20070630

Diálogo

diálogo
Não havia muito o que dizer. Olhando em retrospecto, nunca houve. E, no entanto, falavam. Falavam como se fossem salvar o mundo, como se pudessem parar o tempo, como se fossem morrer quando chegasse o silêncio.
Falaram mesmo quando não havia mais o que dizer. E nunca houve, assentiram. Já vês que não é uma questão de querência, mas de precisão. Já vês que não se calariam antes do amanhecer.
Mudavam de assunto a cada dezoito palavras e sempre um deles lembrava o assunto original, e proferia uma conclusão, muito para o desagravo do outro. Conclusões sempre pareceram tão aborrecidas… As possibilidades, as dúvidas, essas sim, pertinentes ou não, surreais, barrocas, bizarras, faziam daquela noite um pouco mais suportável — espantavam o sono, deixavam retrogosto de maçã.
Um deles tinha cheiro de maçã. O cheiro do outro não podia ser colocado em palavras.

20070629

Alternador, girabrequim

alternador
[Shades of gray. Shades in my babe's heart. And I, I always wear me shades]

E você fala de culpa.
E me sinto como se tivesse falado logodurês o tempo todo. Ou basco.
E sinto muita vontade de fumar, nessas horas.
E você diz que sou louco.

[I can't help meself. And ya know I cannot smoke.]

Você fala de filhadaputice. E quer que eu te odeie. Mas usa a estratégia errada.
Eu carrego mais um filme na LC-A e vou me preocupar com reuniões e apresentações e cronogramas e propostas e metodologias e estratégias e formigas e café.
Sem açúcar.
A cabeça dói e o sono se alarga e torna o mundo menos real com o passar das horas, a cada mensagem, todavez que alguém lhe dá boa tarde.

[vida inverossímil]

Você escreve "inverossímil". Escreve "não-verdade-semelhança". Escreve "não se parece com a verdade". Escreve "não parece verdade".
Escreve:
deve ser verdade.
Você rasga os papéis, joga-os no lixo. Olha para cima, leva os braços atrás da nuca e respira fundo, fechando os olhos.

Por um momento eu ouço tua voz. Eu saio da sala por reflexo condicionado de fumar, mas não fumo. Bebo água. Olho o céu. Pacientemente.
Volto a trabalhar. Jornada de treze horas para espantar a saudade. Para esquecer sonhos ruins. Volto ao trabalho para sonhar.

[Whenever I look at you, I lose momentum. When I hug you, it feels like home.]

Você guarda coisas em caixinhas, caixinhas em caixotes, caixotes em containers; containers você guarda onde.
E tento andar onde e ouvir quando. O tempo voa, sim, mas eu nem ligo mais. Nunca vai dar tempo, mesmo.
Esquece nosso compromisso para esquecer nosso acordo. Quer que eu seja forte e que eu seja o chato. Pede minha razão, minha compostura, pede-me um tapa. Sonha que eu erre.
Aumento os preços. Anuncio como promoção. Perco a noção, desaprendo a cruzar as pernas e procuro paciência em gazuas e arcos-de-pua.
Atchin.
Gessundheit.

20070628

Pé-de-boi

pé-de-boi
Porque eu faço o que você quer. Tiro o lixo. Limpo o tapete. Descarrego o caminhão frigorífico. Levo o cachorro para passear. Lavo janelas. Faço a revisão técnica. Solo. Deixo para amanhã. Libero a senha. Publico a foto. Puxo um ponto. Avanço o sinal. Te vendo meus sonhos. Empresto a girafa. Aprendo francês. Faço em três vezes. Ligo pro teu chefe. Olho pro outro lado. Cozinho sem carne. Tiro a pressão. Meço a velocidade de queda. Mordo o cotovelo. Tiro o miolo. Procuro no dicionário. Ajeito o cobertor. Vou pela escada. Respiro fundo. Endireito os pregos. Espero lá fora. Engulo o choro. Conserto o chuveiro. Bato. Mais forte. Alimento o beta. Faço a barra. Pulo corda. Mudo de canal. Deixo um bilhete. Sangro. Não desisto. Salto. Conjugo. Refaço. Entendo. Sumo. Pago a passagem. Seguro sua mão. Enfrento teu pai. Dou esmola. Experimento a verde. Abro o pote. Esqueço. Mando se foder. Chamo o táxi. Guardo a louça. Salvo a donzela. Abro a porta. Passo mel. Listo os defeitos. Digo as horas. Troco o refil. Vou me tratar. Finjo o sotaque. Falo mais de Paris. Gozo. Te busco no trabalho. Águo as plantas. Atesto e dou fé. Pergunto. Provoco. Conto as gotas. Entrego o que prometo. Afio a faca. Afio a língua. Lanvanto âncora. Abuso da fofura. Invento palavra. Escondo o rosto. Dou banho. Estudo. Tiro a casca. Seguro. Aperto.
Mas essa história de viver sem você, não dá não.

TinyTetris

Time killer é isso.

20070627

Monk

Monk
It begins to tell,
'round midnight

20070626

Parvoíces

parvoíces
Ressaca moral. Atentar contra meus princípios é diversão, afinal. Colapsar probabilidades. Fazer de conta que não há escolha.
Mas a rejeição contida na entrega aparente foi de uma maldade que até então eu desconhecia. Ou havia me forçado a esquecer. Coisa de malfeitor novelesco. Ou foi de uma ingenuidade sem par.
You can make my dreams come true.
Only you won't.

E hoje, a essa hora, depois de tudo, você já deveria saber que não suporto café fraco, hipocrisia e Kenny G. Você não respondeu minhas perguntas e me deu mais perguntas para pensar à noite, sempre que sozinho à noite. É meio óbvio quem está ganhando.
Hoje, agora, fico puto comigo por estar triste em manhã fria, de pouco sono, de vida perdida no farol amarelo, cartão amarelo. De, mais uma vez, julgar mal e dar com os burros n'água. Eu, no caso, o burro.
Regardez-moi.
Observez-moi.
Vous n'en verrez pas deux comme ça.

