20070731

Hi-tech

hi-tech
O cara berrava e ninguém dava bola. Um dos bêbados do bairro; impropérios conhecidos, aberração comportamental incorporada à normalidade branca-paracetemol-omo-progress.
Only this time…
Hoje ele andava as ruas chutando uma bola que diríamos "de capotão", e que usaríamos para uma partida com "gol caixote" e "saída a bangu". E a bangu é o jeito que temos levado a vida, eu e um dos loucos do bairro.
Mas não parece muito feliz, o lunático — na verdade, parece-se menos feliz que eu —, e é patente que lhe resta mais lucidez que a mim, e esse meu nível de consciência não permite felicidade, todo mundo sabe.
O mundo todo. Seis bilhões o sabem. E acho que alguns golfinhos também.
Chuta a bola e finta adversários mais habilidosos (poste, guia, caixa de correio) usando de insistência, força, perseverança. No meu caso, seria chamada "teimosia".
Não lhe notam, como sempre, ou fingem que não está ele ali. Desviando quando necessário, parece que dançam, ou lhe auxiliam com corta-luzes, a vencer adversários superiores em técnica e número. Não me notam a filmar o espetáculo em manhã plúmbea. E de resto não me notam.
É ao dar-me conta indigno de nota, e nisso irmanado ao louco, que percebo o segredo do seu equilíbrio, ou falta de, o surrealismo gibsoniano, e vislumbro a possibilidade de ser nosso craque (cada um tem o Ademir da Ghia que merece) um replicante: ele carrega consigo, obsoleto e tecnológico, um zip drive. E a única coisa em que consigo pensar é em Wladimir defendendo-se da polícia com o clique-da-morte.
Impressionado, não resisto e deixo um cachorro de origami no balcão. E saio para te encontrar.

20070730

Par ou ímpar

par ou ímpar
Tuas mentiras se acumulam como pó em móveis antigos e sem função. Tuas mentiras se aglomeram no teu rosto como rugas. Minhas mentiras, essas não se sabem ainda, e são do tipo "ontem vi um rinoceronte rosa atravessando a Paulista." Minhas mentiras, ninguém lhes dá crédito. Minhas mentiras caem quando corto as unhas, sequer chegam a entupir canos.
Ainda foges de medo quando te chamo para brincar. Mas vais à minha casa me olhar dormir. Ainda queres que eu seja teu amigo, mas és incapaz de me ouvir por mais de cinco advérbios. E sequer uma coordenada assindética até o final.
Teus medos atravancam a passagem e tua mãe já te disse "mais de mil vezes" para guardar essas porcarias no teu quarto. Afinal, o que vão dizer as visitas? Meus medos brincam comigo de polícia e ladrão. E já percebeste que sou sempre o ladrão. E que, aqui na quebrada, ladrão tem moral.
Ontem me pediste amor emprestado para dar ao teu namorado. Eu emprestei, porque essas coisas não se nega. Hoje me acusas de me meter na tua vida. Eu me pergunto por que ainda insisto. Por que não ignoro esse teu pedido para que te ensine a rodar pião? E lá vou eu, fieiras sobressalentes, mostrar que a gente pode se divertir, apesar de tudo.
Tuas dúvidas são requentadas no molho de tomate e viram aquela gosma que teus filhos não querem comer e finges não saber que essas coisas, para além de ficarem feias, cheiram mal e têm sabor de mágoa velha. Teus filhos comem pipocas Miau antes de se submeterem a esse tipo de tortura culinária. Minha dúvidas são tão grandes que não se-lhes vêem o fim. É sempre preciso debastá-las, mas elas crescem tanto que não se sabe por onde começar. Quando elas ficam grandes demais, entram em órbita e já não atrapalham porque sempre vem um dragão gordo as comer.
Disse que você deveria parar de desprezar as bobagens que as pessoas deixam na tua caixa de correio mas estavas muito ocupada polindo a maçaneta da porta da frente e ficando puta quando alguém entrava na tua casa e "sujava tudo de novo". Só desisti quando me toquei que tua intenção não era polir a maçaneta, mas ficar puta.
Teus sonhos vieram pedir asilo político. Eu tive de dar.

