20070531

8 ½ Women - Amanita

Amanita
4.
Naturalmente doce, samaritana contumaz, não era possível encontrar alma que a detratasse. Em sua passagem pelo mundo, nada constava que a desabonasse. Suas maldades, cada vez mais perversas, cada dia mais cruéis, permaneciam confinadas às suas fantasias. Chutar aquele mendigo bêbado até ficar exausta, naquela madrugada especialmente irritante de caridades, valera perder os sapatos de quatrocentos reais.

20070530

Cortázar, 28

Choro porque tenho vontade e, sobretudo, para que não me consolem.

Rayuela

8 ½ Women - Cannabis

Caffeine
3.
Nunca fizera mesmo muito sentido aquele discurso todo, ela sempre disso soube. Enquanto vocês olham meus peitos, aceitam minhas mentiras e me agradecem.

20070529

8 ½ Women - Caffeine

Caffeine
2.
Todo o esforço de uma vida controlando o peso, quilogramas sempre dando um jeito de escapar à barreira de dietas e remédios comprados às escondidas, séculos de privações a um custo muito maior do que seria razoável quando o que queria mesmo era se afundar em suas literaturas, seus bordados, suas plantas. Quem foi o filhadaputa que a convencera de que deveria ser "gostosa"?

20070528

8 ½ Women - Ayahuasca

ayahuasca
1.
Era fácil ser simpática. Era realmente muito fácil fazer com que as pessoas se sentissem à vontade. Não havia esforço algum, bastava sorrir e o interlocutor lhe contava os segredos mais sórdidos. Confiança instantânea.
Matou-se de tédio aos 26 anos.

20070527

Darjeeling

Darjeeling
Cansado.
Prostrado.
Morto.
Gasto.
Sorve darjeeling, o chá-moscatel, o rei dos chás pretos, salve-salve, hula-hula.
E quer um pouco de paz em finais de semana, de dia, de trabalhos de bom-mocismo e sem-vergonhice.
O chá traz só um pouquinho do tudo que espera e acha que faz por conseguir dia-hora-minuto-pedacículo de tempo mal colocado.
Mal urdido.
Exaustão de quase-mundos.
E, se não se cuida, acabam-lhe os hífens e o jeito fácil de neologisar.
Mas recusa-se a colocar açúcar no chá, porque o chá há de se saborear assim: puro. Quente. Intenso. Inteiro.
Faz peregrinação de ouvir queixumes e piadas e deixa o mundo um "cado" mais sorrisos e obrigados e não suma e não-me-leve-a-mal.
Não levo.
Sou folha.
Já desboto. Seco. Viro chá.

20070526

Orquídea

Orquidea
É quase como se houvera apenas o cheiro. O intangível. Não se pode aprisionar o vento. Não se pode iluminar o ar. O chá de orquídea é cheiro; e o retrogosto picante. Como foi a nossa primeira noite, noite de distância, gozo e dolo.
E, quis você, alguma hipocrisia necessária à manutenção da sanidade dos envolvidos. Sim, sou forçado, circunstancialmente, a concordar: estivemos por um fio.
Estamos.
O chá, a orquídea, nos envolve e promete embalar, mas não conseguiríamos dormir ainda que quiséssemos, na espera do sabor apimentado, uma vez mais, da vida mais forte, mais cheia de sabores e plena de pequenas surpresas curtidas em admiração silente.
Não dormimos pois ainda há léguas a cobrir e o tempo, que já é escasso, ameaça mudar. Não dormimos porque não nos deixam os gemidos e os sussurros e o absurdo.
Chá de orquídea. Absurdos meio-amargos. Semanas. Quilômetros. E medos.

