíssimo
Eu estou fugindo, é claro. Recusei seus convites, sim. E você sabe que tenho um bom motivo para isso.
Eu não fui à despedida do seu amigo. Eu não fui à degustação. Eu não saí para o choppe, eu não quis ir ao evento, eu recusei o café.
E você não quis vir aqui. Teme pela sua integridade, teme fazer algo que me machuque. Sejamos sérios: eu já sou crescidinho. E você não passa de uma menina. De umetroesetentaecinco, mas menina.
E, sejamos sérios às últimas conseqüências: você gosta.
E agora essa: o melindre por eu falar das mocinhas que têm passado por aqui. Não era você que não estava nem aí? Não sou eu que não desperto nenhum sentimento, nenhum tesão, nada?
Seu jogo não tem mais graça. Cansou. Caducou. Talvez por ter se tornado repetido e previsível. São, percebo agora, os mesmos sorrisos, os mesmos olhares, os mesmos suspiros, os mesmos muxoxos. São os mesmos gambitos e eu fiquei puto na segunda vez que tentaram o cheque do pastor comigo. Imagine como me sinto agora.
Você tem sorte por eu não ter vergonha na cara.
E, sim, tenho prazer em ver a confusão nos seus olhos e sua boca se entreabrindo, lânguida, e sua respiração mudar e você enrubescer e perder o rebolado.
E tudo que eu te disse é verdade.
E essa é minha pequena crueldade.

20070319

Inconclusivo

Inconclusivo
Saiu daqui bêbada, admitindo a própria ebriedade, merecida de todo um mês de provação e privação.
Ainda não sabemos o efeito real da leitura de tarot, mas desconfiamos que seja de libertação. Embora não tenha eu certeza quanto àquele tolo. Porque consultor e consulente sempre têm lá suas idiossincrasias e nem sempre falam do mesmo assunto.
Ainda bem.
Mas saiu com ares de convalescência, pelo que sou grato, mais que você pelo tanto que lhe fiz até agora. E queria eu ter o vaticínio por talento a fim de saber se mais posso te dar, ou se queres o mais que posso te dar.
Agora é esperar a reação, com cautela e cortisona sempre à mão, ao mirtilo, ao garam masala, ao vinho, ao olhar, ao sorriso, ao cuidado desmazelo de toques fortuitos e pequenas delicadezas de enlevar mocinhas.
Saiu daqui lá pelas três da madrugada, forçando-me a tirar a música bem baixinho, no clarinete quase calado, e olhar o céu e procurar a Lua para dizer-lhe, entre dentes, entre pensamentos confusos e olhos negros de mirtilo:

Saiba que meu coração não vale nada quando, às três da madrugada, é noite que não tem mais fim.

20070318

Desespero

Desespero
Da série "revisitando o chavão":

Tua burrice não te deixa ver que me amas.

20070317

Penitenziagite

Penitenziagite
Meu discurso está bem armado e decorado, e funciona mesmo, e já foi colocado à prova. Inclusive a parte em que digo que só eu sei o que me aflige quando eu encosto a cabeça no travesseiro, e fecho os olhos, e tento dormir.
Não importa a noite, ou a companhia, ou a ausência de.
Meu discurso funciona deveras, inclusive a parte do meu discurso que destrói meu discurso.
E sou eu quem tem de dormir com tal barulho.

20070316

Saudoso

Saudoso
Já faz muito tempo que eu não tenho alguém que me incentive ao fazer essas piadas bestas. Como você faz. São horas sem que alguém entenda todas as palavras que uso e dias sem que alguém faça um trocadalho com leniente.
(e ando ficando mais exigente)
Não agüento mais os néscios que se agruvinham em espaços exíguos, clamando por admoestações.
Odeio explicar piada.
Você faz falta.
E eu não vou justificar, porque eu deixei a vergonha em algum lugar da balada de sábado, entre a prancha à guisa de quadro, a cara-de-fuinha, que me olhava enquanto o namorado saía de perto, a camiseta do Cirque du Soleil e a mocinha que não distingüia Miró de Mondrian.
(e era bonita mesmo, a cara-de-fuinha)
Mas seja lá o que Baco quiser, porque ele me abandonou e eu cuido da Mimosa e do Ornette e menos da minha vida, que corre risco de virar assunto de happy-hour na Vila Olímpia: bege, desinteressante, falsa e recalcada.
T'esconjuro, pé-de-pato, mangalô, trêis-vêis.
Da próxima vez, aviso com antecipação, eu vou junto.

