20070831

Lontano

Lontano
Perdido entre o azul e o quando, as horas arrastam consigo o cheiro que imagino seu. Ou quero seu. Divirto-me com pedaços inventados de vida, sempre inventados os subtextos de dar cor e roubar sentido ao mundano, à lua, à cisma. Retrato de mente deturpadora de empiricidades forjadas em premência de neologismos e brasas.
Vintemilequatrocentas formas de dizer que ainda vivo.
Ando por entre histórias melhores que as minhas, sempre distantes, um sorriso de distância. Refugo histórias elucidativas a cada passo porque me furtam tempo essas desimportâncias diárias pagas e classificadas. Assusto carmas. Confundo apocalipses. Chafurdo na arrogância de viver correndo, tentando acertar.
Não, carina mia, eu sei que é um exercício fútil esse tentar fazer certo. O correto muda sempre que muda a cor do farol, sempre que lhe chamam sinaleira, sinal ou semáforo. Mas bem já o sabes: tentar acertar me trouxe até este lugar e eu nunca soube realmente o que fazer: vim tirando a vida de ouvido.
Por isso brigo comigo. Por isso quero você.
Não me peça, de novo, para explicar. Você tem preguiça, eu não tenho resposta, e a gente finge que não tem medo e joga o juízo na trifeta, colocando o azarão na ponta e o cavalo de nome mais estapafúrdio em segundo. Porque se não for assim, não vale a pena; porque a gente não sabe mesmo o que está fazendo, mas adora inventar critérios.
Estranheza pode ser um critério, se a gente quiser.
E é assim, de estranheza em estranheza, em improbabilidades, que teimamos vida e inventamos beijos e fazemos amor e somos dubiedade com a desculpa de deixar a obra aberta à interpretação da audiência.
Eu morro de saudades. Mais do que ainda não tivemos.

20070830

Lejos

Lejos
Mais uma vez andas longe. Mais uma vez me vejo olhando quilômetros de terras e águas e céus.
Céus!
Mais uma vez lido com fantasmas, a contragosto. Mais uma vez fujo da saudade e corro para baixo da asa de qualquer resquício de vida: sax, foto, texto, blog.
Sei que passa, sei que não é para sempre; ouso dizer que sei, embora eu queira tanto a ponto de fazer ser verdade. Mesmo que só agora. Mesmo que só para mim.
Eu, que tenho tanta vida, tanta coisa a resolver. E fico aqui convencendo o mundo que não pode ser assim, ainda que assim o seja.
Tolo.

Vem.
E deixa eu dizer o que você não achava possível.

20070829

Festa à fantasia

Festa à fantasia
— Segura minha mão. Não, não assim, segura de verdade. Tá bem, finge que quer segurar minha mão, ok?
— TPM?
— Sempre tem a palavra certa, não é, duque Duralumínio.
— Quê?
— Referências que alguém da sua idade não conhece. Personagem de desenho animado. Você está parecido com ele nessa fantasia.
— Ah, tá…
— É, tá.
— Entramos?
— Vamos beber um pouco antes, Duralumínio. Eu não estou suficiantemente anestesiada para agüentar seus amigos. E menos ainda para entrar numa festa à fantasia vestida de Hello Kitty from Hell.
— Tá.
— Pois é. Eu realmente preciso de alguma coisa para beber.
— Serve cerveja?
— Não.
— Vodca?
— Não.
— O que você quer?
— Taí o problema, não é mesmo? O que eu quero? Ninguém sabe. Você certamente não sabe. Eu quero a lua. E quero agora. Vá buscar pra mim.
— Tá.
— … Vamos entrar.
— E a bebida?
— A bebida, a lua, a mãe do Badanha! A loucura, o desespero. À força, com calma, com sofreguidão. Você não vai aprender, eu não sei o que estou fazendo aqui.
— Você não está bem.
— Estou bem, querido. Estou bem, finalmente estou bem. Mas você não está. Você está em algum lugar para o qual eu nunca vou poder voltar. Algum lugar do qual eu fugi há anos. Algum lugar bonito e cheio de nadas. Nowherland, Neverland, um desses. Eu não estou mais aí. Eu fugi há tanto tempo que não sei mais me portar em público e você não percebeu. E a lua não vai chegar até aqui desse jeito. E eu me espanto toda vez que olho para ela. Não importa quantas vezes o faça, eu sempre vou me encantar.
— Não vamos entrar?
— Desculpa, vai você.
— Ah, não. Você não quer ir, então não vai. Meus amigos estão esperando.
— Então entre, Duralumínio, entre. Divirta-se, eu vou para casa.
— Você que sabe.
— Não, eu não sei. E dou graças por não saber. Ou melhor, eu sei de uma ou duas coisas, já.
— Tá.
— Tá. Eu pego um táxi.

