20070430

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é.

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu?"
Deus sabe, porque o escreveu.

Alberto Caeiro

Benedito

Benedito
O Sr. Benedito nasceu no Paraná, interior do Paraná. A pele curtida é resultado de décadas vivendo no litoral paulista, litoral norte. Seu Benedito perdeu um irmão num acidente de moto. O irmão tinha 45 anos e estava voltando do forró, bêbado, de moto. Sem capacete. Benedito conta uma história sobre um conhecido cujo irmão que trabalhava na Marinha morreu em um acidente de moto. O conhecido foi ao enterro do irmão, no Rio, pegou a moto, mandou consertá-la e passou a usá-la para ir trabalhar. Num acidente em que bateu sozinho num muro, morreu também. O terceiro irmão vendeu a moto.
Aos 54 anos, Seô Benedito diz-se frustrado com as mulheres de hoje em dia, que só querem saber de farra, cada dia saem com um; ele não sabe bem o que vai acontecer com a Família. Seu Benedito é solteiro.
Sua outra grande decepção é o Palmeiras, mais um problema de coração. Quando o Palestra foi jogar com o Cianorte, num amistoso em comemoração ao aniversário da cidade próxima de onde morava, mandou um time reserva, e seu Benedito não pôde ver Ademir da Ghia jogando.
O cachorro de seu Benedito chama-se Spike. Ele ri-se todo ao dizer Spike. Não sabe bem por que o neto de sua irmã deu esse nome ao cachorro, mas acha muita graça e não consegue dizer o nome do cachorro sem dar sua risada alta e cheia de modulações. Risada que vem de dentro do pâncreas, me parece. Risada aprendida na mesma época da palavra "ordenado", que ainda usa.
A maior conquista de seu Benedito foi o terreno e a casa que construiu em Ubatuba, num bairro que começa a ficar chique.
Seu Benedito não vai à missa com a irmã e não sabe cozinhar.

20070429

E o que ele ganha, Lombardi?

Vox populi vox dei.
É a democracia nos fazendo mais ateus.

They say it's May

Spring?
É só que parece que eu errei de novo.
Tipo, exatamente como das últimas vinte e três vezes. Ou vinte e oito.
Por motivos diversos, bien sûr.
Mas erro.
Eu vou começar a anotar, sei lá, isso deve ao menos ter algum valor científico.
Nah, sequer isso.
E não vejo a Lagarta há um tempo, para mostrar a ela que eu sou ainda mais "azarado", e fazer o dia dela um tiquinho melhor.
E não vejo a Crinipulcra há um tempo, e não posso fazer campeonato de mostrar as escoriações do verão.
E não vejo a Mesclada porque a gente vai ter um tempo de resguardo e não posso ouvir o lado dela sobre minha total incompetência ao lidar comigo mesmo.
E não vejo Peyote porque a gente vive se errando, sem querer e sem combinar. É sempre difícil e sempre maravilhoso. Mas raro. E não posso ser mimado.
E não vejo minha Quenga faz umas semaninhas e não posso lavar a alma com suas gargalhadas que tão bem me fazem.
E não vejo Gallega. E não vejo a Bioluminescente. E não vejo a Bocão. E não vejo a Chata. E não vejo mais ninguém porque acho que tenho alguma doença contagiosa.
Sobra a Tia, mas a Tia não conta. A Tia é como ir ao dicionário. Ou à Barsa.
Aí eu toco. Sopro essa nóia toda nas palhetas de Lillah e Claire (sax e clarinete, que sou da escola antiga que diz que você tem de dar nome de mulher aos seus instrumentos. E tem de tratá-los do mesmo jeito: firme e docemente. E com a maior intimidade).
Engraçado como as coisas mudaram e passei a ser chamado de canalha e cafetão. Sem ter mudado de atitude. Será que mudaram a forma de me ver? Será que foi o bigode? Será que foi a falta de vergonha aplicada?
Será o aquecimento global?
Sei lá. Sei que está parecendo que eu vou acabar sendo escolhido. Aquele papo de estar distraído. Da trombada no metrô. Do engano na fila do McDonald's. Da troca de malas no aeroporto.
Ou do par de olhos mais bonitos do mundo surgidos do nada numa ilha tombada pelo Ibama no litoral norte de São Paulo, enquanto você esperava os últimos cinco minutos para sua escuna voltar ao continente e não ter tempo sequer de perguntar o nome da dona dos olhos; ou de onde ela havia roubado aqueles olhos; ou se ela tinha programa para hoje à noite; ou se a mãe dela tinha tido a brilhante idéia de lhe dar um nome para eu não ter de chamá-la de "Psiu", "Dona Coisa" ou "Olhos Mais Bonitos do Mundo". Mas só houve mesmo tempo para uma secada como há muito eu não trocava (devorei e me senti devorado) e ela sumiu para dentro do pedaço da construção vetado ao público.
Fiquei com o sorriso largo e o par de olhos que provavelmente nunca mais verei.
Hm. Acho que tomei sol demais na cabeça.
Pelo menos a LC-A não me deixou na mão. Em breve algumas fotos boazinhas.

20070428

Miranda

Miranda deixou ontem o apartamento de Camila, minha ex. Minha ex-bulldoga deixa minha ex-mulher e eu não teria como ficar com ela. Mesmo.
Num sábado de dar tudo errado, de perder o chão e afundar nas cagadas mesmo quando tento consertá-las, foi uma notícia dura. Quase inesperada.
Triste. Mesmo.
Miranda fez história e mudou algumas coisinhas nesse imbecil que está aqui escrevendo e dizendo ao amigo que não, não vai à balada. Vai curtir a dorzinha, com frio, sem chocolate, sem colo.
Miranda, a coisa feia mais linda do mundo.