20070525

Pu li

Pu li
Recende a coisa velha, leva a pensar em coisas que andou deixando escorrer para baixo do sofá, coisas que esquece e que perde por aí. Faz lembrar que eu não move o tal móvel (ironia, pois claro) por medo de que seja um embaixo-do-sofá-de-pandora.
Pu li, o chá, é que o faz pensar em como essa conexão bizarra de olfato e memória que parece, para todos os efeitos, erro de projeto.
E é quando o sujeito retoma o mote da farsa, de ser um engodo, de improvisar o tempo todo. Não chega a ser fingimento, não há, efetivamente, dolo. É mais…
Em algum momento, fulano sente que o mundo principiou no barranco e todos pararam de subir. No movimento desordenado para baixo, os poucos que conseguiram se agarrar a tocos e freixos retardam um pouco as próprias quedas.
E são tidos por heróis. Ou gênios. de qualquer maneira, excepcionais. Mas não o são. O elemento sabe, em si e para si, que está apenas atrasado, que perdeu o bonde ou que o não-cair é muito mais fruto de inércia ou preguiça que de indignação ou princípios.
Quiçá comportamento anti-social.
Ao tentar explicar a farsa que é, ou se tornou, mesmo que isso lhe tenha fugido ao controle, o indivíduo nunca sucede — como, no mais, era de se esperar. e ganha mais selos e galardões e agora se-lhe exigem mais e mais, tanto mais quanto insista em fugir da posição a si outorgada por seus pares de queda.
Não é dele a opção, eleito no foro maior da carência geral por algo diferente, que seja. O bobo da corte traveste-se de nobre para diversão, entenda, e incomoda-se com as mesuras.
No fundo, era uma piada. Que lhe escapou do controle.
No final, foi incompetente até para esse tanto.
Não há glória, enfim, não há riso.
Há cansaço; e a obrigação de improvisar, um dia mais.

20070524

Camomila

Camomila
A camomila me leva sempre à cama. Camomila, hei de sempre lembrar, é minha cama. O cheiro da camomila vem me buscar léguas, traz-me vencido e me põe entrte lençóis, afunda-me em algodão sintético (que seja) e lãs e acaba comigo, maleita, febre terçã, tsé-tsé disfarçada de vaga-lume.
Camomila em doses mais fortes e mais freqüentes, em obsessão que cresce até o ponto de estancar, de repente, e cessar.
Para sempre.
Outros chás não me acalmam (passiflora, não me acalma), e calma eu tenho de ir buscar em mim, em recônditos estranhos dentro desse ser descabido, of all places. Outros chás, outras tarefas "chazianas", de acordar, de esquentar, de fazer esquecer.
Mas não se esquece assim, mesmo que outros sejam os cobertores e colchões e mesmo que haja futons e ainda que lençóis de enredar e travesseiros abundem.
Mesmo assim.
Não é preciso muito, entretanto, para resolver a advinha. É suficiente saber que são outros chás e que os há em profusão, sempre em algo melhores ou piores. Somente diversos.
Abraço a diferença, portanto, como à amante que me visita de mês em mês, cobrando zelosa o aluguel de afagos e gozos, e deixando o recibo de leveza de fofice, o carimbinho de excelente-parabéns no caderno de agrabilidade de tardes voluntariosas e noites de conchinha.
E quando novamente só: ofurô e chá. Eu e meu mundo em infusão.

20070523

Ban-cha

Bancha
Sorvo o chá verde quase insosso que me engana e me enche de saudades e me faz querer mais, eu, que tudo já perdi, descubro a cada dia mais coisas de perder. Não é fantástica essa capacidade cornucopiana de perder e perder e perder e olhar para trás e não ver nada, que já tudo é perdido e não mais importa?
É, a prodigalidade é minha.
A abnegação só entra em efeito assim que eu já não posso mais reclamar o perdido. E faço pouco caso do que não é mais, que é assim a vida de um Cangaro Giallo — tolo, espavorido, divertente e safado.
Olha bem para mim agora, que não dura muito o que vês. Logo eu perco mais alguma coisa e sou outro, mais leve, mais duro, apontado na rua e impedido de entrar em igrejas. Um fauno, uma lagarta-listrada, um arminho-do-demônio, um livro-de-horas.
Eu, que mais do que tive fui capaz de perder, não ligo de perder mais um pouco, que é mesmo minha vida essa de refazer e reinventar os buracos parecendo à vontade com essa vida de dar.
E não, não quero nada em troca. Um gosto muito sutil de ban-cha, quem sabe, uma lua, de quando em vez.