Rodou a cidade. Desistiu de beber. A sobriedade era suficientemente estupefaciente para aquela noite. Pagou com cheque. Dormiu em hotel. Acordou ao meio-dia, não foi trabalhar. Ligou se dizendo doente. Não atendeu "Duralumínio". Voltou para casa e arrumou a estante de livros. Não verteu uma lágrima, a não ser quando a lua saiu.

20070828

Monstros no coletivo

Monstros no coletivo
Fingia que dormitava no ônibus para manter os olhos semi-cerrados e observar o rapaz que sentara ao seu lado e agora bloqueava o acesso outrora livre ao corredor — e se houvesse acidente? O avançado das quase onze horas trazia consigo outra preocupação: o rapaz poderia ser um assaltante.
Abraçou a pasta, que nada continha de valioso, em movimento involuntário. Flexionava o músculo do medo sempre, à menor possibilidade de ameaça. Ou ameaça de possibilidade. Velho hábito, músculo liso.
Empertigou-se na esperança de que sua estatura pudesse intimidar o suspeito, que lia, ou fingia ler, um livro em francês e ouvia qualquer coisa indecifrável pelos fones de ouvido. E anda bem que a ouvia em baixo volume e não lhe imputava aqueles barulhinhos horrendos com os quais todos os utentes, mormente adolescentes, insistiam em inundar os coletivos.
Enternado e gravatoso, apertou mais a pasta ao encontro do peito, uma vez que sua ameaça sequer fora percebida pelo meliante, impassível a fingir ler o Verlaine e, com certeza, a medir os movimentos de Carolíngeo.
Chamava-se Carolíngeo, de fato, "sandices de mamãe que, obviedades não se calam, nomeou meu irmão mais novo Merovíngeo." Esmagava a pasta enquanto puxava a ponta do paletó presa sob o facínora. Pronto, amassara o terno. O terno que acabara, no dia anterior, de buscar ao alfaiate, terno entregue com um sorriso e um "Já está, senhor Carlo, recém cosido." "Cosido e mal-passado", quis retrucar, desgostoso com o erro no seu nome, mas não se sentia em espírito jocoso e, ademais, "não se dá confiança a essa espécie."
Espécie humana.

20070827

Monstros embaixo da cama

Monstros embaixo da cama
No meu sonho, você brincava de apagar e acender as luzes da casa. Ia passando cômodos e acendendo as luzes — dizia que mandava algumas coisas embora desse jeito, que eram coisas velhas e que fediam e que ao acender as luzes elas iam embora e você ficava mais tranqüila.
Depois, vinha apagando as luzes e pedindo que eu a seguisse para assegurar que as tais coisas não tentavam te pegar à traição no momento em que você estivesse num cômodo escuro e elas não tivessem ido embora. Coisas chatas dos infernos.
E íamos de um lado ao outro acendendo e depois apagando luzes e as coisas nunca estiveram lá — era o que parecia. Mas eu não te dizia isso porque sabia que você entenderia em breve.
Acabamos no quarto, no escuro, e você me disse:
— Obrigada por me proteger. Eu não tenho mais medo.
Nos beijamos e ficamos abraçados por um tempo que parecia não ter tempo.
Acordei sorrindo. Morrendo de saudades.