E isso não me dá vantagem alguma, já sei, já sei.
O tempo, parece, acompanha o humorzinho griggio do começo mal ajambrado da semana. E, só porque ameaça chover, o gosto que ficou foi de cabo-de-guarda-chuva. Ou, vai ver, é mesmo por isso que ameaça chover.
C'mon.
Fake yourself.

20070625

Tristeza

tristeza
— Croissant misto.
— Hein?
— Croissant misto.
— Croissant?
— Isso. Misto. Croissant misto.
— E a média?
— Sim.
— Pai, por que o escuro é meu?
— O escuro? Hein? Você vai querer suco de laranja, Alice?
— É que a mamãe falou ontem que a gente tinha que ir embora, ela falou assim: "Filhinha, vambora que o escuro é seu."
— Laranja, por favor. Sem açúcar. Sem gelo. Ah, filha, sua mãe quis dizer que já havia escurecido. Tinha ficado escuro. O sol já estava se pondo, entendeu?
— Então o escuro não é meu?
— Não, filha.
— E de quem é o escuro, papai?
— Foi meu durante um tempo, Alice, mas agora não é de ninguém. Olha o seu suco.
— Ah. Eu queria que o escuro fosse meu.
— E por que, filha?
— Porque eu ia dar as luzinhas da árvore de natal pra ele, papai. Aí ele ia ficar feliz.
— Você é um anjo, sabia?

20070624

Felicidade

felicidade
Jumela Tibiriçá deixou cair o garfo ao ouvir o absurdo que acabara de dizer o seu marido.
— Repete.
— Eu perdi minha felicidade. No jogo de pôquer, ontem.
— Ha. Isso não faz o menor sentido. Mais uma das suas piadas que ninguém entende.
— Não, é sério.
— O que você quer dizer, amor? Voê apostou a casa? Quanto você perdeu?
— Não, não foi dinheiro. Não foi a casa, o carro. Nada dessas coisas. Eu apostei minha felicidade.
— Oquei. Você bebeu demais, ontem.
— Ju, escuta. As apostas estavam altas, mas a gente joga a centavos, sabe? E a mesa tem um limite de mil reais. Mil reais, cem centavos, cem mil fichas. Dá para se divertir um bocado.
— Mil reais??
— E minha felicidade. Afrânio apostou tudo, eu não tinha como cobrir. Eu tinha um full de damas. Aí veio o estalo: aposto minha felicidade.
— Lotaro…
— O Afrânio foi logo perguntando: "O que eu vou fazer com isso?" E eu: "Sei lá, você não vai ganhar mesmo."
— Lotaro…
— Só que o desgraçado tinha uma quadra de setes. A casa veio abaixo. Acho que foi o maior jogo que a gente viu no ano. Um full de damas e um four de setes! Todo mundo ficou exictado. Tapas nas costas, berros… O síndico ligou.
— E você vai ter de pagar mil reais.
— Mil reais? Ha! Mil reais eu tinha guardado só de troco do cigarro, Ju. Eu perdi minha felicidade, você não escutou, não?
— Lotaro Francisco Fernandez de Araújo Tibiriçá! Ninguém perde a felicidade numa aposta, num jogo de pôquer entre amigos que se conhecem há trinta e cinco anos.
— Trinta e oito. E jogamos há trinta.
— Como é que alguém ia poder ficar com sua felicidade, Lotaro?
— Pois é, eu não havia pensado nisso. Mas, sabe, eu saí de lá meio cabisbaixo. E o Afrânio pulava. O Afrânio parecia uma criança. Outra criança, que o Afrânio nunca foi alegre, nem quando criança.
— Ai, ai…
— Pois é, parece loucura, mas eu não consigo mais sorrir. Eu não consigo mais querer as coisas. Eu estou deprimido.
— Você perdeu foi é o juízo, Lotaro.
— Pensa bem, Jumela, quantas vezes você me viu assim, sorumbático? Nem quando o Juventos perdia. Nem quando o Juventos caiu pra segundona.
— Mas pede pro Afrânio devolver, homem.
— Você acha que eu não tentei? Ofereci o carro em troca. Ele não quis. Disse que não se sentia assim desde o tri no México. Desde… "Eu nunca me senti assim." Foram as palavras dele. "É muito bom! Olha, Lotaro, eu não vou devolver não. Se quiser dinheiro, eu te empresto, mas não vou devolver, não."
— E o que você vai fazer, então? Ficar aí com essa cara de enterro pra sempre?
— É o jeito. Eu vou te deixar, Jumela. E vou pedir as contas amanhã. E vou trabalhar em alguma coisa muito chata e vou parar de ir ao pôquer com os rapazes.
— Você não pode estar falando sério.
— Sério é só o que serei, Jumela. Seriedade é meu segundo nome.
— Lotaro! Bombomzinho…
— Não, não sou mais seu Bombonzinho, Jujubinha. Aliás, não te chamo mais de Jujubinha. Nunca mais.
Jumela viu seu marido sair com uma valise com meias pretas, a calçadeira e o único paletó que ainda tinha condição de uso. Lotaro ainda tinha que passar na casa de Mirinha, para dizer adeus à amante.