20070522

Chá preto com lichia

Lichia
Uma lichia equivale a três tochas. E não me peça para dizer isso em cantonês porque bem sabes que ando mais carcamano que nihonjin. E que nunca fui chinês.
Decerto não preciso ser mais yang hoje: a tensão já atingiu os limites permitidos por lei. A saudade arrebentou os medidores.
Não, querida, não faças pouco, não faças caso. Eu entro em combustão espontânea — já aconteceu uma vez em algum lugar do hemisfério norte, e não foi bonito. Ainda procuram por mim nos escombros.
E só porque eu resolvi aparecer aqui, hoje, inteiro, isso não significa muito.
E já escuto as sirenes dos precavidos bombeiros — vá lá, eles contrataram videntes de prever incêndios. E é melhor eu me cuidar que fugir de países é trabalhoso, caro e divertidíssimo, mas nunca sozinho.
E sozinho…
Chá preto com sabor de lichia, bem lá ao fundo, escondido de ter de prestar atenção máxima a cada gole. E de se perguntar se é mesmo verdade que há ali lichias ou se as gentes, por força de auto-sugestão e medo do ridículo, por total incapacidade de lidar com decepções sonham lichias e as colocam onde nunca as houve.
Eu sei do cheiro.
E sei do yang.
Boas noites.
Durma bem, se podes.
Eu me viro, como me aprouver.

20070521

Jasmim

Jasmim
Porque nunca tomei chá de jasmim do jeito que deveria, colocando a flor numa xícara e deitando a água, em quase-fervura, por cima.
E fico imaginando se mudariam o sabor, a fragrância, a textura.
Eu fico sonhando com a textura da sua pele.
O perfume.
O sabor.
E lembro que "com música francesa é mais fácil", e sou condescendente comigo mesmo, porque hoje a noite me pede doçuras e calmas e repouso e que eu seja sempre, sempre mais doce. Doucement.
Arrancas de mim a temperatura e a cor que há anos não sabia ainda haver, guardadas para mais tépidos dias de me perder novamente.
E, desta vez, quero me perder sem medos.
Só acordo por falta de você ronronar ao meu lado, deixada para não-existir em volumes algodoados. Linda. Impossível. Ausente.
Você um dia pode me deixar, mas é preciso que ande ao meu lado para sempre, infinitamente presente em lugares exóticos e lugares-comuns. E só para que eu te faça um pouco mais única, um chá que não existe fora do meu mundo inventado, em que essa distância só existe de mentira. Estupefaciente.
Mundo tão pequeno que não cabemos mais nele.
Flor de jasmim do tamanho de sequóias, do tamanho da vontade que deixaste em mim, em meio a árvores — você lembra, quando eu perdia palavras embaixo de folhas secas, nervoso, apaixonado?
Porque não há mais lugar em que negar, não me cabe mais a dissimulação.
Jasmim.

20070520

Ti kwan yin

Ti kwan yin
Sozinho com a deusa da misericórdia eu peço um pouco de calma aos meus setecentos demônios. Calma pois que ainda vem a tempestade e a fúria da fênix.
Parece tudo assim brega porque são exagerados os sentimentos na espera que pode ser infrutífera, mas que é sempre mais intensa quanto é puro esse querer.
Abençôo a minha capacidade de regeneração enquanto sorvo toda a vida que sai da tua boca, de teus dedos e seios brancos.
Neve.
Frio.
E espera.

20070519

Falta

Falta
Eu já tenho saudades.
Ainda que isso não faça sentido.
E, nessas horas, não há o que ajude.

20070518

Ar

Ar
Dias de ser, somente.

20070517

The book of possibilities

Possibilities
Um pouco mais cansado, se por nada mais, por ter sido.

A consistência com que tenho sido uma decepção ao mundo é de uma pungência que faz casa na pele.

Ando aprendendo a deixar algumas coisas incompletas.

Sinto uma irresistível vontade de que me ensines aquilo tudo que me recuso a aprender por medo de abandonar-me ao mundo.

E o mundo.

E me sinto enorme e me sinto menor; e olho novamente para "enorme|emenor", anagramando e trocando tatuagens meio que sem querer.

E acordando sabe-se lá em que momento e em que momento deixando-me tomar de assalto.

Lânguida, se desfaz, e propõe um nada — que nada sobra depois de mais.

Sempre teves razão — abraçados, somos lindos de livros de pigmentos feitos de dor.

O dia é isso que não cabe mais que comedimento.

Rosario Castellanos volta a me assombrar.

E a noite não sai de mim.

Parece mesmo improvável que tenha eu sido algo mais que um erro.