20070729

Graça

graça
Eu ainda não consigo acreditar em tudo o que aconteceu. Eu sei que aconteceu, eu estava lá, lembras? Desbancou meus sonhos, sabes? Ainda que eu os mantivesse, os despertos, sob controle rígido, aqueles sobre os quais eu não tenho poder eram bastante bons. Mas nada me preparou para o que ia acontecer.
E foi, ainda é, na minha pele e músculos e nervos olfativos, língua, dentes, estadinho de graça. Ainda estás aqui, e deves ficar, fazer casa de um jeito que ninguém mais seria capaz de extirpar. Ninguém mesmo.
É, eu diria obrigado se não me recriminasses por isso. Mas eu disse vinte vezes, a cada gozo teu. A cada vez que não coubemos em nós. E acabaram as palavras, soterradas em sussuros inarticulados e ininteligíveis, mas tão esclarecedores que, agora, tenho medo de dizer qualquer coisa.
Melhor calar. E sorrir como, de resto, já vistes.

20070728

Espera no cinema antes do filme

espera
Lugarzinho estranho esse em que se metera. Situaçãozinha…
Nunca antes vira isso: cinema vazio, sozinho, absolutamente sozinho. Velho que era, dava-se conta que nem mesmo o lanterninha para fazer número, já que esses figuras sequer existiam mais.
Lanterninha. Quis ser um deles, quando criança. Lanterninhas assistem aos filmes quantas vezes quiserem; a todos os filmes. Lanterninhas conhecem todo os caminhos dentro do cinema, especialmente com as luzes apagadas. Os mais exibidos guiam as pessoas no escuro — você tem de olhar para ele, não para o caminho — e só ligam a lanterna para lhe mostrar o assento. Sobre-humanos. E fazem questão de deixar isso claro. Ou faziam. Desapareceram no ordoviciano, todos eles.
Não. Hoje somos eu e o projecionista, que a molecada deve achar que também não existe, claro, "deve ser um laptop conectado a um projetor fodão com conexão de dois giga, passando o filme direto do Joox. Esse negócio de projecionista é invenção daquele filme velho, com aquele galã tiozinho, o Clube da Luta."
Lugarzinho estranho, ele volta. O filme é bom, há quase certeza, um quase consenso. Semi-unanimidade. A direção parece mesmo boa. Witty. Just the way he likes it. Há ação e drama, há situações perturbadoras e momentos de tensão. Dizem que há cenas picantes e cenas românticas, mas ele teria de esperar para conferir. O trailer é bom, mas não mostra, apenas insinua. E trailer é uma "indústria" à parte. O trailer tem de ser, certo modo, melhor que o filme, concentrando elementos de seduzir a possível audiência, deixando o sujeito com a impressão de que não pode perder aquele, que deve ser o filme da sua vida.
E o filme pode se mostrar qualquer coisa entre uma vastíssima extensão de merda e uma obra superior a Der Himmel über Berlin. Por trabalhar com filmes, ele acha que já consegue identificar as porcarias pelo trailer. E sabe que esse não é um filme normal. E que não se arrependeria.
Mas os reclames se enfileiram e pospõem o filme.
Situaçãozinha incômoda. Ele se lembra de não haver hora marcada para o início da sessão. Quer levantar-se e ir embora. Mas é curioso. Ficou cismado. E vai ficando na platéia-limbo, assistindo a comerciais sem os ver, pensando em outros filmes, em possíveis cenas desse filme, em ir embora, comer, talvez. Sim, fome.
— Putz! Não comprei pipoca!

20070727

Sorriso

Sorriso
Impressionei-me com teu sorriso. Você já sabe parar o tempo, só não tem disso consciência. Você para o tempo quando sorri desse jeito largo: sorriso livre de culpas, pleno de vermelhos; sorriso que não cabe em lugar algum e deixa as coisas do exato jeito que elas sempre deveriam ser.
Sorriso-você-me-faz-bem.
Mundo perfeito pelos segundos de duração dessa imitação de sonho que é melhor que qualquer coisa que eu tenha conjurado. Minha noite você faz, então, perfeita por segundos que são todos os segundos de todas as dimensões possíveis e todas as possibilidades ali — e já aqui — e nenhum preço, nenhuma necessidade de dizer ou de prometer ou de perguntar ou explicar.
Sorriso-morninho-no-coração.
E me pego, horas depois, pensando o sorriso e a dona do sorriso e te sabendo feliz, enfim, ainda que por instantes (que são incontáveis) no meio de tantas dúvidas e ponderações e cobranças, convenções, consultas ao manual, sabotagens, engarrafamentos e medinhos. Instantes infinitesimalmente infinitos. Tempo parado. Eternidade.
Sorriso-o-resto-não-importa-mais.
E não têm mais importância as coisas desimportantes, mandadas de volta aos arquivos de mediocridades disfarçadas de amor. E ainda há quem lhes aponha etiquetas "amor", num surto de überTOC. Mas você já me sabe e sabe que adoro bagunçar as etiquetas. E adoro você.
Sorriso-você-não-existe.
Então, já agora que sabemos como "tem" de ser, que soubemos o abraço com sorriso com beijo com pele com cheiro de maçã com gosto de gengibre, agora que soubemos o exato momento em que deveria parar o tempo, deixa o tempo dizer o que você não sabe definir. Porque, agora que você já sabe parar o tempo, agora não há mais pressa.
Sorriso-fico-bem. Mesmo.