20070623

I'm nothing 'til you look at me

mirror
Palavras saem uma a uma   espremidas como se fossem aquelas nojeiras que saem de cravos. E tão bonitas e malcheirosas.
Haveria um tempo de escrever e um tempo de calar   mas há teimosia. Há bravata. Há maldade. E com maldade se escreve. Com bravata se forçam as palavras à luz   a olhos alheios. Alitera-se   neologisa-se   repete-se por teimosia   somente.
Nos teus olhos vejo rugas. E no sol   câncer de pele. É só no espelho que vejo a mim   nu   e alguma esperança. Sempre teremos opção. Ainda que messy. Não sou eu   afinal   que vou limpar.
Palavras   quistos   esplenotomia   histerioctomia. Extrações   sujeira   dor   alívio imediato   luto. Ou seu dinheiro de volta. Tratamento de canal   e o cheiro — ah o cheiro daquelas palavras mais entranhadas em raízes podres   preguiça de palavras   estupor.
E quando a pele já lanhada   ensangüentada   usa o instinto para manter afastados dedos e pinças e lancetes   eu canto para vomitar palavras que você não ouviu   apesar de ter escutado.
Uma-pa-lavra-queeu-dis-se.
E todas as que não disse.
Devo-me palavras estranhas e devo calar-me ao menor indício de coerência.
Esquecer   talvez.
Esquecer por necessidade. Por ordem de madame. Madame está sempre certa. Mesmo quando madame está errada   está certa; e não sabe o que diz   está certa. Sempre. Dei à madame minhas vírgulas e ela delas faça uso melhor. E as aponha aqui   onde lhe aprouver   se lhe calhar.
I'm like a mirror.
I am the mirror.

20070622

Maiúsculas, itálicos

maiúsculas
Ofendeu.
Você sabe, ou soube, mas teve de perguntar. Para que você tivesse certeza, ou eu tivesse certeza. Agora já não importa muito.
Ofendeu, portanto. Humilhou. Omilhou. Espantou e conseguiu o que queria. Mesmo sem saber ao certo o que era que queria.
Eu não deveria me importar, né? That's the friggin' bottomline. Eu fico criando desculpas para os outros, agora que as minhas não mais existem.
Culpa alheia.
Wrongdoer, eu tive de explicar, não faço erradamente as coisas: eu faço as coisas erradas.
Tipo pegar um táxi sei-lá-que-horas e ir ver você numa roubada monstra só porque era você. E ouvir o que ouvi. E não revidar. Ou voltar ainda mais tarde da roubada-cum-demeritum, a pé. Assoviando "Linus & Lucy".
Tudo isso para despistar a auto-comiseração. E para ler, em placas de trânsito, que ninguém me pediu nada, e fiz tudo o que fiz porque quis. E para procurar em cartazinhos de postes respostas que nem mesmo Mãe Zuleica pode me dar. Nem mesmo Mayara Gaúcha Boca De Ouro e suas Maiúsculas Abundantes.
Atitudes auto-destrutivas parecem uma saída a essas horas e ruas. Ao menos me renderiam status de rock star.
Ou algo que o valha.
E deixa a reclamação para o texto, que vai que ele fica ruim o suficiente para alguém querer editar livro de vender para adolescente fã de Hornby e fazer vernissage no Cine Cairo com aquele povinho da Folha. Ou, pode ser, me chamam para escrever roteiro de curta. "Mas tem de ter uma cena na Chopperia Liberdade."
Nah.
Vão vocês, mas não me esperem.
E não me esperem para jantar.
Se tudo der certo, vocês não me vêem mais.
Se der tudo errado, procurem meu nome nas páginas policiais.
E podem negar ter me conhecido. Afinal, ninguém sabe mesmo meu prenome.

20070621

Cortázar, 99

Como se isto ainda fôsse pouco, um sueco acaba de lançar uma teoria muito vistosa sôbre a química cerebral. Pensar é o resultado da ação de uns ácidos de cujo nome nem sequer desejo me recordar. Ácido, ergo sum.

Rayuela

Paz

Paz
…mas quando você me abraça, é como se eu voltasse para casa.

20070620

Amarula

Amarula
No meu sonho você era alérgica a mel. Descobrimos isso porque eu cozinhava e você veio, desde o quarto, dizendo que o cheiro estava delicioso. Mas ao entrar na cozinha, começou a tossir e espirrar e a fazer caretas. Eram caretas impagáveis. Concurso de caretas.
Levei a panela para o quintal — e não me pergunte como eu fui arranjar um quintal em nosso apartamento ("nosso" apartamento, já disse que foi um sonho?), mas quintal havia, com plantinhas e plantonas, e lá deixei a panela a deitar fumo.
Saímos com você tirando sarro da nossa diferença de altura e fomos andando até o parque, falando bobagens e rindo em voz alta.
Escolhemos um canto por causa da luz, ou antes, das sombras que faziam desenhos tão lindos que a gente quis, por então, enxergar em branco e preto pois era mesmo paisagem de fotografar. Com T-Max, lembro ter dito.
Você escolheu a árvore. Eu me encostei nela, sentado. Você se aninhou em mim. Cantei para você, em polonês, sem entender um nada do que dizia, e você não parecia se importar (mas desconfio que você fala polonês também).
Beijei seu pescoço e você me disse uma vez mais que eu não existia, mas dessa vez eu quase achei que isso poderia ser verdade, porque era sonho; e se você dissesse aquilo de novo era capaz de eu sumir ali mesmo. Inexistindo em sonho. E nunca mais voltar pro mundo.
Os frutos da árvore começaram a cair à nossa volta. Esperamos passar a "chuva" e você disse que deveríamos ir embora porque os bichinhos viriam comer aqueles frutinhos amarelos. "Se a gente não vai embora, eles ficam com medo e ficam com fome. E ficam mal-humorados e chatonildos."
Você disse "chatonildos" e sorriu e me devolveu dezenas de anos que eu já achava irrecuperáveis, e me beijou e me devolveu a mim. E eu tinha certeza de que já não me viria nunca mais.
Acordei com fome. Quase te liguei.