:.(

Pés pelas mãos

Fazendo aquilo que sei fazer melhor: papel de idiota.

(somebody stop me, please.)

Danúbia

Danúbia
— Mas seu nome é mesmo Danúbia?
— É, por que, nao pode?
— Claro que pode, desculpe, que grosseria a minha, claro que pode.
— Eu sei que é um nome diferente, mas eu gosto.
— É, tem seu charme. E sua filha…?
— Ah, ela se chama Mariana, né, filha? Ela já tem dois anos, né Mamá? Meu pai chama ela de Mamá. Você é fotógrafo?
— Não, sou amador. Fotografo pra mim, só.
— Mas não vai colocar as fotos numa revista? N'algum jornal?
— Não, eu coloco num site meu, na internet. E guardo as fotos impressas em casa. Às vezes algum amigo vê as fotos, mas eu não exponho.
– Ah. Você tá aqui faz tempo?
– Cheguei segunda, vou embora sexta, na contramão do movimento do feriado. Gosto assim, vazio, sabe?
– Ah, eu também prefiro. Quando tem muita gente as coisas ficam mais cheias e mais caras e fica tudo mais difícil.
— Imagino. Eu não sou um turista típico, fujo do movimento. Sabe onde fica a trilha pra cachoeira?
— Fica ali pra frente. Tem um portal, você vai ver logo. Tem uns poços antes da cachoeira, dá pra ficar por ali também. Você é da máfia?
— Oi? Ah, as tatuagens? Não, é só para ficar mais bonito. Eu sou meio japonês, por isso as tatuagens têm motivos japoneses.
— Ficou bonito. Eu queria fazer uma tatuagem, mas meu pai não ia deixar. O pai da Mariana era tatuado. Ele morreu numa briga.
— Ahn, meus pesâmes. Que chato isso.
— Ah, ele tava pedindo. Vivia bebendo e se metendo em briga. Meu pai dizia que ia dar nisso.
— É uma pena, ainda assim, pela Mariana principalmente.
— Ah, nem é, ele nem ajudava mesmo. Eu vou contar uma história legal para ela quando ela crescer. Que o pai dela era do exército e foi lutar pelo Brasil e morreu na guerra. Na Guerra do Golfo. E que o pai dela era lindo e tinha um carro e ia levar a gente para morar em outro país.
— Danúbia, quantos anos você tem?
— Dezessete.

I told you that I was trouble

Amy Winehouse é o tipo de cantora que eu odiaria normalmente. Mas essa latinidade de cozinha de casa de gente branca é uma coisa, assim, Elza Soares achando que pode, mas escorregando no Hene-maru.
(I should know, I also refuse to go to rehab)
Arrasou.
Vai, Amy! Berra, bagabunda!

20070427

Afobado

Afobado
Não durmo. O Swift não ajuda. A chuva mirrada do final de noite não ajuda.
Não sei se quero e sei que não é inteligente da minha parte, mas já é um pouco tarde para ter esse tipo de precaução: eu não durmo pensando em você.
Tenho consiência de que segredei às amigas que não queria me apaixonar de novo. Não ainda, não tão cedo. Não agora. Admito que é arriscado, fui o primeiro a levantar os perigos, a falta de senso, a necessidade de luto. Cheguei mesmo a esboçar uma teoria sobre a ausência de ritos na sociedade ocidental moderna como origem de males psicossociais e neuroses da moda.
Mas sou réu confesso.
Declaro-me culpado.
E me dou conta de que tenho feito convites, levado você para almoçar, escrito e-mails e enviado SMSes. Daqui a pouco eu cozinho. E mando flores. Se não me refreio, acabo nas massagens, bilhetes deixados na bolsa e declarações de estilo duvidoso.
E café na cama, se estiver com sorte.
E mais uma dor, se estiver errado.
Ainda há tempo de matar essa coisa? Sempre há tempo. Mas a esperança, aquela que já disse ser involuntária, veste-se de Pateta-diabinho e fica no meu ombro direito montada na carpa, dizendo que eu posso perder o "amor da minha vida" se desistir agora. É, até meus demônios são bregas.
Aí fico perdendo meu tempo e meu sono listando prós e contras, defeitos e qualidades. E escrevendo, para ler depois e ver se faz algum sentido.
Sempre faz, mas muito pouco.
E tento descrever você, que é linda e é inteligente e é boníssima e muito bem-humorada. E deixou um relacionamento longo há pouco. E provavelmente me vê como um tiozinho competentíssimo e amalucado, com umas idéias estranhas e falando de filmes que ninguém mais vê. Chances exíguas, inexistentes até.
E me perco um pouco nos seus braços e um muito na sua boca. E desejo estar perto e me ponho longe. Porque eu deveria estar aqui na praia em retiro, refazendo-me dos velórios das últimas semanas, guardando os esquifes posto que essas coisas ficam arranhando as tampas dos caixões e preciso ser duro nessas horas.
Eu preciso ser duro comigo. E acreditar que vai ser melhor a vida, de agora em diante.
Mesmo que eu não tenha certeza de que será melhor. Mesmo que você não me queira.
O sábado chega em breve. O racional — o Pateta-anjinho —, montado no dragão, no meu ombro esquerdo, diz que devo "ir para as cabeças". "Ou vai, ou racha." "Ou tudo, ou nada." E me aborreço porque, se tenho demônios bregas, tenho uma consciência que só sabe usar chavões.
E me aborreço porque você não está aqui.
E não durmo.