20070726

Reviravolta

Reviravolta
— Ah, mas eu falei. E não foi uma vez só.
— É, você falou.
— Mas você não ia ouvir, ia?
— Não, não ia. E não ouvi, né?
— Não, não ouviu. Vocêêê nããão ouviiiuuu, uuu samba queeu lhe trooouxe…
— Besta.
— Sabe o que eu queria saber?
— Hm?
— O que mudou? Porque mudou…
— É, Marlowe, mudou.
— Marlowe. Ha. Adouro.
— Mudou. Aquela conversa no boteco. O boteco do Mutley, lembra? O vira-latas que ficou embaixo da nossa mesa?
— Lembro, claro. Você me fez experimentar Undemberg.
— A bebida do quarto setor.
— Ressaca monster.
— Maricas.
— Fala, minha macha.
— Então. A conversa, os insights de bêbado, os conselhos de Mutley…
Insight de bêbado não tem dono.
— Aí mudou, sabe? Mudou, mudei, joguei fora aqueles preconceitos idiotas.
— Nossa. Mudou mesmo. Quando eu chamei de preconceito quase apanhei.
— Ah, mas eu posso falar, você não.
— Hm-hum.
— Percebi as merdas que andava fazendo, saca? Me arrependi de algumas decisões.
— Ah, pera lá! Você se arrependendo?! Cadê a câmera da pegadinha? Ninguém muda assim depois de um porre. Não sei o que aquele vira-latas te disse, mas o bicho é ninja!
— Tá, você quer confete, ok: foi você, as coisas que você disse, os exemplos que citou. Contando as merdas que você mesmo fez, e as conseqüências, e os motivos. Eu entendi por que você está sozinho e por que eu estou sozinha, e são coisas completamente diferentes, quero dizer, por motivos brutalmente diferentes, e a porra da Manuela não sabe o que está perdendo te desprezando desse jeito.
— A gente tá falando de você. Deixe meus fantasmas fora disso.
— Eu sei, querido, mas eu sou a Manuela numa versão mais bonita.
— E mais loira.
— E mais inteligente. Mas eu fui, ou tenho sido, tão escrota quanto essa vaca.
— Opa, easy, now…
— Vaca. Vaca insensível provinciana imatura preconceituosa de merda!
— …
— Espelho. É foda não saber. eu não sabia.
— Até o Mutley te dizer.
— Cachorrinho esperto.
— Tá, mas, então, você se descobre tão equivocada quanto a Manu, e aí? Terapia? Vai voltar pro Diguinho?
— Hm. Não.
— Que foi?
— …
— Desembucha.
— Então… Eu te amo.
— …!

20070725

Mesa de jantar sabado a noite com familia

Mesa
Sentava família bucho no molho de tomate na noite de sábado sem frio sem estrelas de tempo besta plena Lapa plena noite em pleno sábado. A mãe fazia pequenos agrados quase displicentes e o filho lambia beiços e dedos a se fartar na quase penúria de bucho e arroz e água e pão que sabe lá carcamano comer sem pão? Sabe não.
Discursava pai discursos de retidão e sacrifícios que salvariam o mundo e o bucho sacrificado ali olhava e o prato com ovos fritos chamados estalados ou estralados (e era a cisma do moleque) guardava luxos de gemas duras ou gemas moles que a gente devia dar graças por poder escolher: mole ou dura, mas ainda assim ovos fritos lúmpem assumido na água da jarra de plástico-feira. E falava o pai, veemência nipônica.
Aporrinhavam-se irmãs com irmãzices tentando Jó e criançando porque de meninas na pré-adolescência dos anos setenta seria mesmo injusto esperar mais que cutucões mútuos e risos medrosos de pai esgotado por dupla jornada de nunca dar o dinheiro. E seria injusto esperar menos.
Roda olhar na mistura dos rostos e ainda não sabe que a mistura, o bucho, a repentina explosão do pai e os ovos no chão tinham motivo mesmo e não eram os risinhos abafados das irmãs "salientes". A benção do não saber morria ali, aos oito, às oito, um pouco muito cedo demais talvez.
Lágrima de mãe, medo de irmã, coentro, louro, salsinha e as cebolas cuidadosamente separadas no canto do prato. Os ovos no chão.
— Vem, Mari. Vem, Ana. Vamos brincar no quarto.