20070619

Dia de semana

Dia de semana
Não há Babs aqui, não há Morellis ou Örkénys. Há uma porção de gente esperando que você dance, que você lhes entregue o show pelo qual eles pagaram. Você se monta e começa com seus passinhos de catala catala.
E me encara assim de soslaio e me deixa intrigado com seu próximo passo, que não tarda e é tão bonito de se ver, menos para essa maltaturba que insiste em achar motivo e culpa e porquês. Olha que eu nunca vi tanta cara de porquê e de auto-satisfação besta de metidos-a-besta junta. É mesmo um espetáculo à parte e vamos nós dois, embevecidos na inquietação um do outro ainda tontos de tanto girar.
E é aí que surgem essas motivações frouxas de pedir em casamento: o bolo de chocolate e o telegrama com ponto-e-vírgula. Telegrama com ponto-e-vírgula, onde é que já se viu coisa parecida? Só mesmo pedindo em casamento, que pessoa assim, por Baco, não se encontra todo dia.
Não me olhe agora que eu estou bobo com seu sorriso ensaiado de ser natural — mas a gente gargalha quando ele chega, de tão ensaiado. A gente quer brincar de se fugir e acaba sempre cruzando olhar quando acha que o outro está prestando atenção em alguma outra coisa: bam! Foi um tal de ficar vermelho daqui e de lá.
E rimos.
Você é linda, sabia? É linda até mesmo quando discorda de tudo e de todos para ver até onde vão essas coisas de ser tão sério, de ser tão sábio e de acabar escorregando na sanidade comprada no Wal-Mart. Mas é mesmo linda quando me pergunta se Wal-Mart é com um ou dois eles, você que me corrigiria as doppias sempre tão erradas e é mais linda ainda quando diz "fiadaputa" com autoridade de quem sempre armou arapuca e pegou os "fiadaputa" comendo as sementes de girassol que deixou no chão fazendo caminho de zig-zag-zig-zás.
Não há Sandmans aqui, não há Ornettes ou Melvilles. Há mesmo somente nós dois agora, brincando de gato e rato, brincando de não querer saber. Eu quero saber, mas não vou deixar uma moça assim me derrubar e subir na minha barriga e me matar de rir com tiradas absurdas, por mais que eu queira. E agora eu sei que você morre de cócegas.

20070618

Chute

Chute
Ninguém acredita quando eu digo que não sei o que estou fazendo.
Mas, se você prestar atenção, vai ver que é verdade. Que eu chuto o tempo todo. Que eu não sei. Que sou uma farsa.
Tá eu já disse isso, mas é que ninguém parece acreditar. Vai que eu convenço pela insistência?
O nome do blog. A pertinência das imagens. Se você procurar sentido, se procurar padrões, sempre vai achar algum. E vocês são mais criativos que eu: sempre os acham.
Os padrões, os motivos, as causas, the fucking hidden agenda.
Não. Eu sou mais raso. Eu reajo às coisas, só. Com essa porcaria de coração hipertrofiado e tunado e mexido e já meia-boca de tanto abuso.
Não deixa de ser de verdade, mas isso não quer dizer que seja certo.
E não, minha boa-intenção não é desculpa. No final do dia, eu assumo todas as conseqüências. Preciso aprender é assumir só as minhas.
si tu t'imagines
xa va xa va xa

20070617

Stanco

Stanco
Não sei mais escrever.
Por uns dias e umas horas.
Acho que não acho e sei que não sei.
Mas o azul me perde sempre. E eu não posso lutar com o azul, eu que perdi meus medos.
No regrets, sabe?
No questions asked.
No strings attached.
Then, again…


Dorme.
Eu velo.

Cortázar, 132

E chora (porque o gesto também é aquele que acompanha o pranto) quando entende que tudo é inútil, que a verdadeira condenação é aquilo que já está começando: o esqueciento do Éden, ou seja, a conformidade bovina, a alegria barata e suja do trabalho e o suor na testa e as férias pagas.

Rayuela

20070616

Achados e perdidos

Perdidos
— Isso aqui é do senhor ou alguém esqueceu aqui?
— É meu. Deixeu colocar aqui na frente, desculpa.
Giggio pegou a sacolinha preta que lhe entregava a passageira. Aproveitou para dar uma nova "checada" na senhora para ter certeza de que ela era mesmo feia. "Não dá nem para investir meia-hora", pensou.
Colocou a sacolinha na frente do banco do passageiro enquanto a senhora falava da greve do metrô, da greve dos aeroportuários, dos funcionários da Receita Federal.
E falava.
Não era preciso responder de verdade com passageiros iguais a ela. O que esse tipo quer é alguém que os ouça — e que concorde de vez em quando. Giggio fazia exatamente isso, soltava um "Hm-hum." quando a intonação mudava e voltava a pensar na sacolinha.
Congonhas já estava perto, e a senhora feia ainda falava, de CPIs ou algo assim. Giggio pensava no rapaz que estivera no táxi antes dela e que provavelmente havia esquecido a sacola. Entre os dois, aquele advogado careca, mas este sentou-se no banco da frente.
Deixou a senhora, que pediu desconto, e rumou para o drive-thru do McDonald's, a caminho do seu ponto.
O moleque, o da sacolinha, parecia inteligente, mas estava com a cabeça sei-lá-onde. Provavelmente pensando em mulher. Devia ter um e setenta e cinco e era gordinho. Fazia umas contas ou escrevia, num caderno, olhava para fora e suspirava.
Giggio lembrou que tentou puxar assunto. O gordinho respondeu com uma piada engraçada mas se calou em seguida, até descer no Robocop.
"O cara deve ter respondido uns 30 SMSes. Só pode ser mulher o problema."
com um número 1 e um cheeseburguer no colo, Giggio pegou a sacolinha e abriu — se tiver um telefone, eu devolvo, o gordinho foi até simpático.
Um paninho parecido com perfex, com cheiro de sabonete.
Dois CDs virgens, um deles escrito "La Haine".
Uma folha de caderno com vários adesivinhos desses que garotas de programa colam nos orelhões, um mais engraçado que o outro: Suzana peluda; Marina greluda…
Um vidro com um líquido espesso, escrito "mapple syrup".
Uma máquina fotográfica descartável.
Um isqueiro branco, mini-bic.
Giggio ficou meio decepcionado. Colocou o CD no som do táxi enquanto comia o resto do lanche. Jogou a sacolinha com os adesivos e o paninho no lixo, guardou o resto no porta-luvas. Encostou-se e dormiu.
***

Quase no fim da "ronda", Giggio atendeu um sinal e entrou em seu táxi o mesmo rapaz. Giggio ficou quieto. O gordinho não lhe reconhecera.