Swift ain't thrift

Great wits love to be free with the highest objects; and if they cannot be allowed a God to revile or renounce, they will speak evil of dignities, abuse the government, and reflect upon the ministry; which I am sure few will deny to be of much more pernicious consequence, according to the saying of Tiberius, deorum offensa diis curæ.

"Argument Against Abolishing Christianity in England", in A modest proposal and other satirical works.

Sexta-feira

Não, seu escritório não é assim. E não adianta tentar imitar.
Ptui!

20070426

Maristela

Maristela
Maristela servia no boteco da família, das nove às seis porque essa época a gente fecha cedo porque tem pouco movimento por causa da dengue que o pessoal acha que é aqui, mas é só lá na cidade, que aqui não tem não, mas as pessoas ficam com medo e não vêm mais a Ubatuba por isso, sabe?
Nascida e criada aqui, ela carrega olhos baços de uma vida toda de maresia. Mas essa serração oftálmica deixa de existir às primeiras gentilezas, sorrisos fartos e interesse genuíno. Maristela sente falta de estudar. Sente falta de viajar. Queria ir novamente a São Paulo, com mais tempo. Queria morar em São Paulo, ver coisas, ver o mundo.
E o mar?
O mar é lindo e eu não sei se ia gostar de ficar longe, não, mas sempre dá para vir visitar os parentes e o mar, né?
É…
Um dia eu acho que vou mesmo para São Paulo, sabe? Estudar, arranjar um emprego de verdade. Mas seu emprego não é de verdade? É, mas não é, sabe? É que parece que eu não sou daqui, nem nunca fui. Menos o mar, que do mar eu sempre fui, né?
Maristela tem razão em algum lugar que não é possível identificar. Ela se move diferente da gente do lugar. Ela se parece com ninguém por aqui. Ninguém daqui. Em algum momento a cegonha errou, parece, e deixou Maristela (stella, mare) encalhada na praia.
Na hora de ir-me, a cédula era grande demais e Maristela disse-me que pagasse depois, que não tinha troco. Que confiava em mim.
Não devia, Maristela.
Por quê?, quis saber.
Porque eu sou um pirata, Maristela, eu também não sou daqui.

Swift ain't sweet

But, because I am resolved, by all means, to avoid giving offense to any party whatever, I will leave off discoursing so closely to the letter as I have hitherto done, and go on for the future by the way of allegory; […] Therefore, if you please, from henceforward, instead of the term ass, we shall make use of gifted or enlightened teacher; and the word rider we will exchange for that of fanatic auditory, or any other denomination of the like import.

"Mechanical Operation of the Spirit", in A modest proposal and other satirical works.

20070425

Desalinho

Desalinho
Você não estava comigo enquanto eu fazia ruínas-trilha-cachoeira, caminhada-praia-casarões, praia-igreja-orla. Você não estava comigo, mas seu cheiro estava em mim. Sim, Caríssima, igual ao meu sonho: quando você vai embora…
Mas eu bebia lua e sol e sal do mar, tão antigo e tão familiar. E via tudo e sentia tudo com uma ponta de saudades que queria crescer e eu não deixava; com um respeitável exército de borrachudos e siris-patolas eu desancava a saudade, que era forte e comia os siris enquanto esmagava cruelmente os pobres mosquitos.
Então fui andar mais um pouco, leia-se "fugir", Dulcíssima, fotografar imperfeições e daguerreotipar frustrações para fazer postais de boas-festas. Fui buscar pescador de bagre em pier de farol pequeno e tecedeiras aprendizes que fofas de tão solícitas. E encontrei o sorvete. Os sorvetes.
Não, ainda não é o Sorvete Definitivo, porque este, Cachoeira, deveremos encontrar juntos, posto que assim foi profetizado, e eu que não brinco com esses biscoitos chineses, que eles podem acabar conosco soterrados em migalhas (e os danados já são lá mais numerosos que os chineses, em razão de trêspraum)! Mas são concorrentes de galardão, os tais gelattos, e merecem ser citados — quiçá sejam elegíveis a menção honrosa, ainda estudaremos o caso. Com afinco.
Mas me perco um pouco para falar dos sorvetes e a eles volto, dedos, papilas gustativas, nervos olfativos e saudades de você:

Pistache, verde e pedacento, quiçá como seus beijos de morder lábios e engolir o outro numa contenda de "quem tem mais sede", cheio de sabor e cheio de um aroma de dormir agarradinho.

Café, cor de café-com-leite e pedacento, quando não deveria. Ou deveria, como nossas conversas, Linda, que têm estranhos fragmentos duros de roer. No caso do sorvete, literalmente: pedaços de café. No caso de nossas conversas, um pouco amargas, um pouco doces, um pouco doidas, bastante excitantes e tão difíceis de dormir depois quanto. E cheiro de pré-coito, desse joguinho que nos é tão peculiar e tão fastidioso às vezes, admitamos, mas que faz de seus gemidos um butim digno do pirata salafrário que sou.