20070724

Culpa

Culpa
Quero chuva, quero o tempo feio que ninguém quis. Quero teus cincunflexos e tremas. E quero que me ouças só mais desta vez: joguei fora teu pacote de biscoitos. Estavam bichados. Sim, biscoitos bichados. Abri o pacote mal-intencionado — é forçoso admitir — para roubar-te um dos recheados e lá estavam uns carunchos e uns vermezinhos que dividiam o espaço, e eu nem sequer falei dos micro-bios que não se pode ver, mas lá estão, gritando "Germs!", seu gritinho de guerra e de festa e de ganhar na loteria, embora foi nunca que ninguém já viu um micro-bio ganhar na loteria.
Um ecossistema completo, já vês.
Ao jogar fora teu pacote de biscoitos de morango, senti um pequeno remorso a me cutucar os calcanhares. Envelopei o remorso e mandei para a casa dos teus pais. Na bancada da cozinha, no lugar dos biscoitos, deixei uma hora de sono e aquele dente de tubarão que sempre te pôs curiosa.
Antes que chegues a conclusões precipitadas, é bom que eu te diga que fiz tudo isso enquanto fingias dormir no sofá da tua avó e que não, não acordei teu schnauzer.

20070723

Fortuito

Fortuito
Essas coisas acontecem sempre que a gente acha que não podem acontecer. Não hoje. Não agora. Não comigo. Não assim. Não com ele. Não aqui.
Não desse jeito.
Quando se tem idade suficiente para errar tanto quanto já errei, parece, tudo isso, o motivo mesmo pelo qual elas acontecem.

Ela almoçava todo dia na rua em que ele morava e nunca haviam se encontrado.
Moravam a duas quadras um do outro e freqüentavam a mesma quitanda e um não sabia da existência do outro.
Fizeram o mesmo trajeto de ônibus por anos e nem uma vez perceberam a presença mútua.
Mas quando um não deveria estar ali, ou o outro atrasou-se, ou quando ele errou o caminho, ou no dia em que ela não foi trabalhar; quando este resolveu demorar-se na padoca e olhar pela janela ou aquele decidiu sair com a amiga, que levaria uma amiga…
Surprise! Oh, não! Como pode?
Não é possível. Não com ela. Não por causa disso. Não depois de tudo. Não esta noite. Não ainda.
Não desse jeito.

Quando se viveu o suficiente para analisar quais dessas dão certo e quais não, e pode-se dizer com arrogância empírica e quase científica que não há lógica ou padrão e que isso vai se repetir sempre que as condições mínimas de risco se acumularem, ou semre que a impossibilidade for maior, parece fútil entender, combater, aborrecer-se.
Porque é o que acontece. E acontece desse jeito.

20070722

Sem volta

Sem volta
Recriminado e bem me valeu a bronca. Chateou-me por treze nanossegundos, o tempo de levantar a sobrancelha. A esquerda. Treze nanossegundos é tempo suficiente para admitir que eu mereço, obviamente, essa repreensão. Mas, aí, você teria de me proibir, por coerência, não apenas as mordidas em público (relamente perigosas), mas os abraços demorados, os toques, os papos perniciosos disfarçados de banalidades, as trocas de hálito, os ferormônios, os sorrisos lascivíssimos e os olhares, estes sim, delatores, descabidos, abusados, maliciosos, doces e mais significativos que o bando de letras que despejamos um no outro à guisa de escudo, de batina ou de venda.
E, já que aqui estamos, você deveria, mais que coerente, se mostrar justa, e aplicar a si mesma o mesmíssimo sermão, tirante a parte das mordidas, embora você seja a vontade maior e isso a faça mais controlada e séria e lhe dê ares e por isso me dê bronca.
Não tarda a prova e a constatação de que a bronca teve efeito, mas não fez sentido quando abandonamos o comedimento, ou antes ele morreu à míngua, sem nunca ter tido chance diante de tatuagens e cabelos vermelhos; foi realmente covardia.
Mais uma ponte, ou navio (ou chavão) queimados. Vai ser difícil fugir daqui.

20070721

Drama, on the rocks

Drama, on the rocks
Eu lia o hierofante enquanto você se embebedava uma vez mais. Eu sonhava peixes dourados e você se sentia sozinha, mais essa noite. Eu salvava os peixes dourados e pensava lugares melhores para eles, que peixinhos dourados não merecem confinamento. E você se confinava, ensimesmada em problemas imaginários que sempre montou para não viver tudo o que você se promete.
Eu soube depois, quando você me ligou, mas eu sabia antes e, sinceramente, é mesma você quem não quer saber.
Então desculpa falar.
Eu vou, sei lá, desenhar o laguinho imaginário, para os peixinhos do sonho. Que meus problemas imaginários ao menos são divertidos.