20070516

Preguiça

Preguiça
Entregue à preguiça fico solto, lasso no sofá, na banheira, no chão da cozinha recém limpa pela faxineira que não me vê e não me sabe. Cheiro de desinfetante, lembranças aleatórias de infância, de tempos mais leves. Leveza preguiçosa.
Hoje, pensando em mim como pedaços e nomes que são dois mais que o suficiente, mas são todos os que me definem, sempre um pouco mais diferente que ontem. Ontem. Tempo. Eras. Centenas de anos.
Preguiça que me faz mole e deixa um pouco das necessidades e verdades do lado de fora, na sacada, tomando sereno, esfriando ao relento. Perdidas.
Já me parece tão bom esquecer um pouquinho de mim e de tudo o mais que faz fila pedindo atenção, uma xícara de açúcar e mais um beijo. E mais uma palavra. E, talvez, uma torrada, com mel.
E vão vocês trabalhar e lavar louças e limpar caixas de gatos e googlar atrás de seus próprios nomes que o mundo espera. Espera, mas não se importa. E eu menos um pouco, aqui prostrado e feliz como Ornette em nesga de sol.
O chá também pode esfriar e Claire pode esperar e a cama está muito longe agora — longe de não fazer falta pois eu sou preguiça e eu também posso esperar.
E fico.
Que hoje é resto de dia que se deu tanto ao fazer e eu quero menos é fazer. Ou ser.
Deixa eu sumir um pouquinho, amicíssima, que daqui a pouco vem o sol pedir ciência e pertinência e veemência e ências várias de todas as seriedades possíveis todas tudus. E agora, neste nanossegundo, eu não sou mais e perdi meus nomes e desisti de ver. E de saber.
Deixa a lua me lavar, ela que nunca me pediu nada e sempre lhe dei mais. Deixa que ela me dê um pouquinho, que eu não mereço, hoje, agora, mais que o segundo que vem.
Seja boazinha, portanto, e não me ligue, não apareça, não pense em mim. Porque saudades não combinam com preguiça e eu sairia correndo a escrever um texto compriiido e cheio de louvores para ter você uma vez mais.
E tenho preguiça.

20070515

O.

O.
O. talvez tenha sido o maior erro da minha vida. É, possivelmente o maior.
O. dava em cima de mim como poucas, e eu me fazia de desentendido, contrariando a torcida que gritava "Uuuuuuhhhh!" cada vez que eu desconversava. Mas O. era paciente e ninguém ia se interpor aos planos dela. Muito menos eu.
O. me pegou, planejadamente, e me derrubou com um okuri-ashi-barai. Ippon. Inapelável.
Eu quis fugir de O. mesmo quando já não era mais possível. E até o fiz uma vez, mas eu nunca fui páreo para a pragmatismo de O. Ela tinha a mim e às nossas vidas planilhadas, arrumadinhas em planilhas geradas no MS-Project.
E eu fui me deixando enredar, até que as planilhas, lá em algum ponto dos cálculos que ela fazia, me mostravam em vermelho. E O. me deixou. Assim. Simples assim.
E eu, que de O. fugira, agora não sabia viver sem ela. E fiquei num estadinho de dar dó. Dó mesmo, compaixão.
Um trapo.
O. foi para longe, para onde as mandavam suas planilhas de viver planejadamente e dando pouca margem a essas emoções bestas às quais as gentes dão tanta importância, mas não ela.
Espero que estejas bem, O. Porque eu estou melhor.

20070514

Alva

Alva
No meu sonho você se deitava no meu colo, aninhada e com um bico enorme, um bico de exigir simpatia e dedicação total. No meu sonho você ronronava enquanto eu alisava seus cabelos, que cobriam o sofá e chegavam até o chão.
Você fazia barulhinhos de gata e brincava com meu piercing e me contava o seu dia e descia a mão até, bem, até meu pau, e me fazia prometer que eu nunca iria embora.
E me apertava. Com toda sua força de gata preguiçosa, descuidada; me arranhava.
No meu sonho você tinha cheiro de maçã; e os pés gelados, e a pele mais branca que eu já vi.
E, quando eu cantava para você, você queria sumir no meu peito. E se escondia atrás dos cabelos, solfejando, tímida, e agora com as duas mãos a me segurar.
Acordei quando te beijei a boca.

20070513

Cortázar, 79

Método: a ironia, a autocrítica incessante, a incongruência, a imaginação a serviço de nada.