Cortázar, 32

[…] porque o mundo já não importa se não tivermos força para continuarmos escolhendo algo de verdadeiro, se estivermos tão arrumados quanto uma gaveta de cômoda […]

Rayuela

20070615

P.

P.
P. sempre achou que eu era mal-intencionado. Ainda acha.
P. nunca me negou nada. Eu sempre fui educado o suficiente para não pedir nada que P. não quisesse me dar.
P. poderia pedir o que quisesse. Ainda não pensei em alguma coisa que eu pudesse lhe negar.
Mas neguei. E ela também. Longe de sermmos hipócritas, nós nos sabemos mais que amantes, nós nos sabemos além da compreensão sóbria de cafés-da-manhã.
P. dá barato.
P. me usa com a mesma intenção estupefaciente.
Amo P. como a poucas.
E ela bem me sabe.
Ainda que, próximos, quase não nos vejamos. Mas foi sempre assim. E P. não sai da minha vida, nunca mais.

20070614

Caminho

caminho
Partimos hoje e não sabemos quando estaremos de volta. Se é que um dia voltaremos. Fizemos a mala tantas vezes que agora temos certeza de quanto ela é inútil e podemos perdê-la em alguma conexão, em aduanas ou em praia em dia de borrasca.
E, de fato, levamos pouco, hoje, na hora de partir — os olhos abertos, o encantamento pueril, a vontade de irmos juntos.
Destino, não levamos. Mapas, não os queremos. E não temos bolsos para suvenires ou mágoas. Mas os sorrisos e tsurus caem pelo caminho, brotando de olhares cheios de brilhinhos e cumplicidade de casal que se soube ontem e acordou hoje com medo de olhar para o lado e não ver mais o mundo, mas procurou o mundo com os dedos da mão trêmula ou do pé gelado, achando o mundo ali pertinho, com a pele, o mundo sorriso-sim-estou-aqui.
E nos damos ao mundo, nos damos ao mar, que agora tudo podemos, tudo parece possível, tudo tem mais jazz. Agora não importa mais muita coisa; agora, que desaprendemos a franzir o cenho e esquecemos como é que faz para desconfiar.
Você ilumina o caminho e ilumina tudo e roda a paisagem em technicolor e widescope e eu brinco de ser o leão da Metro só porque você ri — e você ri mundos e a gente ganha mais lugares para ir.
Logo ali. Aqui mesmo. Alhures. Algures.
Não importa mais termos demorado a sair ou que tenhamos perdido tempo até decidirmos andar. Partimos, enfim, deixando seus planos e comedimentos, deixando para trás suas ponderações e dúvidas e decisões. No final, na hora de sair, minha inocência era o que bastava. E o sorriso-sim-estou-aqui-e-só-vou-embora-se-puder-levar-você.
Porque é mister poder ir embora sempre que se quiser. E agora só faz sentido se perder por aí se for na tua companhia. Por um tempo, me parece. Trinta. Quarentanni. Depois disso eu finjo que me distraio e você pode fugir sozinha, deixando um nada: uma tampinha de dentifrício, uma mordida no tornozelo.
Partimos hoje e marcamos o dia na folhinha com as cores todas do seu estojo com a estampa do Joe Cool.
O abraço que faz o mundo desaparecer nos deixa com cara de besta, sorriso besta, esperança besta e um morninho no coração que dá sentido (besta) e dá paz para partirmos.
Via, via.
Via con me…

20070613

Almost blue

Almost
Encolho-me no sofá com a xícara de café nas mãos espiando as nuvens pela janela formarem desenhos de lagartas e cangurus e imaginando se um dia volto a ver você. Se, algum dia, no futuro, mesmo que afastado, seu cheiro volta a me fazer sorrir, ou se terá mudado, então, também seu cheiro.
Há outra mocinha aqui e ela não é você e não tem seu cheiro. Ela roubou algumas das suas prerrogativas e até mesmo a exclusividade de me atazanar (e você até tentou, hoje, me atazanar e me fazer criar vergonha na cara, mesmo sabendo — os dois sabendo — que você adorava minha sem-vergonhice, ou talvez por isso mesmo).
Hoje, mais cedo, antes de chegar a mocinha, bateu até uma certa saudade de ouvir você ser boba, bobiça de dar nó em argumento e fazer piada de Adorno com sandália Havaiana.
Ela faz piada de Wittgenstein e colher no gargalo da garrafa de coca-cola.
Mas fica tranqüila que era uma saudade do tipo que você acharia bacana e gostaria que eu tivesse — e era até mesmo vontade de te apresentar à mocinha e ver que tipo de coincidências estapafúrdias vocês duas descobririam em meio a medires e julgares. Até começarem a falar mal de mim, que sempre assim terminam essas reuniões embaixo de meus bigodes.
E, valha-me Ornette, bigodes eu tenho.
Ela brinca com meus medos, dirige no globo da morte, dança com cronópios, faz bico; sabe jogar calvin-ball, contar histórias e estrelas, espreguiça como campeã mundial e se perde nas minhas tatuagens; desperdiça água, ri como se nunca houvera rido e me faz agradecer você toda vez por ela não ser você.
Coloco a xícara no chão e agarro a mocinha pela cintura, interrompendo sua representação de pato disfarçado em coeho que sempre me faz rir, trazendo-a para meu colo, e sorrio quando percebo que logo me apaixono e fico bocó de novo.
Eu sou melhor bocó.