20070720

Surprise me

surprise
Quase no final da noite, ela me derruba, com a classe de Sugar Ray:

Não, não é só tesão. Só tesão não dá tanto tesão.

20070719

Fuori piove, è un mondo freddo.

fuora
É, sei que poderia ficar e continuar a ser divertido e agradável e salvar seu dia e fazer sua noite melhor, mas têm-me ensinado egoísmo e começo a achar que estão fazendo um bom trabalho. Sim, você também. E é por isso que "não pode ser vendido separadamente". Claro que há outro pacote e esse pacote é diferente, mas ele vem em outra embalagem. É só prestar atenção: está escrito na poha da embalagem. Ali, perto dos dados nutricionais. E não, não servimos meia-porção, embora insitam que seja o contrário.
E, quando estou pronto para ir embora, é quando pedem mais, pedem para que eu fique e dance mais. Não desta vez. Uma vez, ao menos, mesmo que seja só desta vez, não vai ser do seu jeito. Longe do aut Cæsar aut nihil, você me sabe, nada tão radical. É tão somente questão de integridade (pun intended).
Sei que está chovendo. Que está frio. Mas vou sair assim mesmo. É isso o que você queria, não? Não, sei que não é, mas você já escolheu e a mim só resta a rua, a chuva. Ficamos sozinhos, nós todos, para aprender a lidar com nossas decisões.
Vou mais é respirar o frio, que é para lembrar que estou vivo, e que adoro quando o tempo está assim. O que eu quero? O que eu quero já não importa. E você não vai mesmo dançar comigo. Não mais.

20070718

R.

R.
R. was a blind date. And a hilarious one. In more than one aspect, R. was a younger version of C., for better or for worse.
R. has got me guard down, and eager for anything more than the frustrations I was enduring since… Since C.
A kiss, and yet another one. Dates and whatnot. A night at her place. Thai food, and eels. R. never was very much more than a promise. In my head, not in hers. And, maybe, more in hers.
In the end, she was more interested in my absurdity than in my realness, so I gave her all my nonsense and, one day, we get to be friends. One day, and not one day before.

20070717

Vacuum

Vacuum
Na minha vigésima sexta mudança joguei tanta coisa fora que não percebi do que ia me desfazendo. Um ano depois, comecei a sentir falta de duas ou três coisas: alguns costumes. Esta rotina, aquela mania. Um certo ennui.
A vida, hoje, arranjada para não haver folga, horror vacui, adormece. E não há lugar aparente para filhote de cachorro roupa quarando campeonato de careta presente feito à mão. Perceba que, quando tudo passa a significar alguma coisa, eu deixo de procurar sentido.
E volto a ser bocó.
Para jogar tudo para o alto.
E mudar.
Pela vigésima sétima vez.

20070716

Ponto

Ponto
Na ponta, no limite, não há diferença: sou igual a qualquer um. E nem sequer é preciso chegar ao refinamento filosófico zen de ocupar o lugar de apenas uma pessoa ao dormir. É mais raso. Sou mais simples.
No final das contas, no frigir dos ovos, você nem é assim tão diferente de qualquer outra. E, dizem por aí, "perde-se um ônibus e logo passa outro."
Mas você insiste em dizer que não sou qualquer um. E sempre digo que você não é igual a nenhuma outra. Algumas coisas, porém, parecem difíceis de admitir. Outras a gente não pode concluir assim.
Aí um diz que o outro não existe. O outro pergunta "como é que pode?" Não sabemos como pode, só sabemos que é. E um desistiu de entender; o outro começa a acreditar.
Belisque-me. Morda-me.
Na soma, no fim do dia, quem dos dois ou qual dos dois acredita no tempo? E são noites e noites tentando se convencer que não, que nunca, que nem mesmo. E tenta, cada um deles, convencer a si, porque sabe que não pode convencer ao outro.
Disfarça o tesão. Esconde o amor. Vida eufemismada.
Quando chega o final, na coda, nada mudou, e um deles repete o discurso ensaiado vinte vezes na sacristia, no confessionário, em frente à menorah, voltado para Meca: que não que não que não que não que.
Não.
Que.
Até quando?

20070715

SMSeando Castellanos, 8

"Matamos lo que amamos. Lo demás
no ha estado vivo nunca."

matamos, guardamos num cofre cheio de mofo e jóias que abrimos de vez em quando.