Gengibre.
Sorvete de gengibre.
Quase da cor da tua pele.
Fibroso, sem pedaços, mas com aqueles fiozinhos do gengibre mal triturado, do amor mal-resolvido, das sobras de todos os amores todos e vidas todas de antanho que sempre vêm dizer-nos não fazer ou fazer. Como se não fosse parte da brincadeira esse errar erros novos e refazer velhos hábitos com roupas e cores não experimentadas.
Cheiro perfumado de suor, de saboneteira, de trás-de-orelhas, de pedaços de pele pudicamente secretos. Da tua pele livre de perfumes e sabonetes e hidratantes — da tua pele lavada por seu gozo recente.
Mas quem perdeu-me foi o sabor forte, forte, que causou espanto, estranheza, alertou todos os sentidos, chamou a guarda-costeira, os bombeiros e as madres carmelitas descalças enclausuradas da igreja matriz. Fez ventar e fez chover. Fez vontade de ligar e tirar você do trabalho chato que se arrasta até que seus sonhos se apequenem. O sabor era o seu, gengibre, Sapatos-de-boneca. O sabor era aquele mesmo que me faz vencido e amotinado e hirto e confuso e enlevado e caído e apaixonado.

E se eu não liguei, Mulher, na mesma hora, esbaforido para confessar todos meus pecados, principalmente os ainda não cometidos, é porque não tinha celular à mão e não estava certo e já não sei mais o que fazer para que você entenda, Sweetest, que minha vida não é divertida sem você. E tenho medo que o tempo nada tenha a ver com essa história.

Swift

SwiftEdição pequenota com cinco textos do autor d'As viagens de Gulliver com pérolas da crítica e da sátira que perdemos contextualmente por não lermos assim, com afinco, sobre a história de Irlanda e Reino Unido dos últimos trezentos anos; mas não perdemos estilo e veneno.
O último texto, que nomeia o volume, A modest proposal, é impagável no surrealismo e na argumentação. A mocinha tatuada da Cultura acertou em cheio.

…malignant deity called Criticism. […] At her right hand sat Ignorance, her father and husband […] at her left, Pride, her mother […] There was Opinion, her sister […] About her played her children, Noise and Impudence, Dullness and Vanity, Positiveness, Pedantry and Ill-manners.

"Battle of the Books", in A modest proposal and other satirical works.

20070424

Lição de moral

lição
Sentado num dos bancos desconfortáveis da Rodoviária do Tietê, vendo cenas de Love, actually, com protagonistas que seriam rejeitados na primeira peneira de figurantes de um comercial das Lojas Marabrás. Mas nem por isso as cenas ficaram menos bonitas ou menos emocionantes.
A luz está errada, um dos figurantes dorme, o barulho infernal impede a tomada direta de som, a atuação caótica e sem direção dos coadjuvantes e figurantes só piora quando a manutenção começa a varrer o set.
Mas os grupos familiares e os casais atuam com perfeição. E os olhares e sorrisos e os abraços e as lágrimas parecem coreografados minuciosamente e ensaiados à exaustão. Espontaneidade assim nunca é dirigida.

Barros e a honestidade

BarrosEu vou falar o que de Barros? Que você deveria ler, como eu fiz, sentado numa pedra, ao lado de uma cachoeira, sozinho, embaixo de um sol realmente escaldante (lembre-se, você está ao lado da cachoeira e pode se refrescar quando quiser), numa terça-feira que não seja feriado. Assim você teria uma experiência mais próxima de fotografar o silêncio.
Barros, ilumimesmado, portanto:

Tenho uma confissão: noventa por cento do que escrevo é invenção; só dez por cento é que é mentira.

"Auto-retrato", in Ensaios Fotográficos

20070423

Antoinette

Marie Antoinette foi pedida da Karla, a moça das camisetas geek e idéias bacanas.
Mas o filme é aquilo: bobo, besta, sem propósito. Sophie Coppola perdeu a mão. Ou entrou para cumprir tabela, mas perdeu o jogo.
A melhor cena é a aparição do All Star.
Kirsten Dunst é a segunda coisa feia mais linda do mundo (a primeira é minha ex-bulldoga, Miranda). Dunst divide a segunda posição com Chloë Sevigny, que não aceitou meu pedido de casamento.
A trilha é boazinha, mas faltou Louis XV (Me, me, me, me…). Em compensação desenterraram Adam & the Ants. Quase tive uma síncope.
Agora Bee e Karla me devem um filme bom e Cris me deve um show bom. Estou anotando tudo.

Ao mar

Ao mar
Levantar ferros.
Diz a quem ligar que já fui.
Que volto quando não for mais necessário.
Quando me esquecerem.
Quando não houver mais possibilidade de ser reconhecido.
Diz não.
Deixa morrer na ignorância.

20070422

Férias

Ferias
Talvez eu não queira entender. Talvez eu queira me iludir.
Talvez eu tenha alguma coisa tão execrável que me faça impossível.
Talvez eu me sabote.

Ontem foi bacana, hoje foi bacana, sexta foi bacana.

Então, talvez eu não saiba de nada. O que é mais provável.
They call it stormy monday. E, no entanto, sumo por uma semana, a partir de segunda. Vou encontrar o mar, que me deixou há anos.
Vou ver se ainda vivo, se ainda sinto, se ainda sofro ou se finjo o tempo todo.

Peço que fiquem bem, porque é mesmo a única coisa que tenho pedido por aí. Que fiquem bem. De verdade. Pois esse sacrifício todo é só porque a gente vai ficar bem. Se não for para ficar bem, vamos voltar a fazer as besteiras todas. E juntos, que é mais divertido.

20070421

M.