20070315

Merecedor

Merecedor
Quando você diz que nenhuma das suas amigas presta para mim eu me pergunto: overqualified? Veja, meu bem, desempregado assim, eu acabo morrendo de inanição.
E, daqui a pouco, todos meus amigos começam a fugir de medo das minhas atençõs depropositadas.
É sério. Eu produzo mais carinho do que seria saudável. E ele escapa. No meio da rua. Atinge passantes nos olhos. Moças se assustam com abrires-de-portas e mãos-estendidas-para-descer-do-táxi. Não pega bem, hoje em dia, ser gentil com meninos. Nem mesmo com meninas.
Então reconsidere. E mostra o que tem aí na agenda.
Eu juro que não vou ficar mandando currículo.

20070314

Contraponto

Contraponto
Você me lembra minha adolescência. Não que você seja adolescente, é claro, e nem sequer age como tal. Mas você me lembra de dias mais fáceis, menos sisudos; dias feéricos. Dias salpicados de dúvidas que pareciam do tamanho de quasares e não incomodavam a ponto de atrapalhar um malho.
Nah.
Você me lembra de quando eu era menos pedante. De quando eu dava risada de Apertem os cintos… Você me lembra que eu fui mais leve. E mais gordo.
Você não deixa que eu me esqueça de que eu já cri. Já errei. Já morri. Já fui besta e meio. Já perdi tanto a compostura que não tinha moral sequer para xingar o bêbado do bairro.
Você me faz lembrar dos porres que não tomei, por medo de dar vexame. E de quanto tempo perdi.
Eu olho para você, converso, ouço sua voz, e sei que ainda estou vivo. Que posso começar tudo de novo, do zero. Que ainda tenho muito para queimar. E que ainda vale a pena. E que seria uma sorte ter você.
Mas não creio que isso seja possível.
E me convenço que não é possível.
Todo dia.
Mas só descobri agora.
Agora, que corro o risco de ficar sem ver você.
Agora, tarde, bateu saudades.
Durma bem, pequena.
Eu velo.

20070313

K.

K.
K. cozinhou para mim.
K. tomou minhas dores, foi bacana, foi fofa.
K. sempre soube que eu queria e sempre soube como não alimentar esperanças vãs.
Exceto quando elas não eram vãs.
E se a coisa não andou, foi mesmo porque era uma troca errada e burra. E preferimos ficar.
E ficamos assim, e assim é que parece mesmo melhor.
Até que K., uma vez mais, prove o contrário.
Mas eu não estou ansioso.
Eu sequer espero.
Eu nem mesmo cogito.
Ergo…

20070312

Armistício

Armistício
Juliana bem que tentou. O approach foi errado. O figurino estava errado. A falta de noção extingüiu-lhe as chances. Mas foi exatamente o acúmulo de erros, tão descuidado, tão despropositado que lhe revestiu de charme.
Não era o tamanho certo, não era o sorriso certo, não tinha o élan. Mas houve por bem testar-me. E eu sou curioso.
Não sabia, Juliana, que eu declarara um armistício. Valores maiores. Sursum corda. Essas trôlhas. Cincunflexadas. Tôdas.
E não é o Rafa quem diz. É o Cangaro Giallo, ele próprio.
Teria sido divertente.

20070311

Culatra

Culatra
Não funciona a sabotagem do visual.
O problema sempre foi visual. A figura, per se, nunca foi fator determinante (quiçá concorrente).
Eu já deveria saber, claro.
Mas o anti-narciso (ao menos em questão de relacionamento com o espelho) não sabia. E foi contrariado.
Ponto.
É, sim, bom.
Mas é mais um tapa.

20070310

Bigodes

Bigodes
Da série "meu gato imaginário comeu meu post":

Cofiando.

20070309

Meow

Meow
Da série "revisitando o chavão":

A curiosidade mórbida matou o gato de Scrhöedinger.

20070308

Besta

Besta
Não adianta. Eu me sinto responsável. Sei que não tenho responsabilidade. No máximo eu não tenho toda a responsabilidade. Mas é aquela mania de puxar a responsa para resolver de uma puta vez.
Só que nem sempre é possível. Puxar ou resolver.
E fico preocupado. Perco o sono. Dói o estômago. Angustia.
Prometo ir dormir e não vou. Prometo pensar em outra coisa e acordo pensando na coisa.
E quando eu quero dar o foda-se, geral e irrestrito, alguém me pede ajuda. E lá se vai minha determinação. E vou atrás, arrumar a cagada que eu não fiz. Limpar a sujeira que apareceu e eu sequer estava por perto. Fazer a lição de casa dos outros.
E você sabe, caríssima, que eu não cobro nada. E ainda empresto dinheiro.
Besta. Até as últimas conseqüências.