Numa caxinha azul com miosótis.

SMSeando Castellanos, 7

"Matamos lo que amamos. Lo demás
no ha estado vivo nunca."

Damos la vida solo a lo que odiamos.

SMSeando Castellanos, 6

"Matamos lo que amamos. Lo demás
no ha estado vivo nunca."

We give life only to what we hate

A gente se preocupa demais com bobagens...

SMSeando Castellanos, 5

"Matamos lo que amamos. Lo demás
no ha estado vivo nunca."

Canibalismo.

Autofagia?

Comemos os coracoes uns dos outros. Chico buarque citado por jean boechat: amando pelo avesso.

SMSeando Castellanos, 4

"Matamos lo que amamos. Lo demás
no ha estado vivo nunca."

Entonces lo q vive nunca le han amado?

Para matarmos tem de estar vivo, pois não?

Era retorica s/necessidade d resposta. Mala, vc.

Mala onda. Também te amo.

"Vivo. De que? Infancia ou futuro nao decrescem... uma caudalosa existencia trensborda em meu coração."
cabei escolhendo rilke p/ voce :)

SMSeando Castellanos, 3

"Matamos lo que amamos. Lo demás
no ha estado vivo nunca."

¿seu isso?

rosario Castellanos

Sabia q conhecia... Saudades querido. Bjo

SMSeando Castellanos, 2

"Matamos lo que amamos. Lo demás
no ha estado vivo nunca."

y Esto nooo ecziste es todo una grand mentira! aparte que yo no estoy curada!
Besote manana te llamo

SMSeando Castellanos, 1

"Matamos lo que amamos. Lo demás
no ha estado vivo nunca."

Entao nao ha nada além do amor e da morte?

Ou tudo esta entre os dois.

Um em cada ponta: Eu gosto dos tons de cinza.

Eu gosto de misturar massinha.

Prefiro misturar os pés e dormir embaralhada. Emaranhada.

Na bagunça do teu coração, diria Chico.

Velho

Velho
Às vezes me cansa jogar calvinball.

20070714

Mundos

Mundos
Subindo as escadas, parte do mundo se esvaziou. Alcanço o interruptor com esforço de mover um pedaço do mundo. Alcanço-o e não o uso.
Só sabe a insônia. E sabes a baunilha.
Saindo do forno, parte do mundo se recria, fases, capítulos. Engano-me uma vez mais com arremedos de rios e costas; parto, faço mais café.
Economizo texto em represália à desatenção que fez quebrar parte do mundo. Azoto, minúcia, tosa. Parto, partes; parto.
Entranhando-se em sentimentos que preferias, agora, não ter sabido, parte do teu mundo não é mais. Parte parece não te pertencer mais. E parte, parece, te faz acreditar.
E te sentes tão pequena.
Mas partes…
E te beijo quando começas, em Mib, mudando a letra onde a letra pede ser mudada: dance me to the end of the world

20070713

Mutatis

Mutatis
Não era mais uma questão de escolha ou de vontade. E ainda havia aquela formidável preguiça de gente. E falta de paciência para adjetivos e advérbios.
Decidiu por colocar fogo na própria casa, mudar de país e de nariz. De cheiro, de cor.

20070712

Auguri

Auguri
Mis pasos en esta calle
Resuenan
en otra calle
donde
oigo mis pasos
pasar en esta calle
donde
sólo es real la niebla


Octavio Paz

20070711

Locupletar

Locupletar
Dar-nos-emos tudo aquilo que nos foi prometido, tudo o que nos foi negado. A nós mesmos o que sempre a todos franqueamos sem pudores e sem ônus.
A nós o que nos cabe, sem culpa, amiúde, à mancheias, prodigamente.
A ti, que nada pediu, que sempre foi comedida e parcimoniosa e ética e conscienciosa.
A mim, nós, enfim.

20070710

Estranhos

Estranhos
Um sotaque perambulava pelas ruas de São Paulo. Um sotaque perdido nas ruas da cidade suja. Um sotaque, uma voz incomum, uma moça deveras diferente.
O sotaque era mais uma das lentes de fazer ver o mundo diferente, embora ela ainda não soubesse. Ou já soubesse. Ou isso não importasse.
Porque o coração era também diferente e via mundos diferentes, apesar de se saber diferente.
Ao encontrarem — o sotaque e o coração diferentes —, ao encontrarem uma pele diferente, seguida de tão diferente coração, sabiam que não poderia dar certo.
A não ser de um jeito diferente…