Rayuela

Livro

Livro
Cangaro Giallo, posso desenhar enquanto você lê para mim?
Pode.
Pode desenhar. Pode desenhar em mim.
Pode arrulhar, pode coçar as costas no chão, pode se lamber.
Pode se deixar afundar em poços sem fundo de futons fofos e infinitos — inferno de algodão que a gente jura que não deixa por nada, até que um nada nos tire de lá.
Pode se perder em imensidões de cheiros novos e cansaços de madrugadas.
Pode.
Pode ser o que quiser durante minutos: pode deixar de ver o mundo; pode inventar o mundo, pode deixar que eu seja do tamanho do teu mundo. Pode esquecer que a gente existe, que alguma coisa existe, porque não vai fazer diferença alguma se a realidade é aquela mesma ou se a gente vai fazer uma a cada suspiro, a cada orgasmo, a cada vez que a gente morra.
Faça de mim um livro, então, um livro de cabeceira, uma bula, um auto, um documento averbado — um sticker, e saia colando por aí pelas esquinas dessa cidade suja e tão antiga quanto essa coisa que eu já não sei mais explicar porque eu não a tinha visto e ela me pegou na esquina (na curva), na possibilidade do teu lirismo.
Eu me perco, pequena, eu já me perdi.

20070512

Disfarce

Disfarce
Se eu te quisesse nua, agora, para fotografar, apenas, te entregarias?
E se eu te quisesse casta, despropositadamente casta, cheia de papéis de bala colados pelo corpo, imóvel, sorrindo, chamarias teus pais?
Quando eu te quis apenas a ti, sorrisos e bocas e um pouco de questionamento, esses que não te deixam nem mesmo quando gozas, te perguntaste por quê?
Sempre que te deixo, te viras e me olhas indo embora. Segues-me pelas ruas com esse coração bagunçado que não me deixa esfriar. E fazes de conta que és a Bruxa-má-do-oeste, mesmo sabendo que já não cola.
Já não tem mesmo muita graça. Ainda que eu sorria — mas o faço porque sou besta.
Moleque besta.
Montas a farsa, fazes a perdida, a cafetina, a prostituta que de mim só quer um regalo de horas perdidas nas noites um tanto ébrias, um tanto soltas. E quando paro para olhar teus olhos, te amedrontas e corres para o meio do salão e me chamas para dançar uma vez mais.
E brilhas.
É quando eu faço o chato e te beijo. E derretes e voltas a questionar.
Porque da vida só te interessam o jogo, a incerteza, minhas caras de enfado, meus toques e minha impertinência. Da vida só tiras a casca. Só o cheiro. E não te preocupas porque achas que terás sempre dentes. Mas eles caem um dia. Possivelmente antes de te decidires morder.
Amo. Ainda que nunca isso faça sentido ou seja crível.
Mas estarei morto quando acordares.

SMSeando Giallo 6

"É preciso inventar novas formas de andar o mundo sem pisar a própria sombra."

É preciso deixar projetar nossa sombra sem pisar e ferir nosso proprio mundo.

SMSeando Giallo 5

"É preciso inventar novas formas de andar o mundo sem pisar a própria sombra."

É preciso simplesmente andar o mundo.

Antes mesmo de existir. Cacoete de vagabundo.

E antes de perceber que tem sombra. Ou cacoete.

O divertido é inventar caminhos e cacoetes. E fazer teatro de sombras.

Invente uns pra mim, va... E esqueça essa coisa de teatro q filme é mais legal.

20070511

Cortázar, 21

Tu t'arcroches a des histoires — diz Crevel. — Tu étreins des mots…

Rayuela

Possibilidades

Possibilidades
O que me mata são as possibilidades.
You're the night, you know? You're the possibilities.

SMSeando Giallo 4

"É preciso inventar novas formas de andar o mundo sem pisar a própria sombra."

Você pode andar de olhos fechados e tropeçar em todas as outras coisas...

Ou encontrar alguém que seja meus olhos.
Ou alguém que voe comigo...

(via e-mail)

SMSeando Giallo 3

"É preciso inventar novas formas de andar o mundo sem pisar a própria sombra."

Nem q seja pra virar um espectro daquilo q o levou a andar o mundo.

O importante, entao, eh nao confundir o mapa com o mundo.