20070612

Amantes

Amantes
Volto ao sax, à Lillah, a timbres conhecidos após um tempo dedicado ao clarinete.
Lillah reage bem aos meus toques, em segundos se entrega aos meus dedos, e já se manifesta. Fica macia, suave, quase mole; mole, quase se derrete esperando minha boca. Lillah luxiriosa. Lillah lânguida. Receptiva, famélica, lassa.
Já sente meus lábios, trememos ambos, quanto tempo faz? Suavemente beijo e já se arrisca a língua e Lillah suona. Suona così. E é bonito e é primevo e é suave e brutal. E são sons que eu quase esquecera e agora novos e outros, os ensaiados, os descuidados.
Já nos entendemos, e a provocação passa do limite do previsível e é quando sou dentes e nenhum dos dois cabe mais na sala e os dois são força visceral, quase descontrolada mas rítmica, apenas para se tornar melódica outra vez e se desintegrar em luta e abuso de fôlego arrebatado e lágrimas inesperadas.
Exausto, observo as marcas no chão. Olho Lillah a certa distância para ver o quanto a machuquei e sorrio, carinhoso, passando-lhe a mão pelas curvas que me são conhecidas e que tanta falta me faziam. Lillah voltou ou eu voltei a Lillah e comungamos e nos soubemos novamente, intensamente, como nunca deveria deixar de ser.
Claire, destronada após não sabemos quanto tempo de primazia, observa tudo do canto da sala, respeitando a história que temos eu e Lillah, muito antes dela, Claire.
e porque sabe que hoje eu ainda serei dela.

20070611

Fuga

Protesto
Frida, a saudade, quis me visitar ontem de madrugada, assim que voltei para casa. E ela não tem lá muita educação, vai chegando, vai entrando, vai abrindo a geladeira… Frida ficou, passou a noite, acordou-me para me mostrar que eu pensava em você.
Sim, mas é claro que estou fugindo. É óbvio, não te parece? Mas é só porque você me prometeu que seria difícil, que seria custoso. Você fez saber que daria trabalho e doeria bastante.
Sabe, minha tatuagem também não foi a coisa mais tranqüila do unvierso. E ainda me fez sangrar. E eu tive febre.
É, Pequena, eu me entrego porque não há mesmo outra opção. Foi o jeito que aprendi a andar — abrindo olhos e poros em diâmetros impossíveis, e arreganhando o peito de esterno serrado. Sóbrio, para sentir e lembrar.
Ri-se mais, assim. De si mesmo, mais que do resto. E ainda que tenhamos nos quase-agredido com esses "você não me conhece", é essa uma das coisas que mais nos excita, essas possibilidades infinitas que não conhecemos e fantasiamos quando estamos sozinhos, cada um em sua cama ou quando nos olhamos nos olhos e o ar parece gelatina; e as queremos mesmo sem sabê-las. Ainda que você negue.
Hipocrisia já virou adereço. Bijuteria barata e quase brega. Não lhe cai bem, nem a mim. E eu tenho fome, não vou ficar para ouvir.
Mas se você quiser andar comigo, eu faço dancinhas a cada ritmo descoberto no caos sonoro da cidade velha e faço questão de honra te arrancar ao menos um sorriso, de surpresa, por dia. Ao menos.
Sim, mas é claro que estou fugindo, mas é só porque você pediu, daquele seu jeito disfarçado de pedir sem abrir a boca e eu não poder dizer que foi idéia sua. Mas você sabe que foi.
Fujo para você não me machucar, não se machucar. Fujo porque dor só faz sentido se a gente gozar no final. Mas você levantou essa cerca de arame farpado e eletrificado, com certezas espetadas nas farpas a cada metro e meio e gansos amarrados a cada quarenta centímetros e eu nem sabia que eles são piores que cães de guarda.
Cada coisa que a gente descobre…
E foi por isso que resolvi fugir, desfilando em frente à cerca, me divertindo quando você roubava e me secava de canto de olho. De canto-de-olho é mais caro, Pequena.
Porque quando toca "So What" eu regenero e danço, bobo, e você já não consegue ficar impassível e sorri e derrama amor e um tesão porcamente disfarçado e eu poderia ser filhadaputa exatamente nesse instante. Mas a sirene atrapalha o transe e o camburão atrapalha o trânsito e não há poesia em "camburão", por mais que eu tente.
Para te dizer que vou pegar o próximo ônibus, ainda que seja o ônibus errado e eu vá parar em algum bairro estranho, um bairro que eu não conheça, que eu não conheça a língua — vou fazer amizade com o cobrador e comer um "dogão" na barraquinha da tia de um olho só.
Porque eu mandei as Moiras embora. E Baco já mandou telegrama:

UM MES PT NUNC EST BIBENDUM PT NOWHERE TO HIDE PT SAUDACOES

SMSeando Adélia 7

"Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é."

A menos que vente, as particulas se alteram e preparam terreno para uma nova ressaca. Quando voce ve, ja nem e mais o que sangra.

Baco ja volta e eu volto a sangrar alcool. Libaremos em breve.

20070610

SMSeando Adélia 6

"Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é."

o amor eh fogo mermo! hehe!

Dizem por ai que é cego e meio surdo. Eu so sei que é sonso, esse maledeto.

E um pouco atrapalhado tbm. [ja ouvi dizer que eh meio gago].

Me-me-mentira, tá?

SMSeando Adélia 5

"Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é."

Nem transparente ou inoodoro. E muito menos insipido. Na verdade, quando a gente se ensopa dele fica melado, talvez até doce.

Pode nao dar resfriado, mas febre e arrepio sempre.