20070826

Mais ou menos

Mais ou menos
Mais um porre. Mais uma ressaca e mais uma noite dormindo com alguém. Mais um ninguém. Menos um dia de vida, mais um desgosto consigo mesmo. Mais um telefone anotado, mais um nome, mais um cheiro e mais uma distração. Três, quatro camisinhas a menos. Mais um erro, mais um arranhão, mais uma sensação ruim. Mais um texto, mais uma média, mais um pão na chapa, mais uma lição. Menos uma chance, mais dor de cabeça, menos auto-respeito, mais uma vez sem você. Mais um chope, mais uma carona, mais um sorriso, mais uma forma de gozar. Menos um preconceito. Mais um dia sem ver você, mais um dia sem você, mais longe, mais triste. Mais um papo, menos uma esperança, mais uma cagada, menos eu, menos você. Mais uma foto, mais um sinal, menos uma certeza, mais outra certeza.
Não mais.

20070825

Paúra

Paúra
Há que ser dolorosamente honesto, já que aqui chegamos. Honesto a ponto de sova.
Honesto ainda que isso me mate.
Doeu e a segunda amanheceu cinza, stormy monday; doeu e tive de fugir para aquelas luminárias horrorosas por não saber como era possível doer tanto e eu não queria que você visse o tamanho do rombo.
É, deu medo. Foi bem estranho sentir medo dos teus medos. E eu mal conseguia te enxergar por detrás deles. E já cresciam os meus.
Fui embora com pernas emprestadas e o coração fingindo ser meu. O mundo havia acabado e não tornaria a ser habitável até a manhã seguinte. E a manhã seria insuportável.
Arrastou-se, o medo, por dias, e toda luta para mantê-lo em tamanho manuseável era um convite ao desastre.
O que eu não sabia e, certa monta, não esperava, era da lucidez, ou antes da loucura coerente, da ausência de senões, da clareza do jogo. Simples. Leve. Inequívoco.
Bastaram algumas notas, mas era necessário chegar até ali, ir até ao fundo, não ver o caminho, e Claire podia, enfim, devolver-me um rumo.
Um sorriso, era o que bastava. Mas só se fosse você.

20070824

Bi-articulado, areia movediça

biarticulado
Quando resolveu sair já era tarde. Bem tarde. Amaldiçoou-se por tanta preguiça e por sua capacidade insuperável de procrastinar. Respirou fundo e ajeitou a camisa que escapava da calça. Pegou a maleta e saiu, meio penso. Saiu, por bem de sair.
Fez sinal e o ônibus não parou. Deixou escapar um impropério. Ouviu-se blasfemar e disse outro vitupério, baixando o calão. Baixando até não agüentar ele mesmo a agressividade e dar-se por satsfeito, tendo ofendido a própria natureza da humanidade. E o motorista. E cinco gerações de estirpe duvidosa.
Andou, mesmo não querendo andar, ou antes não querendo chegar, andou. Palmilhou meia cidade na esperança de um infarto, ou um orgasmo. Mas era bem o primeiro que o deveria acossar antes de chegarem os sessenta, antes de cruzar a Rua Direita, antes de morrer afogado em areia movediça ou em mares abissais.
Chegou ao vetusto prédio que abrigava a firma desde há mais de oitenta anos, antes dele nascer. Sentiu uma tontura e achou que não haveria nada de mais se se deitasse ali mesmo, no chão do elevador, porque eram apenas alguns segundos e, afinal, trabalhava ali há trinta e dois anos, o mínimo que lhe deviam eram alguns segundos deitado no chão frio do elevador. Não muito mais do que o tempo de chegar ao vigésimo terceiro andar, convenhamos.
Não se levantou. Não se levantou mais. Decidiu ficar ali para sempre, longe de problemas mundanos que já o aborreciam mais que a gravata, a polaina, as ligas e as suíças. Não se levantou nunca mais.
A firma foi multada em um mil e oitocentos reais por deixar um funcionário morrer assim, em meio ao expediente, sem aviso prévio e sem o consentimento do condomínio. E sorria, o celerado, ainda por cima.