20070307

Sonho

Sonho
Era assim: nem feia nem de parar o trânsito. Na verdade ela era bem bonita, admitamos. A quem eu quero enganar? Superego? Não faz sentido.
Ela conversava de tudo. E me ensinava coisas. E me dizia barbaridades. E, quando eu estava errado, ela não tinha muitos dedos: bite the curb!, dizia ela, e eu sabia que tinha dito uma besteira-monstro.
Ela cantava como Katharine Whalen. E eu derretia, toda vez. E tinha de ensaiar mais a música. E decidir entre o sax e o clarinete. E ela me olhava apaixonada cada vez que eu mudava o arranjo.
Ela tinha um jeito de se ajeitar no meu peito e arrulhar. Ou algo assim. E nada, nada no mundo seria capaz de estragar o momento. Exceto eu acordar.
Sonhei com ela uma vez só. E ela era meio você, meio a outra, meio aquela, meio uma outra ainda, meio aqueloutra e meio aquela que você não gosta. E não tinha nome. Mas tinha mais metades do que seria cabível.
E eu podia morrer a cada beijo.

20070306

Manuseie com cuidado

Cuidado
Abriu uma caixa de Pandora (porque eu quero usar lugares-comuns e comunicar bem baixo, dalicença?) do tamanho de um bi-articulado.
E começou a sair coisa de lá que é um portento. Só assistindo à parada de bichos estranhos para se ter uma idéia. É um mais feio que o outro.
Saída de estádio. Final de campeonato. Corinthians e Flamengo. You've got the idea.
A coisa das porradas hebdomadárias já estava quase assimilada, afinal eu vivo de adaptações fenotípicas instantâneas (just add water). Mas essa de começar a abrir portinha sem que eu percebesse foi coisa de gênio do mal.
Clap. Clap.
(há que se reconhecer a capacidade manipuladora com desculpa de técnica terapêutica)
E agora eu carrego um motogode que é para ficar disfarçado e super-secreto e pensar na vida sem platéia.
Mas agora eu percebo a platéia.
Entende?
Pois.
E não durmo mais.

20070305

Wet

Wet
Re: The rain isn't washing anything away. Words are still here, useless, weary, unwritten, unsaid. And wetter.

20070304

Tranqueiras

Tranqueiras
Colocou um aquário no hallzinho de entrada para socar-lhe as tranqueiras para as quais não tinha mais lugar.
Comprou, é claro, um aquário com cara de aquário. Aqueles capacetes espaciais da década de 50.
Deixou as pedrinhas no fundo e a plantinha, de plástico.
E foi socando:

Molho de chaves da casa velha.
Cartão do fliperama da Paulista que fechou em 2003.
Meia do São Paulo. Furada. Singular.
Contrabaixo.
Inocência.
Bola de gude com um racho grande o suficiente para mudar a trajetória.
Pente.
Desculpas.
Arquivos dos blogs velhos.
Vinil do Virna Lisi.
Plástico-bolha "usado".
Aquela esperança de tudo se ajeitar.
E a carteira de identidade.
Arapuca.
Fé.
Biscoito meia-boca, meio comido.
Brincos que não sabe de quem são.
Anéis que não sabe quem deixou lá.
Elástico de dinheiro.
Letra de música do Chico.
Mandala de botões.
Furinhos nas costas.
Foto desfocada, escura e sem enquadramento.
Doutorado na Itália. Di ricerca.
Óculos de Pollyanna.
Bons modos.
Cuecas desbeiçadas.

E o amor corre sério risco.