Isso ai de febre é paixao, non?

So se for terçã.

Entao febre segunda, quarta, quinta etc é amor.

Amor é koan. Melhor definir paixao, que sempre sou melhor bocó.

Paixao molha mas nao ensopa até a alma.

Paixao afoga. É mister aprender a boiar.

Isso. Concordamos, finalmente! =P

Entao devo ter me expressado mal... =)

Love you too, babe ;-)

SMSeando Adélia 4

"Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é."

É duro... mas agua mole em pedra dura tanto bate ate que fura!

SMSeando Adélia 3

"Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é."

Ce ta bem? É o efeito do dia dos namorados se aproximando? =) de qq jeito, que bom!

SMSeando Adélia 2

"Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é."

Se somos 80% agua pq agua nao pode ser amor? Se nao sobrevivemos a 3 dias sem agua pq agua nao é amor? Treading water, always rushing always late. Nada surf no meu ipod.

Nao pode porque banaliza. O amor é nossa antitese. E nao cabe no ipod.

SMSeando Adélia 1

"Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é."

Ah, o amor!

Protesto

Protesto
Demorou trinta e cinco anos para tornar-se adulta. No dia do seu aniversário, chamou de lado o pai e disse-lhe que não mais lhe desprezasse intelectualmente.
Dona Coisa não sabia, mas lhe foi dito naquela tarde — churrasco, futebol, Sílvio Santos e cerveja — que ela era a favorita.
E fez-lhe ver o pai que a aparente dureza no tratamento e os constantes desafios só os eram por ser ela a única capaz. Aquela que respondia. A que (se) questionava.
Pode Dona Coisa, agora, desde hoje, ser mimada.

20070609

Mediocracia

Mediocracia
A menina queria apenas dar um enterro à pomba. Pomba morta, caída a meio metro do meio-fio. Sua mãe a puxava pela mão, enojada, com pressa de chegar em casa e fazer coisas desimportantes como a janta ou passar alguma camisa. Coisas meio-importantes.
— A pombinha, mamãe…
Bicho sujo, bicho morto. E mamãe, já meio morta de desistir de cada dia ali pelas dez da manhã, arrastava a vida de minissaia, meias coloridas e sapatos de boneca pelas mãos, educando uma pressa desnecessária e precoce.
Pomba morta marcando o dia frio e ensolarado — meus preferidos —, dia de andar contente de ser, não fora o aviso (pomba morta) da esperança que também deve morrer.
O bigode, o cavanhaque, os óculos escuros e a jaqueta vermelha, cuidadosamente escolhida para não ser japona, dão-me ares de assassino frio de filme de Robert Rodrigues — meio canastrão, meio canalha. Quase me levando a sério… Not.
Diligente mais na cara de mau que no cumprimento do dever, sigo matando esperanças paixões quereres saberes amores sorrisos. Gostaria de pensar que meio-que-mato e, assim, ter meia-culpa apenas, posto que essas coisas, assim como pais e bichos de estimação, têm por hábito, conquanto péssimo, morrer. E ficam por aí, morrendo com ou sem aviso, atrapalhando o trânsito ou a faxineira.
— Alô, seu Cangaro? O que eu faço com essa esperança aqui no chão da sala? É pra guardar?
Não, não guarde que daqui a pouco começa a cheirar mal. Só lembre-se de enrolar em jornais e colocar num saco plástico, o mais grosso que aí houver, que é para não machucar o lixeiro.
Sigo andando, meio confiante na minha resolução de homicida, meio que sabendo o que tenho de fazer. Meio resoluto. Meio manco, meio gordo, meio velho. Meio morto, meio vivo, gato de Schröedinger dependente da volição da meia-vida da amostra do material radioativo.
E me aventuro fora da caixa.
Morre o mundo a cada meio minuto, descrente da continuidade — mundo existente apenas em porções discretas de tempo. Meio picossegundo. Un àtimo così.
Morro eu a cada meio beijo, a cada meia vontade, definho a cada meia entrega, que despaixão é coisa de gente meio-bege-faz-parte-bom-descanso. Cheio de metades, nunca pleno, acho melhor fenecer e morrer inteiro — eu, afinal, que nunca quis pedaço.
Destarte morro também eu, que só então sou completo, inteiro, finalmente. Pois só não morre mesmo Ornette, que se ri de mim, do teu meio-amor e até de Rosario Castellanos pois Ornette nunca esteve vivo.

20070608

Prostração

Prostração
Embebedou-se durante a festa e fez de mim o alvo de sua acidez. Não importava onde eu estivesse ou com quem, fez-me cristo.
Tentei ser cavalheiro. Tentei ser divertido. Afastei-me, fui buscar desconhecidos. Miosótis, no entanto, estava sempre lá, espalhafatosa e cruel.
Tolerei. Achei mesmo que eu merecia todo aquele rancor, se não pela minha fleugma e aparente desenvoltura por entre as gentes, pelos anos intermináveis em que nos conhecemos.
Apesar de nunca termos sido muito próximos, Miosótis e eu sempre dividimos um saudável desdém por reuniões sociais daquele tipo; eu assumidamente, ela secretamente.
Quase antes de eu me despedir e sair à gaulesa, como é meu hábito nesses eventos, ela se jogou aos meus pés, e chorava, para espanto do seu acompanhante.
— Diz que eu não preciso disso.
— Você não precisa disso, querida. Você é mais que isso.
Um abraço mais demorado que o permitido por convenções de bons costumes evitou discursos enormes, algumas sessões de terapia e novas altercações. Haviámos nos perdoado e reconhecido em nossas falhas. Irmanados na obsolescência para flertes, relacionamentos instáveis e obrigações sociais.
Causamos consternação e ciúmes. E já podemos nunca mais nos ver.
Miosótis voltou para o seu par, que me olhava, incrédulo. Procurei a anfitriã, despedi-me e sumi na noite, a beber o frio e ficar só. O frio me basta, hoje.