20070823

T.

T.
Era muito mais do que eu poderia querer, T. Era mesmo um portento de mulher que eu sabia que não seria nada mais que uma fantasia de alguns dias, poucas horas, talvez.
Mas não foi.
Foi T., cabelos encaracolados desafiando qualquer fleugma que eu montasse. Qualquer desdém que eu ameaçasse. Qualquer resistência.
Não me levava a sério, T., e eu a amava por isso. Um jogo tão antigo e tão despropositado que nenhum de nós dois acreditava muito que pudesse ser mais que um jogo.
Mas foi.
E já não nos importávamos mais, eu e T., se alguma coisa sairia daquelas não-provocações e daquele tango frenético e descompassado como, destarte, eram nossas vidas quando nos soubemos, T. e eu.
Creio que ainda hoje não haja explicação para T. E não procuramos explicação. Apenas sabíamos que algo não andava conforme deveria. E foi apenas o que houve: desconforto, diversão, desespero.
Um chope, uma seleta, um dia, T. Não mais que isso.
Não muito mais.

20070822

Fechado

Fechado
Barulho de vidro quebrado na noite quase-fria e quase boa de lembranças não tão antigas. Vidro quebrando, quis corrigir, mas já ia o verbo em tempos e flexões que lhe escapavam como os meandros e melindres de mulher tão inescrutável quanto sua fome após ceia lauta, pesada e descabida — ainda mais a essa hora.
Avançada hora de perder a razão sobre escritos ensimesmados de dor e de fantasia regida por crooner negra lindíssima de filme dos anos setenta, infância tão mais longínqua quanto as tremas que insistia em usar, arrancando suspiros espantados de adolescentes alérgicos a anacronismos — escravos e geradores de modas tão cansadas; tão frívolas e tão cansadas.
Giros e giros de catracas e de portas revolvendo, lugares não existentes, não-lugares, espaços de passagem que sempre lhe incomodavam com a súbita consciência do abandono de antigos amores — homem-catraca.
Dois comprimidos de Tylenol, um último gole de rum, o maço de Gitanes, vazio, atirado pela janela, a boca ainda dolorida e toda a breguice do mundo cabendo em dois minutos de texto reescrito em verso de conta telefônica. Busca de alívio passando por interurbanos e DDIs que já não se animava a reclamar.
Acúmulo de erros.
Bloqueio mental, derrocada de tiradas já de graça gasta em roubadas e noites jogadas a quem as quisesse, com quem não se lembrasse, cujos nomes se lhe perdiam sempre, junto à vontade de acertar. A vontade, o nome, as camisinhas, os blocos de concreto fechando entradas e o desprazer de procurar outras roubadas.
Atenção dispensada volte sempre tenha um bom dia aqui não e o resto dos pensamentos descoordenados na adrenada fim-de-noite-lamento a que nem mesmo o sax de mr. Keith Anderson é capaz de dar lógica. Menção de se fazer sentido é especial quando não há mais o que reclamar e a própria sizudez foi misturada ao chá.
Diga seu nome e a cidade de onde está falando.

20070821

Desleixo

Desleixo
Emprestava vida, mas cobrava juros, certo de que essa história de usura de good times lhe salvava o dia.
Vendia caro sorrisos e prestava falsas declarações à praça, elogios, recomendações, vendia barato sua reputação.
Flanava.
Não se deixava pegar em flagrante, prendia avisos em postes pedindo recompensas para achar cachorrinhos e dignidades.
Foi sempre doutor de sua própria destruição enquanto tocava flauta como se não houvesse ontem. Nunca olhou para trás. nunca quis saber.
A não ser...
Mas era tarde demais.

20070820

Réstia

réstia
Dias de jogar tudo fora e ver o que sobra e se ver no que sobra e saber que o que sobra não é resto e, de resto, saber que eu quero você.
Fica comigo?