M.
M. surgiu do nada, atropelando a tudo e a todos com uma energia infinita e cabelos encaracolados esvoaçantes. Vermelhos. You had to love her.
M. tem um nariz absoluto, expressões impagáveis, humor pheeno e besta ao mesmo tempo. But she sucks at dominoes.
M. deixou-me enlevado sem esforço algum. Bastou um dia, alguns e-mails, vários SMSes e estávamos beijando.
M. é uma possibilidade sempiterna. Alguém que me deixa intrigado e por quem eu desenvolvi um carinho instantâneo, irrestrito. O que M. tem de entender é que M. doesn't stand for Medusa. E que não sou Perseu, mas tenho meus artifícios, minha malícia e minha pegada.
M. tem saboneteiras de promessas. Tem um sorriso de anime. Tem temperamento arisco, leituras de gente grande, cacoete de colunável. E ameaça raspar meus bigodes.

20070420

Fitzgerald knew you before you did

'You know, you're a little complicated after all.'
'Oh, no,' she assured him hastily. 'No, I'm not really—I'm just a—I'm just a whole lot of different simple people.'


in Tender is the night

Recompensa

Recompensa
Descobri que uma ex-namorada usou meus textos para "seduzir o gatinho". Usou minha prosa mequetrefe, que sem ela (ela, musa) não valia nada — assim eu acreditava —, para fazer pouca-vergonha com unzinho qualquer.
Foi o maior elogio que ela poderia fazer ao escrevinhador de quinta categoria que eu era. Ainda sou.
Quando descobri, perguntei. Quando perguntei, ela admitiu.
Mandei-lhe um beijo de frio de madrugadas e um crisântemo.

20070419

Another shot

aonother shot
O fervo pré-balada era ali, ao pé de Adamastor, o gigante camoniano, Bairro Alto, Lisboa, 2000. As moças, algo jovens demais para mim. O álcool, algo demais para qualquer um.
Seguíamos dali para Santos, quase sempre. Essas rotinas não escolhem cidade, ou país, ou continente. Creio mesmo, ainda que minha experiência seja parca nas menores, que independa do tamanho da cidade.
Seguíamo altos do Bairro Alto, portanto, para os botecos de Santos, fazer a ronda com jeito de footing, de ponta a ponta da rua cujo nome eu nunca soube. Parávamos em todos os botecos da tal rua e tomávamos um shot em cada parada. O shot era uma mistura de três destilados que achei por bem nunca perguntar quais eram.
Íamos assim, andando, bebendo e conversando. E a rua em questão ia diminuíndo de comprimento. Com o avançar da madrugada, ela ficava bem pequena.
Foi em Santos que conheci as duas portuguesas realmente bonitas. As duas únicas em seis meses.
Uma delas, mais sensual que bonita, olhos quase verdes, delgada e curvilínea, parecia uma namoradinha de duas semanas que me despertou a libido em definitivo quando tinha eu 13 anos. Uma pegação de machucar as costas no muro, de morder pescoços e de a mão ir parar onde ainda não havia ousado. Quando fomos apresentados, não percebi que o gordão chato ao lado dela era o namorado. Noivo. Não percebi e demorei a sacar, envolto numa conversa animada sobre ourivesaria e design de jóias. Foi o amigo (e colega de trabalho) português que, aproveitando a saída da moça à casa de banho, alertou-me ao fato, e descobri o motivo da antipatia do gordão portuga pelo gordinho brazuca. Sim eu estava gordinho.
Esperamos R___ voltar e nos despedimos, evitando assim um conflito internacional. Chamavam-nos os shots e a difícil volta à Rodrigo de Freitas, sozinho e guiando bêbado. O carro teve de dormir fora da garagem.

20070418

A dolorosa

A dolorosa
Não há budas aqui, você dizia. Queria que nos desculpássemos, isto é, distribuíssemos perdões assim, tal qual doces em festa de Cosme e Damião. Queria que as pazes fossem feitas, plurilateralmente; que declarássemos a anistia total, geral e irrestrita.
Houve um momento em que eu te olhava, cínico como me cabe o papel, à espera de um "revanchismo não!"
Mas você dizia não haver aqui budas e que tentávamos todos. Mas não fazíamos muito mais que isso, não é mesmo? Tentamos. E falhamos, inapelavelmente. Quando chegou a hora de prestar contas, mais cedo do que eu esperava — muito, muito mais cedo do que eu gostaria —, quando veio a conta, a gente devia um portento. E advinha quem fez o bom-moço, o cavalheiro, e pagou?
E ainda estou pagando.
Não há budas aqui, aquiesço e dou fé. E admito mesmo por isso que somos um pouco mais livres para errar, para discutir koans mesmo sabendo que é um exercício de futilidade, como jogar dois-ou-um em duas pessoas. Mas a gente se diverte e, lá no final "das contas", é só isso que interessa.