SMSeando Giallo 2

"É preciso inventar novas formas de andar o mundo sem pisar a própria sombra."

Só voando. Tem q ser leve

Serei mais leve que meu vagar. Terei peso de flerte.

Bota peso esse seu hein? Tera mesmo?

Sou outro. E ja amanha ainda outro. =)

eu queria q vc casasse com a [crinipulcra] ainda q em algum nível vcs já sejam e em outro isso seja incesto

Nah. O mundo nao precisa de mais mau humor.
;-)

SMSeando Giallo 1

"É preciso inventar novas formas de andar o mundo sem pisar a própria sombra."

Voe!

Soh se for para quando e nao para onde

20070510

Corny, but right on.

Bucaneiro

Bucaneiro
Volta Londres a existir, em meio a abelhas e sweaters. Volta Berlim a existir, em meio a maçãs e vírgulas embrulhadas para presente. Voltam à vida por viéses de saudades malformadas e descabidas.
Surge Recife assim, do nada, a fazer companhia às dúvidas, à quase leviandade de cabelos carmesim — Recife e Olinda —, por motivos ainda não revelados. E Fez, gloriosa Fez, posposta, nunca deixou de existir.
A curiosidade do pirata, mais que a sua necessidade de esconderijos para o butim, é o que move o mundo, literalmente o move, em suas fronteiras. Move, alarga, faz o mundo maior porque sempre será muito pouco mundo esse que doutos insistem em agrilhoar em mapas.
Se é verdade que, bucaneiro, preciso de portos novos, é apenas meia verdade. Preciso de mar, e de que meu mundo não tenha fim. Insaciedade infinita de moleque ribeirinho sem estudo e sem estirpe desconfiando que seu rio, ainda que de proporções amazônicas, seja igapó, e o sejam todos os oceanos que encontrar, desde que esteja vivo para os ver.
Sobrevivo de cidades no desjejum, idéias no almoço e pilhagens no jantar.
E uma garrafa de rum.

20070509

Saciedade

Saciedade
Cangaro Giallo, você consegue me deixar com fome? Ainda estou na meia abobrinha e na mísera latinha de atum, sem vontade pra mais.
Eu consigo, mas acho que não à distância… Hm, já sei.

Quando você vier a São Paulo eu vou te fazer um frango à indiana macerado no iogurte, com um pesto de gengibre e alho. Frito os 238 tempeiros em azeite, reservo, frito as cebolas cortadas miudinhas e as puxo no mel. Depois, junto tudo e deixo cozinhar um pouco.
O cheiro que sai, nessa hora, sempre causa um abalroamento na Teodoro Sampaio, ou alguém se apaixona na Arthur de Azevedo. É batata.
Aí eu junto curry que, mais que o sabor divino, dá uma cor linda. Linda. E tampo.
Fica ali, o frango super-secreto conhecido, por enquanto, pelo cheiro apenas, e começo a fritar as parathas, que preparei durante toda a tarde, trabalhando a massa e pensando a moça. A paratha é feita de massa folhada, o que significa que é necessário mais tempo trabalhando a massa. Assim como a moça. Não se pode apressar essas coisas.
Tem-se que trabalhar a massa com firmeza, com carinho, com destreza, até dar o ponto. Até o ponto em que se sabe, em que se sabem: moço, massa. Moço, moça.
Uma vez prontas as parathas, cheirosas de ghee, batemos a manga, o iogurte e a gota mínima de essência de rosas e teremos o mango lassi de fazer a moça se deleitar olfativamente, de se-lhe abrirem os poros, de dentro para fora. De lhe fazer sensível.
Agora seria impossível à moça outro pensamento que não a boca cheia de pequenos pedaços de alma do moço, pequenas atenções que ela sabe, são dela, e dela somente. Extratos de olhares e todo o cheiro do mundo.
Mas não queremos, os dois, a saciedade. Há sempre que se ficar com uma pontinha de querência
à mesa
à cama
vida à fora.
Porque serão tantos os pratos e os sabores de sorvetes e as músicas e cidades não vistas, e serão tantos os gozos e os risos, que não seria justo isso acabar.
Insatisfação infinita, até quando queira a mocinha.

20070508

Cortázar, 3

E até era bem possível que tivesse razão, mas uma razão mesquinha e lamentável, uma razão de formiga contra a cigarra.