20070303

Faria tudo

Faria tudo
Como? Do que eu seria capaz? O que eu faria por você?
Por você?
Hm.
Eu perderia meus medos e entraria em pânico.
Eu cerziria meias numa lojinha de botões em Barcelona.
Eu compraria a lojinha.
Eu me tornaria o maior beberrão do mundo, Rei de Todos os Porres.
Eu abandonaria tudo que tenho para ganhar o mundo.
Eu desenharia a menor mandala, a mandala subatômica.
Eu seria eu mesmo até o fim da vida.
Eu mudaria todo dia.
Eu aprenderia a tocar "Take Five" na barriga da sua perna, misturando os cheiros que tanto me fazem falta.
Eu daria cursos de leitura de Tarot em Fez, passaria tardes de sol numa praia em Agadir com você e a levaria para casa, nas montanhas, em Chefchaouen.
Eu seria mais simples.
Eu me perderia em alguma cidade estranha. E ligaria para você ir me salvar.
Eu sairia para dançar e faria você passar vergonha.
Eu lavaria pratos e comeria caqui e faria cara de nojinho e babaria só para ter seu riso mais uma vez.
E uma vez mais eu renasceria.
Eu perderia as estribeiras.
Eu correria atrás do sorvete definitivo.
Eu morreria por você.
Eu cantaria no chuveiro, sem me atinar de afinações e ritmos e letras.
Eu decoraria as Histórias de Cronópios e Famas e rezaria Cortázar para você, toda noite, antes de dormir.
Eu perderia a vergonha.
E correria atrás de vaga-lumes, colhendo-os num pote de nutella, só para ver você deixando-os voar, livres do canguru malvado.

Eu viveria à plenitude.

Temp-o

FitzgeraldSe você andou prestando atenção, notou que o temp-o aqui parece seguir uma lógica própria.
Se você passou temp-o suficiente aqui e se sentiu desorientada, saiba que é normal.
Se ainda acha estranho que os posts mudem de quando em vez, atente para o fato de que eu leio de novo o que escrevo, portanto alguns deles podem, sim, mudar, aumentar, perder porções e mesmo sumir. Alguns aparecerão no meio de outros, por viéses de uma lógica temp-oral toda minha.
Faz sentido não.
Mas é até divertido.

20070302

Amar é…

Amar é…
Tenho amigas capazes de frases como estas:

Não confunda mediocridade com amor.

Amor-troca é amor-posse.

Amor é uma questão de fé.

Amar é perder a linha.

Amor é um treco que a gente inventa pra fingir que não está sozinho no mundo.

E eu resumo meu domingo com Buddy Johnson (muito embora eu pense Nancy Wilson):

And though I know no good
can come from loving you
I can't do a thing
Oh, I'm so in love with you.

Mais do Fitzgerald

Baby shifted her knees about—she was a compendium of all the discontented women who had loved Byron a hundred years before, yet, in spite of the tragic affair with the guards' officer there was something wooden and onanistic about her.

20070301

Fitzgerald

FitzgeraldFala Fitzgerald, em Tender is the night, que estou gostando bastante e maldizendo o mundo por ter pouco tempo:

'Soon you will be writing little books called "Deep Thoughts for the Layman," so simplified that they are positively guaranteed not to cause thinking. If my father were alive he would look at you and grunt, Dick. He would take his napkin and fold it so, and hold his napkin ring, this very one—' he held it up, a boar’s head was carved in the brown wood—'and he would say, "Well my impression is—" then he would look at you and think suddenly "What is the use?" then he would stop and grunt again; then we would be at the end of dinner.'

Nas melhores casas do ramo

Nas melhores casas do ramo
É, eu aluguei o espaço e não pretendo sair daqui enquanto não conseguir o que quero. Mas fica tranqüilo que eu nem quero tanto assim.
Sua vida. Sua alma. Seu sossego. Sua sanidade.
Ah, eu sou assim, semeio a confusão, desoriento. É mais fácil, a presa fica mais lenta, com reações mais demoradas. Quando eu faço a coisa direitinho, as reações são mesmo previsíveis. Tá, admito que homens são previsíveis quase sempre, dada sua simplicidade. Mas eu estou dizendo previsível como novela da Globo. Pois é. Simplório.
Não, eu não acho que você tenha opção. Se eu fosse sua amiga eu te diria para relaxar e aproveitar. Quem sabe você não aprende alguma coisa. Eu sei que ninguém aprende nada com amor, mas não custa dizer.
Mas eu não sou sua amiga. Nem acho que possa ser um dia.
Então eu não vou dizer nada.
Eu vou arrancar seu coração. Sabe, essas crueldades de quem pode. Não é maldade. Nem é nada pessoal. É, sei lá, acho, não sei… Eu poderia dizer que é minha natureza e bla bla. Mas eu não sei por que faço essas coisas. Acho que eu sou doente.
Mas, enfim, eu até te avisei antes.
Você entrou nessa porque quis.
Então fica aí quietinho enquanto I do my stuff. Você pode continuar o que estava fazendo, não me importa.
Quando eu acabar com você, eu aviso. Afinal, avisar é uma das melhores partes. Em geral, é quando vocês choram. Porque dificilmente vocês percebem antes que eu conte.
Melhor comprar lenços de papel.
E um coração reserva.
Agora chega de ser boazinha.