20070417

Purgatório 2.0

Purgatório
Sentia-se perfeitamente sã naquela tarde, o que a fazia parar e começar a ponderar: o que foi mesmo que mexeu tanto com ela que a impede de ter uma vida normal?
Bem-vinda à Terra Encantada da Auto-comiseração, um pedaço de terreno longínquo e seco no qual ela quase não consegue respirar e sente sede o tempo todo. A população do local não excede 490 habitantes. Na real, parece um pequeno pedaço do inferno. Um franchise, se prefere.
O populacho local faz piada de seus ferimentos como forma de manter a sanidade. O que eles não percebem é que não são nem um pouco sãos. Fantasma, a maior parte deles. Cidade-fantasma.
Esperar pelo ônibus não a levará a lugar algum. Não trará nenhuma conclusão. Nenhuma idéia genial. Revelações esotéricas não são vendidas aqui, e nunca nesta época do ano. Ninguém deixa esse local. Nunca. Todos fazem parte da paisagem, a esta altura. A não ser ela, a doida com a estrela tatuada na testa, pode entrar e sair quando quiser. Entrar e sair, desde que se conhece por gente. Mas ela sequer gosta daqui, Cidade-espelho, e se surpreende cada vez que entra nesses domínios.
Teria sido o desvio em Albuquerque? Teria sido a falta de gasolina? Teria sido o mojito batizado que aquela vagabunda loira e alta a fez beber?
Nah. Volição. Demoraria mais quinhentos anos de terapia para começar a entender por que ela faz isso consigo mesma. Melhor fingir que está tudo bem e fazer dessas horas aqui o menos sofridas possível.
e foi mesmo por isso que ela trouxe o clarinete que não sabe tocar. Diversão. No sentido de tirar a atenção das coisas que a aborrecem. Ou machucam. Tirar a atenção de si mesma. Agir de um jeito que evite de aprender alguma coisa. Porque aprender alguma coisa a tiraria daqui num piscar de olhos. E provavelmente a faria acordar.
Aqui, ela é rainha. Ela só tem passe-livre porque sempre acaba voltando. E aqui ela se move com elegância, com finesse. Essa Cidade-sonho é o lugar onde seus caprichos são leis, efetivas no momento do seu desejo. Estranhamente a felicidade nunca está por perto, mas isso a faz pensar se a felicidade é realmente aquilo que ela deseja.
E é por essas horas, quase alvorada, que o ônibus, vejam vocês, passa mesmo, e ela tem de partir. Ir embora até que ela ergulhe de novo. Outra queda. Outro amor.
Ela quase ten pena de ser ela mesma.

20070416

Mundano

Mundano
Ando por aí sem muito o que dizer e é por isso que me arrependo sempre que abro minha grande boca.
Ando pelo mundo tentando enganar o mundo, fingindo que sou interessante, que sou culto, que sei o que estou fazendo.
Mentira. Sou uma farsa, um engodo. Sou bem menos do que aparento e muito, muito menos do que gostaria de ser.
O fato de andar por entre medíocres me faz ainda mais triste. O fato de perceber minha insignificância faz doer mais. Males da mente. Males da alma.
Mundano. Comum. Ordinário até os ossos.
Mas com ares de quem ainda acredita que cresce um pouquinho a cada dia, a cada solavanco, a cada escolha de caminho na forquilha. Com aparência de quem erra com consciência de que não há, mesmo, mesmo, decisão acertada. Que é sempre questão de fé, coisa que já perdeu. Então vira questão de piada. Questão de se divertir, e aos outros, e fazer um pouquinho menos séria essa sucessão de erros que parece que não vai mesmo me levar a lugar algum.
É um quase jogar de toalha.
Quase uma capitulação.
Levantar da cama até que é fácil.
Difícil é me convencer de que levantei.

20070415

Jogatina

Jogatina
Eu quis você, exótica, como você mesma se definiu. Ou melhor, à situação. "Situação exótica", foram suas palavras. Um happening algo diferente, nada convencional. De susto, de supetão, cheio de possibilidades e cheio de entretantos.
Mas.
Porém.
Contudo.
Todavia.
Eu sempre escolho a opção não óbvia. Eu amo o diferente. Eu busco o desconhecido. Eu não caibo no meu tamanho. E você não cabe no seu.
E não temos muito medo. Nem vergonha.
Adorei seu café. Gostei mais dos seus beijos. Entretive-me com suas derrotas. Mas eu tentei avisar: eu sou aquele que, depois da primeira rodada, vira o alvo. Todos contra mim. A história da minha vida.
E, delenda Carthago: Dudinka shall be conquered!
At all times.

20070414

Volta

Volta
Ela voltou.
=)

20070413

Oh, so freak

Freak
Swing like a motherfucker.
E nós podemos dançar a noite toda.
Ou eu posso tocar até você me pedir para parar.
Olha, eu tento ser besta — e faço um ótimo trabalho nesse quesito —, mas é para você me notar. Eu sou besta quando quero.
E rebolo quando preciso.
E só bato quando pedem (mas isso eu já disse, isso você já sabe).
Eu faço suas vontades enquanto você acha estranho. Quando você achar que é obrigação, eu paro. Percebe? Viu o que fiz?
Mas você me acha estranho, sempre achou. E só fica porque é curiosa. Fica porque acha que eu não estou nem ligando.
Serpentina, confete, lança e areia. Eu visto e dispo e você não se furta a espiadela. Pelo buraco da fechadura, pelo meio da tarde, sonolenta, entediada.
E BAM! Lá se vai sua certeza, chorando buscar a mãe.
Nunca disse que seria fácil. Nunca enganei ninguém. Sempre fui pego no flagra porque eu mesmo me dedurei.
Mudo sua vida, se você deixar. Acabo com sua "zona de conforto" (expressãozinha mequetrefe essa sua) quando você menos espera. E te dou outra, quando você menos espera.
Gingo. Padeço. Duvido. Faço gozar.
Pondero. Perco. Amanso. Nunca peço para parar.
Quase nunca.
Quase hoje.
Deixa de mentiras, que mentiras são tão last-year… E nunca combinaram com seus olhos.

20070412

Há vagas

Procura-se Diretora de Arte com referência e que durma no emprego.
Sign of the times.