20070607

Gotejar

gotejar
Encanta-me o desconforto das pessoas ao moverem-se na chuva. Tirante o velho de guarda-chuva alçado no antebraço e sua desenvoltura em guardar carteiras, capangas, porta-níqueis, óculos e abrir, enfim, o tal guarda-chuva sem que lhe escapem as sacolinhas; afora esse recuerdo do pré-guerra, embalsamado e encarquilhado, estão todos fora de seus ambientes — desalojados, emputecidos.
Exceto raros. Mormente eu, a loira; e o ancião.
O senhorzinho segue, tem seus hábitos, horários, remédios, manias. Tem um autismo que só parece possível dado um certo nível de lucidez lapidada à exaustão. Polimento exagerado que extingüiu arestas e asseverou aerodinâmica social muito próxima do que poderíamos chamar invisibilidade. Super-poderes podem, afinal, ser desenvolvidos por vontade do herói ele-mesmo, me diz: mutação auto-induzida, mudanças radicais de personalidade, talvez uma desilusão amorosa. Metaforizar o mundo é quase tão mais divertido.
O velho abre o guarda-chuva, dizia eu, que nunca teve outra cor que não preta, e segue passos de quem esqueceu o tempo. Os tempos.
À loira, como a mim, não importam ombrelli. Agasalhada e impermeabilizada, desafia as gotas e não se importa com elas. Josephine, minha companhia nesse desjejum, arrisca "Essa aí não fez chapinha. Esse cabelo é liso assim mesmo."
Quase quebrado o encantamento do biólogo-sociólogo-antropólogo-ictiólogo-observador-sub-aquático-urbano, balbucio qualquer piada e volto às minhas elaborações teóricas estapafúrdias que me dêem, hoje, um texto qualquer, ainda que inútil.
Chuva.
A loira sans-chapinha desafia gotas cada vez mais grossas, andando devagar e não escolhendo caminho de marquises e toldos. Limita-se a desviar de poças e de transeuntes. A água só lhe infunde o medo de meias molhadas. Meias molhadas não são opção aceitável. De resto, molhem-se-lhe os ossos — ela não dá a mínima.
Entretanto, há o semáforo.
Obrigada a parar, a expirar e olhar para os lados, para nós, eu e Josephine, através da vidraça da padoca, obrigada a um átimo reflexivo, deixa transparecer sua natureza de tubarão. A desenvoltura, afinal, não é natureza, é cultura. Quando para, a loira tem dez anos mais, envelhecendo a cada momento de imobilidade.
Torço para que abra o sinal. Oro pelo verde redentor antes que a loira e o velho se confundam em rugas.
E me preparo. Para pagar a conta. Para sair na chuva.

20070606

I'm just the help

help
Falou por meia hora para que eu lhe dissesse o que queria ouvir. Mesmo sabendo que não sou capaz de tanto. Mesmo ciente de que digo sempre aquilo que me parece conclusão irrefutável — obviamente seguindo minha lógica bizarra. Não sei quando elas efetivamente querem ouvir essas digressões amarelas, mas elas voltam. E contam. E ouvem.
Narizinho ouviu, sem saber se me chamava Visconde ou Marquês. E perdeu o semblante professoral. E me olhava com o que eu achava ser incredulidade e gratidão. Ou como se eu fora um saci.
Narizinho também é ótima ouvinte e decidiu que eu deveria falar. Foi o que fiz. Narizinho conhecia parte das histórias mas, mais que isso, Narizinho conhecia a minha história. Esteve lá, por vezes. Atalhou-me, não me deixou ficar chato, concluiu, definiu, pôs-se a discordar. Ouviu.
Narizinho disse-me que me tornei o rapaz da manutenção. E que isso, para mim, especificamente, não é bom.

20070605

8 ½ Women - Cocaine

cocaine
8 ½.
Houve por bem desligar o telefone.

20070604

8 ½ Women - Ecstasy

ecstasy
8.
Deixou um bilhete para o namorado na cabeceira da cama, entre o Hesse e o Grass, sabendo que ele não mexeria ali.
Pulou do décimo oitavo andar do Copan vestida de palhaça. Durante os quatro segundos de queda, foi incapaz de perdoar os pais ou de ficar em paz consigo mesma. Chorou por um segundo e meio.
Não chovera naquela tarde, contrariando as previsões.

20070603

Cortázar, 28 bis

Provàvelmente, de todos os nossos sentimentos, o único que não é verdadeiramente nosso é a esperança. A esperança pertence à vida, é a própria vida defendendo-se.

Rayuela

8 ½ Women - Datura

Datura
7.
Perdia namorados como guarda-chuvas. Esquecia-se de carregá-los por aí, desatenta à incapacidade masculina de vida independente e autônoma. Não se conformava com mesquinhez. De minimum non curat Datura, pixou sob o viaduto. Estava cansada, afinal.

20070602

8 ½ Women - Salvia

Salvia
6.
Plenamente satisfeita com sua vida de one-night stands e amigos fazendo fila para desfrutar de sua companhia, seus comentários maldosos, seus drinks incomparáveis e histórias inverossímeis. Resolveu, naquela noite de glórias, de lançamento e autógrafos, que se meteria num convento. E faria voto de silêncio.
Cumpriu.

20070601

8 ½ Women - Heroine

Heroine
5.
Montava o freak show todo dia, diligente no comportamento fora do padrão. Aparência de quem não liga para aparências. Caprichos de quem não dá a mínima para a opinião alheia. E, quanto mais jogava-lhes pedras e vituperava, tanto mais lhes era querida. A doidinha. A genial. A vaca do 307.

Descanso

Frio perfeito. Lua perfeita. Conversas quase perfeitas. Perfect gig.
Voltam a ser minhas minhas horas.
Enfim.