Rayuela

Óbito

Óbito
Às 8h03min os fones de ouvido foram colocados e "Blue in green" começou a tocar, seguida de "Hey!" e "You look like rain".
Nosso herói, Drama-queen, que mal dormira na noite anterior, caiu no leito carroçável aos pés de uma passante que trajava leggings e camiseta roxos e lá ficou, em decúbito dorsal.
O óbito foi constatado às 8h25min.
O defunto passa bem.

20070507

Falha

Falha
Eu devia saber, quando vi a cor dos seus cabelos, que não seria normal. E agora eu queria estar alhures. Aliors.
É notório que busco a diferença, que me aborrece o mundano, o ordinário, o padrão. Que me emputeço com a média, com a mediana, a mediocridade. Se me deixam sem supervisão, sou capaz de tocar fogo na folhinha, na caderneta e no cartão de ponto. E em quem tentar impedir. Dêem-me, no mínimo, o desvio padrão. Nunca menos.
Seus cabelos, eu dizia, mostraram-me seus olhos, e seus olhos não paravam de falar. Seus olhos tinham três anos, em plena idade do "Puquê?" Seus olhos estavam famintos naquela noite. Seus olhos traíam um ennui mal-disfarçado e pediam, ah, como eram pidonchos aqueles olhos.
E tuas bocas faziam seu truque de ilusionistas e tiravam minha atenção do mundo. E mundo já não mais havia.
Eu deveria saber, pela tua compleição, que não seria fácil. E agora eu queria estar nenhures. Não-estar.
É conhecida minha sem-vergonhice, que me enfada o morno, o insosso, o brando. Eu tenho preguiça da mesmice, da falta de imaginação, da burrice. Mas você era diferente. Incomum.
E eu não consigo parar de pensar em você.

20070506

Nerds!

O que eu posso dizer? Genial.

Despedida

Despedida
Ainda soube me dizer que era mesmo assim, que nos veríamos quando a lua fosse nova.
Beijou-me tão carinhosamente que chorei. Chorei. Chorei.
Fica bem. Ao menos o tanto que já me destes, bem.

20070505

Joost

Quem diria. O Joost me fez assistir à TV novamente…

Call now!

Call now
Preso em terra estraniera, vê sinais que não pode ler. Com o tempo, consegue divisar algo que poderia significar "plataforma 3" ou "proibido fumar". Ainda não se decidiu.
A estranheza do céu-cor-azul durou apenas os primeiros dias. A gentileza das pessoas demorou mais a deixar de incomodar. Os mosquitos…
Quantas vezes terá ainda de peregrinar veias e artérias, barris, garrafas, pulsos, ondas sonoras? Veemente, procura secar-se ao vento, mas não sabe o que fazer com o cheiro.
Não reclama — nunca foi lamuriento. Contenta-se com rabos-de-cavalo, lipglosses, piercings nos umbigos, olhos cinzentos. Critica-se por não restar muito mais de cada encontro, fortuito. De cada tiro. E sempre há a sensação de ser o último tiro.
Última chance para dançar um tango. A oferta expira em quinze segundos.

20070504

Bofe?

bofe
E, quando a gente acha que está fazendo tudo errado, é chamado de "tudo de bofe".

20070503

Cambio

cambio
Mudo mais uma vez por puro tédio de ser um só. Fosse um pingo mais arrogante, diria que mudo para poupar amigos e mocinhas da mesmice cansativa de eu ser eu.
Jogo fora todo o exoesqueleto quitinoso e fico — obviedades —, vulnerável por uns dias. Hoje. Ontem. Um final de semana mais. Recolhido ao não-parecer e com orelhas falsas de coelho.
Visto meias roxas.
Dou conselhos absurdos.
Evito espelhos.
Finjo ser brincadeira essa reinvenção da qual não posso prescindir — truque aprendido à ex-, dona de textos e olhos fascinantes. E peço mais uns minutinhos na cama.
Hoje não tem aula.
Volto a ser Il Matto perchè me pare bene così. E porque é mais fácil ser ignorado quando se tenta chamar atenção. A popularidade garante um certo anonimato e solidão. Quando você parece bem, muito bem, obrigado, ninguém se sente na obrigação de "levantar seu moral", "chamar para sair" ou "contar piada".
Por isso posso ser absurdo, hoje. Por isso posso ser sério. Posso ser esquizofrênico e inventar ascendentes e descendentes em letras outrossim extremamente legíveis e mornamente beges.
Pego ônibus errado. Durmo sem jantar. Fotografo pingados e pães-na-chapa. Ligo para amigo esquecidos. Ando no corredor, na madrugada.
Duvido.
Truco.
Mas não guardo rancor.