Tocata

Tocata
Clodomiro fazia seu trabalho de lixeiro com a certeza de ser aquela uma situação temporária, um estágio até conseguir seu primeiro emprego.
Concursado, já no terceiro quinqüênio, não se preocupava muito e tecia planos enquanto recolhia e arremessava sacos de lixo na caçamba que lembrava a boca da sogra.
— Vããi!
Clodomiro levava seu casamento como se fosse seu trabalho, com diligência, tédio e desdém. Guardava em si a certeza de que um homem precisa constituir família e que aquilo era uma obrigação, uma ante-sala do grande amor de que falavam as músicas que escutava no walkman, no gravador, canções das fitas que ganhara da primeira namorada, há quantas décadas?
Clodomiro jogava na Esportiva e no Bicho. Clodomiro ia à igreja aos domingos, com a mulher e os dois moleques. Clodomiro não gostava de futebol. Clodomiro era de Oxóssi.
Quinta-feira, Clodomiro viu alguma coisa num saco de lixo que acabara de pegar e, antes de jogá-lo na caçamba, parou e ficou ali, por segundos, tentando não abrir o saco.
Deixou cair o fardo, fazendo barulho de vidros. Despiu-se e arremessou a roupa na garganta da sogra. Gritou:
— Vãããi!
O caminhão pôs-se em movimento enquanto Clodomiro corria como nunca, na direção oposta.
Sua mulher, orientada por Pachequinho, "adevogado", amigo de dominós de Clodomiro, entrou com um processo de abandono do lar. A Limpurb declarou abandono de emprego. Julio, o argentino da borracharia, tomou seu lugar no dominó. Pachequinho acabou mudando para sua casa.
* * *

Clodomiro, disse Afrânio, do boteco, foi visto em Recife, na companhia de um gringo, discutindo alegremente, vestido de marinheiro. Dona Mercedes, entretanto, conta que seu marido, caminhoneiro, quase nunca visto no bairro, teria avistado Clodomiro em Goiânia, cozinhando num restaurante de beira de estrada, imputando à patronagem as mesmas músicas românticas daquelas fitas que tocava nos churrascos em sua casa.
A mulher de Clodomiro fez uma careta à menção das fitas.

20070411

Descida

Descida
Pode parecer paradoxo (e alitero sem classe, sem estilo; alitero como meu nariz) essa morosidade toda em alguns aspectos, enquanto outros correm além da possibilidade de controle.
Basicamente, não esterça.
Um lado não faz a curva. Do outro, me sinto parado na fila da Imigrantes, Operação Descida, vendo o mar, de longe, e passando mal de tanto calor.
Ao menos o som não quebrou.
Sujeito desiste, senta-se ao lado da estrada, fuma seu cigarro e olha a fila que se estende por quilômetros e não se vê início ou fim.
Não se vê saída.
Assovia "Take five". Assovia "It had to be you". Assovia "Between the devil and the deep blue sea". E olha o mar, algo esperançoso.
As buzinas pedem-lhe movimento. A impaciência alheia lhe quer vivo. Sujeito põe-se, lento, a entrar no carro. E começa a dirigir, repetindo a si mesmo, em voz alta, no contratempo da música qualquer que brada dos falantes, cobrindo buzinas e admoestações, expulsando à força de ar comprimido saudades e dúvidas. Repete, eu dizia:
— I travel light.
— I travel low.
— I travel alone.

20070410

Cansaço, cum lauda

Cansaço
A ficha ainda está caindo, sabe. Ela não é fácil de engolir.
Você se entrega na quarta e me rejeita na sexta. Você diz que não significa nada, que não sente nada, mas volta. Volta. Basta achar que perdeu, volta.
Ainda não consegui pensar no assunto. Dói, ainda. E essa dor surda não me deixa ouvir o que penso. E, novamente, deixo as possibilidades escaparem.
Um dia eu aprendo, Vanilla, que minhas amigas têm razão. Que você é louca, V. Que você é muito menina, Curvinha, e que eu preciso de mulher. Que você não vale a pena, Olhicerúlea. Que eu sou muita areia para o seu caminhãozinho (você, que é feita de azul…), Lua.
Aprendo. Entendo. Me convenço. O que vier primeiro.
Where's my will? You're (still) my thrill.
Saí para comprar tempo, óculos de ver mundos, meias de bolinhas. Saí para tomar café com uma amiga sua.
Adeus.

20070409

Réclame

Reclame
A retirada dos anúncios e fachadas das lojas de São Paulo expôs a decadência da Cidade. No fundo, somos sujos, feios, desbotados. Descobrimos também as estruturas há muito esquecidas. E lembramos que temos personalidade.
É questão apenas de raspagem e pintura. É questão de assumir a idade.
No final das contas, vejam vocês, não somos assim, de se jogar fora…

20070408

Girly Girl

Girly
Girly Girl makes me weak, Girly Girl makes me fly.
Girly Girl makes me wanna cry.
She's so far, she's so perfect
I no longer dream of long gone days.

Girly Girl wants me freak, Girly Girl have me shy.
Girly Girl makes me stay.
And I cannot say if it's day
Or night.

Be my possibility, Girly Girl
I'll be your absurdly,
Impossible guy.

Lend me your dreams, Girly Girl
I'll show you what I got:
Wonder, lust, lies.