20070709

Solução

Solução
Facciamo così:
Eu finjo que não foi nada.
Você finge que nem me conhece.
Eu falo que nem queria mesmo.
Você declara que não sente minha falta.
Eu não mando mais e-mail.
Você não me chama mais no messenger.
Eu faço de conta que aceito.
Você acredita que era destino.
Eu digo a mim mesmo que não teria dado certo.
Você faz o que quiser.
Porque, um dia…
Mas, um dia…

(um dia a gente faz bolhas de sabão. Pode me cobrar)

20070708

Cortázar, 48

Era bem possível que o amor fôsse o enriquecimento mais elevado, um doador de ser; mas só fracassando podia-se evitar seu efeito bumerang, deixá-lo cair no esquecimento, apoiar-se, outra vez sòzinho, neste nôvo degrau de realidade aberta e porosa. Matar o objeto amado, essa velha suspeita do homem, era o preço de não deter na escala, assim como a súplica de Fausto ao instante que passava não poderia ter sentido se, ao mesmo tempo, não o tivesse abandonado como se abandona um copo vazio sôbre a mesa. E coisas dêsse estilo e mate amargo.

Rayuela

La rossa

La rossa
No meu sonho você estava debruçada no parapeito da varandinha do nosso quarto de hotel em Bologna. O sol da manhã, não tão cedo assim, projetando sombras impossíveis, quase azuis. Você olhava o rio, olhava a cidade vermelha. La rossa. La grassa. La dotta.
Bologna não tem rio.
Eu te chamava e dizia que você seria Bologna, exceto pela parte do grassa.
Era o último dia na cidade, e havíamos transado a noite toda. O último dia na Itália. Voltaríamos para Londres, para casa. Mas a visão do teu corpo perfeito e, mais que isso, da sua carinha de contentamento e de paz, de pertencença, faziam com que eu quisesse ficar. Para sempre.
— A gente não precisa ir. A gente arranja emprego por aqui mesmo.
— Você não existe.
E você correu até mim e me beijou com um amor guardado por anos. Beijou-me como se o fizesse pela primeira vez. E eu nunca soube de amor tão grande.
Acordei antes do que gostaria, triste por esses sonhos mentirosos.

20070707

Saudades, é.

Saudades
O segredo é você não ser mais você e eu deixar de ser eu. Se não for asism, não vai funcionar. Se não for assim, a gente não se larga e isso tudo fica mais difícil. Saudade vem cutucando em horas impróprias, não faz caso da hora ou do filme ou da companhia.
É essa mania de sinceridade a qualquer preço, quase cruel, que não nos deixa muito tempo afastados. Longe de acabar com o encanto, funciona mais como aquelas plaquinhas de desenho animado, no meio do nada em que estamos, apontando para lados diferentes, setas de madeira com inscrições desleixadas:
"Pólo Norte, 21245 km"
"Timbuktu, 12807 km"
"Albuquerque, 6400 km"
"Perigo, 5 m"
Qualquer caminho é possível daqui. E, no cruzamento de mundos, com o sol indiferente nos olhando por enfado, nos damos conta de que "cada escolha, uma renúncia", mas não é bem assim: cada escolha, 837 renúncias, me ouço dizer. E você sorri.
[às vezes, só às vezes, preferiria que você não sorrisse assim]
E, quando você sorri, eu deixo de ser o gato de Schröedinger e sou o gato da Alice. Só para você se divertir e, divertida, escolher um caminho. E, juntos, nos perdermos.
Só quando começamos a andar, de novo, é que eu resolvo contar que podemos também fazer um caminho e que, de verdade, faço isso há anos.
Dá pra ir nadando.
Dá pra gente entrar pelo buraco do coelho.
Dá pra teleportar.
Dá até pra ficar parado.

[Ornette, que subia a árvore para espantar os urubus de desenho animado, que já foi e já voltou, nos olha aborrecido e pergunta se estamos esperando que ele decida por nós, gato abusado]
E rimos.
E você fica ainda mais linda.
E morro de saudades.

Cortázar, 80

Falando dos sonhos, demo-nos conta, quase ao mesmo tempo, de que certas estruturas sonhadas seriam formas correntes de loucura, a menos que continuassem na vigília.

Rayuela

20070706

Polaroid I

Polaroid I
Três gerações de vendedores, gabardine, seguros, laptops. Cento e vinte anos de vida puídas, remendo no cotovelo do paletó. Milhões de piadas sem-graça, reedição; paletós baratos, meias-solas. Encimados por cabelos péssimos. E o ruidoso salão do café do Centro da Cidade, cornijas e candelabros com lâmpadas de sessenta velas, não é suficientemente largo para caber-lhes as frustrações. Mormente as vicissitudes, meu caro. Vidas em liqüidação. Pagamento facilitado.

