Hi-tech

O cara berrava e ninguém dava bola. Um dos bêbados do bairro; impropérios conhecidos, aberração comportamental incorporada à normalidade branca-paracetemol-omo-progress.
Only this time…
Hoje ele andava as ruas chutando uma bola que diríamos "de capotão", e que usaríamos para uma partida com "gol caixote" e "saída a bangu". E a bangu é o jeito que temos levado a vida, eu e um dos loucos do bairro.
Mas não parece muito feliz, o lunático — na verdade, parece-se menos feliz que eu —, e é patente que lhe resta mais lucidez que a mim, e esse meu nível de consciência não permite felicidade, todo mundo sabe.
O mundo todo. Seis bilhões o sabem. E acho que alguns golfinhos também.
Chuta a bola e finta adversários mais habilidosos (poste, guia, caixa de correio) usando de insistência, força, perseverança. No meu caso, seria chamada "teimosia".
Não lhe notam, como sempre, ou fingem que não está ele ali. Desviando quando necessário, parece que dançam, ou lhe auxiliam com corta-luzes, a vencer adversários superiores em técnica e número. Não me notam a filmar o espetáculo em manhã plúmbea. E de resto não me notam.
É ao dar-me conta indigno de nota, e nisso irmanado ao louco, que percebo o segredo do seu equilíbrio, ou falta de, o surrealismo gibsoniano, e vislumbro a possibilidade de ser nosso craque (cada um tem o Ademir da Ghia que merece) um replicante: ele carrega consigo, obsoleto e tecnológico, um zip drive. E a única coisa em que consigo pensar é em Wladimir defendendo-se da polícia com o clique-da-morte.
Impressionado, não resisto e deixo um cachorro de origami no balcão. E saio para te encontrar.






