20070502

I won't wait forever

Dica da Guada.

Cortázar, 1

Uma barca côr-de-vinho, Maga, e por que razão não teríamos ido nessa barca, quando ainda era tempo?

[…] num mundo onde você se movia como um cavalo de xadrez que se movesse como uma tôrre que se movesse como um bispo.

Não creio que o vaga-lume extraia grande petulância do fato indiscutível de ser uma das maravilhas mais fenomenais dêste circo e, apesar disso, bastará supor que êle tenha uma consciência para compreender que, de cada vaz que a sua barriguinha se acende, êsse bicho de luz deve sentir qualquer coisa semelhante a uma cócega de priviláegio.

Rayuela

N.

N.
Não é fácil nem será nunca fácil falar de N. Mas é preciso falar de N. É necessário. E premente.
N. chegou por viéses de internet. Me "olhando" de longe, divertindo-se com meus rampantes de mau-humor. Deixou de ser uma amiga-sem-cheiro e entrou na minha vida com os dois pés na porta. Não que eu tenha oferecido resistência…
N. comprou-me pelo preço certo. Nunca foi condescendente, nunca mostrou comiseração. Mesmo nos meus momentos piores, sempre foi firme. N. não sabe, mas me fez crescer muito.
N. deu-me tanto sem nunca pedir nada em troca que eu vou ter de viver mais uns 40 anos, não por mim, mas para estar por aí sempre que ela precisar. Sempre que ela pedir. Sempre que ela quiser.
N. é meu sonho de consumo. Linda. Inteligentíssima. Mal-humorada. Com um gosto musical-literário-cinéfilo impecável. Capaz de ficar horas conversando sobre qualquer assunto. Ou horas em silêncio.
N. não é para meu bico, esse tanto eu já sei.
Mas N. pode pedir o que quiser. Eu faço. Sempre.
E desconfio que N. nunca vai me deixar. Eu sei que não vou deixá-la fugir. Nunca.

Daring

Diálogo com amiga de horas inexatas e sentimentos absurdos:

— Do que você se orgulha, então, Cangaro Giallo?
— Hm. De muita coisa não. Acho que… de nunca ter fugido do amor.
— Foda. Eu não tive essa coragem.
— Não sei se é questão de coragem. Sequer de escolha.

20070501

Cortázar, 73

A nossa verdade possível tem de ser invenção, ou seja, literatura, pintura, escultura, agricultura, piscicultura, tôdas as turas dêste mundo. Os valôres, turas, a santidade, uma tura, a sociedade, uma tura, o amor, pura tura, a beleza, tura das turas.

Rayuela

"Olhante"

Olhante
Durante o desjejum me dá vontade de inventar uma personagem com olhos de pires, um deles multifacetado, o outro cego à luz: várias perspectivas e ausência de estereoscopia, ausência do 3D inventado por nossos cérebros medrosos. Olhos terríveis, assustadores.
Uma vez criados, eu veria o mundo com esses olhos, refugiados da ficção que conjuro todo dia a fim de tornar a existência menos real e mais tolerável.
Só assim poderei seguir sem você e parecer vivo, e parecer são, ainda que derrame palavras em desconhecidas e em canteiros de flores e em cafés espressos e em música sincopada. É que seria necessário homenagear Cortázares e Coltranes e Laffites e Krzyzanowskis e Colemans para, se não fazer algum sentido, parecer bem e não causar maior ojeriza que a feiúra desses olhos de insetos-gigantes-rayhousenianos.
Amanhã, está desde já decidido, saio às ruas, destarte, derramando palavras ("saudades", "azul", "mil-folhas", "amaro", "pífio", "desoxirribonucleico", "marulho", "empertigado", "néscio", "scherzo", "sorria" — todas essas, se as vires pelas ruas da cidade, saberá quem as perdeu) e colecionando faces de desconhecidos.
Nunca será mais difícil que te esquecer.