20070705

imbecil

imbecil
Tocou, o telefone, até cair.
Ele pensava que ela, infelizmente, não falaria com o xará. E que talvez tivesse sido uma idéia imbecil. Talvez ela achasse imbecil.
E pensava que o tom de linha do telefone é um lá.
E ela não ligou de volta.

20070704

Volta?

volta
Eu te sorvia o hálito enquanto me aquecia na tua voz, noite fria de julho paulistano quase bom. Nunca suficientemente frio para esquecer.

Eu cosia tuas idéias enquanto meus dedos maculavam tuas costas brancas, lisas, e era uma vastidão de possibilidades de que palavras não davam conta; um deserto impossível de atravessar sem sacrifícios e, decerto, eu não me esqueceria.

Eu desenhava teus sorrisos — ourives —, enquanto vasculhava teus cabelos procurando a nuca onde fariam casa meus dentes. E fizeram eles casa. E me deste teu gozo. E pediram eles pouso. E tos deste sangue. E já não encontramos quem nos diga que te esquecerei.

Eu colhia teus gemidos que brotavam generosamente da noite ainda mais fria em latitudes ainda mais altas e horas ainda mais avançadas. Eu recebia teu desejo resoluto e tuas dúvidas incessantes e amava cada partícula da tua desorientação, enquanto me amavas, mas mentias. E teu gosto, esse não se esquece.

20070703

Cuore, stanotte

cuore
Sincopado, descompassado, assíncrono e — diria um amigo —, dodecafônico. A mocinha, inclusive, jura ter ouvido um mugido…
O coração de que falamos era de uma safadeza que não combinava com sua fidelidade, mas combinava com as caras que fazia o dono: guapeca sem-vergonha.
Fazia alarde, o tal cuore, tocava corneta, saía por aí de kilt, tudo para que você o notasse, ouvisse-lhe o swing.
Acentuado no contratempo.

20070702

Estranhamento

estranhamento
O medo daquilo que não é padrão é o medo de si. Toda vez que me comporto do jeito inesperado eu te forço a parar, a escutar, a enxergar. A mim e a você mesma. Toda vez é primeira vez, e a primeira vez dói, às vezes; e a primeira vez dá frio na barriga todavez.
Ao menos assim você aprende a lidar com o medo do diferente, toda vez que me vê agindo dessa maneira pouco ortodoxa, quase impossível, e é o jeito que você encontra de, toda vez, se questionar e perguntar de novo o que é mesmo que você sabe, e se dá conta que eu também não sei de nada, mas que não ligo, e sorri porque isso não me impede de arriscar de novo, e eu te arreganho meu coração todavez.
Mas você se espanta que, afinal, não sou eu que sou assim tão pouco convencional: o mundo é que é todo igual e forjado na mesma matriz gasta e cansada e que só é usada porque ainda é usada e, afinal, por que mudar quando dá para só fingir-se que muda mas se mexe só um pouquinho, na fachada, mas se você realmente escuta é a mesmíssima coisa — aparam-se unhas, muda-se o logo, diz-se "afro-brasileiro" e mantém-se o comportamento arcaico, arcaizante; e têm todos o mesmo olhar bovino. Toda-puta-vez.
Desce aqui, Pequena, e me ajuda a botar fogo nessa trôlha toda, não porque eu estou certo (e não estou), não porque eu quero salvar o mundo (mas quero, você sabe esse tanto), não porque você acha que vai dar certo (ninguém sabe), mas porque você já percebeu que vai ser divertido (ainda que não pareça fácil) e porque você já não consegue olhar para mim sem sentir comichão e sem sentir um medinho. Todavez.

20070701

Q.

Q.
O primeiro relacionamento a durar mais de um ano, o primeiro sexo, o primeiro par de olhos azuis. Q. era linda, linda, linda, linda.
E há quem diga que Q. era linda.
Q. foi a primeira porrada na cara, também. Os motivos que ela deu para me deixar foram crudelíssimos e mais que justos. Eu só podia chorar, implorar para que ela não me largasse, me jogar no chão, fazer cara de cachorro que caiu da mudança, apelar para todas os truques sórdidos e listos que eu conhecia. Foi o que fiz. e não adiantou um nada.
Q. foi dura.
Quando a reencontrei, ela havia perdido o pai e a alegria.
Quando nos encontramos de novo, eu havia perdido o pai, ela o charme.
Q. se tornou uma perua de firma. Deve fazer uma lipo ano que vem e ainda não saiu da casa da mãe.
Agradeço pelas porradas. Q. me fez sair da adolescência. Na hora certa.