20070407

Rêve

Rêve
Deixeu entender uma coisa: eu viajo forte, não é mesmo? Porque não é possível que Girly Girl — chama-la-emos assim — esteja interessada. Porque Girly Girl é uma das mulheres mais lindas que já tive a oportunidade de conhecer pessoalmente. E uns vinte centímetros mais alta.
E, no entanto, era para ela ter ido embora naquela hora. Mas ficou ali ouvindo o amarelo falar e falar e falar. E contei meus sonhos, os sonhados e os inventados, e ela os quis, mais.
E o rapazola nos olhava com cara de quem sacou.
Sacou o que, felha? Eu não tô podendo. Não estou com essa bola toda. Não é assim.
E, no entanto, Girly Girl largou o que estava fazendo no dia seguinte para comentar o e-mail e entrar numa conversa despropositada, mas assaz interessante, sobre arquétipos e "estilos" de psicanálise.
Sabe aquela história do "eu sou legal, não tô te dando mole"? Pois é. Quase desejo que seja mesmo isso.
Porque, se não for…
Se não for, eu não sei mais o que fazer. Principalmente quando S. passa para "ver como estão as coisas", e Vanilla me liga do nada e fica num papo de provocar o mais santo dos freis eunucos isolados. Por hora e meia. E eu já estava convidando a Dirgra para vir dormir aqui em casa. Pô. Assim não dá para ser sério.
Não que eu tente, assim, com fervor.
Não que eu não me divirta.
Mas eu queria ter fama de mau.
Mau com U.
Não sei, Girly Girl. Você até parece o tipo de mulher que arrisca. Mas eu não acho saudável outro tipo de decepção desse tipo.
Then again, I've been playing another league since last year.
And you're my best little secret yet.

20070406

Preluto

Preluto
Ornette me pergunta quando eu vou deixar de ser falastrão e fazer logo o tanto que me prometo e que digo a ele que farei.
Acontece, Ornette, que há mais gente envolvida, sempre as há. E ainda não sou o insensível felhadaputa que você gostaria. Estou tentando, mas acho que a Mimosa não vai deixar. Ganhei uma válvula-mocinha, saca?
Ele não saca, o celerado. Vira a cabeça, coça atrás da orelha, dá de ombros e se estica no sofá. Ele saca, mas quer me provocar. E poder me chamar de maricas.
Deixo o sax no pedestal, cansado de tocar, para olhar a chuva que cai, finalmente, em São Paulo, e me perguntar como fazer para deixar o menor número de baixas. E não vejo muita saída.
Preluto porque me deu vontade de neologismar.
E justifico a procrastinação com o entusiasmo da moça com o evento próximo. Eu não tenho o direito de atrapalhar isso, tenho?
Ornette diz que não vai fazer diferença.
Mas eu sei que vai.
Seis dias, nem é muito.
Eu que sei.

20070405

Abnegado

Abnegado
Quantos rompimentos é uma pessoa capaz de perpetrar em um único mês?
Quantas coisas e vidas e histórias é um moleque capaz de deixar para trás, para poder seguir errando pelo mundo?
Duas já foram. Falta uma. Não sei dizer se será a mais difícil. Não sei quanta surpresa ela terá. Não sei se haverá discussão, se haverá celeumas. Estou decidido e esperançoso e com um medo da moléstia.
Mas não há muito mais o que fazer. Quando a coisa morre, carregá-la por aí só faz incomodar o mundo com o cheiro. E é anti-higiênico. E, esteticamente, injustificável.
Pois que seja, que venha. As decisões já estavam tomadas há um tempo. Agora é fazer.
Respira.
E vai lá, sóbrio e sem desculpas. Que é o jeito de sujeito homem fazer as coisas que tem de fazer.

20070404

Irresponsável?

Irresponsável
— Hoje estou muito irresponsável, Cangaro Giallo.
— Eu quero sua irresponsabilidade. Sei muito bem o que fazer com ela.
— Sem-vergonha.

20070403

Mau

Mau
Você já deveria saber, em abril, que apelar para minha taradice é garantia de resposta imediata, impertinente e saliente. Então, por que o espanto? Levou exatamente aquilo por que pagou.
Com direito a chorinho.
É, sou pródigo no departamento, mas foi você mesma quem disse que gosta de me provocar. Gosta porque não me faço de rogado.
E você fica linda quando enrubesce.
Mas, andei pensando, ninguém ainda te levou café na cama. Você desconhecia os conceitos de hate-fuck e make-up-fuck. Você não sabe, na prática, o que é um orgasmo múltiplo.
Sei que fui cruel, mas eu estava puto e um tanto ébrio de tédio quando disse que ninguém ainda te comeu direito. Você tinha todo o direito de me largar ali falando sozinho.
Mas ficou.
É uma relação sado-masoquista, é claro que é, mas eu tenho o látego agora. Vamos ver onde isso vai dar.
E, para que você tenha certeza de que eu sou mesmo metido, ouça esta: apesar de você já ter passado da idade, eu topo pegar você para criar.
Oferta por tempo limitado.

(e sempre posso por a culpa na lua cheia)

20070402

Lua cheia

Plenilúnio
Plenilúnio.
É a minha desculpa.
Qual é a sua?

Perspectiva

Colocando as coisas em perspectiva.
Besta, mas divertente.

20070401

L.

L.
L. foi uma das primeiras. Das primeiras paixões avassaladoras, dessas que coleciono. Morena, olhos azuis, magrinha, nova demais. Não para mim, que era novo. Tanto quanto.
L. me desprezava amorosamente e me admirava intelectualmente. Desde a década de 70, vocês vêem.
Nessa idade, você não pega mulher da sua idade. Só mulher mais nova. Peguei a amiga de L., pensando em L.
Não foi bom, mesmo naquela época.
L. foi, no final, a primeira grande decepção.
Reencontrei L. quando prestávamos Fuvest. Nunca mais.
Provavelmente não a reconheceria hoje. E acho melhor assim.