20070819

Não

não
Seca na garganta toda a…




Engole seco e tenta uma vez mais que…




Sede.









Desiste de chorar.

20070818

Interregno

interregno
Preocupava-lhe o que acontecia entre um frame e outro no rolo do filme de cinema. Piscava o mocinho? Suspirava o bandido? Dizia a mocinha um palavrão ou deixava o velho escapar um bocejo? Cada espaço (ou tempo?) entre os vinte e quatro frames era um pedaço do mesmo universo ou um universo próprio em seu direito, cada um deles infinito e em expansão?
Interessava-se pelo comportamento e a própria existência de realidades determinadas pelo observador e pela beleza da coexistência de realidades múltiplas e, acima de tudo, pela possiblidade de própria não-existência contínua, mas discreta, universo piscante e não pulsante, vida e morte coexistindo em ciclos ou à mercê de observadores.
Agradava-lhe a inconsistência de todos os dogmas e todas as teorias e todas as fés e todo o saber não instantâneo e não circunstancial. A fragilidade de certezas e tradições e saberes e do conhecimento acumulado a divertia e fazia dela uma cética bem-humorada.
Queria, portanto, o não-saber de pessoas e lugares e queria descobri-los a cada revisita, mundo eternamente desconhecido, incerteza por princípio: essa certeza se auto-destruirá em cinco segundos.

20070817

Confundindo

confundindo
É fato. E vem em música, by chance: I play beautiful music and I play dangerous rhythms.
Em compasso de espera.

20070816

DR

dr
— Como pode?
— Não sei. Mas pode, né?
— É. pode. É que fazia um tempão que não me sentia assim. Bem assim…
— Você me faz bem.
— Eu achei que não existia mais gente igual a você.
— Sei bem como é. Às vezes acho que você não existe.
— É aquilo que eu te disse, sabe? De abraçar você e me sentir de volta para casa.
— Você me faz sentir segura.
— E pensar que você me dizia para te esquecer.
— Eu não poderia agir de outra maneira.
— Não, não poderia. E te admiro mais por isso.
— Você é lindo.
— E você é perfeita.
— A perfeição é chata.
— E faz-se o paradoxo de ser chata e, por isso, imperfeita. Mas, quando imperfeita, perder o que lhe fazia chata.
— Besta.
— É. Besta. Bobo… Já notaram.
— Andam me perguntando…
— E você? Que diz?
— A verdade.
— Mas mentiu pra mim.
— Menti?
— Quando disse que não sabia. Quando me pediu para ir embora, viver minha vida…
— Menti. E mentiu você ao dizer que eu deveria me afastar.
— Disse "deveria", não disse que eu queria.
— E o que é que você quer?
— Taí. eu nunca tive resposta outra para essa pergunta que não "quero ser feliz". Mas não é só isso. Quero você na minha vida, por volição, por prazer. Quero você toda, quero tuas imperfeições e teus mistérios. Talvez até alguns segredos. Quero teu tempo, teu humor, teu tesão, tuas dúvidas e tuas cores. Quero te dar tudo o que quero em ti, e que você queira essas oferendas de apaixonado. Quero que me saibas e que te mostres, te entregues, confies e te abandones aqui, entre carpa e dragão. Mas, desde sempre e para sempre, quero que sejas feliz. Por isso te fiz prometer…
— Três vezes.
— …Três vezes que nunca me deixarás ficar entre você e tua felicidade.
— E, por isso, te amo.

20070815

Próxima estação…

proxima
Ela vinha assim, dançando como se não pesasse um decigrama. E ela me daria sorrisos apenas por usar "decigrama" em um texto, assim, despretensioso de fim de noite, começo de madrugada de saudades concentradas. E perceba que não faz horaemeia que nos vimos.

Ela vinha com seu jeito de cabelos vermelhos me provocar em meio a dissabores que colecionava porque eles tinham lá suas funções de gerar textos mais pretensiosos que os que agora vão se empilhando enquanto o tempo que tenho é dela. Enquanto o tempo que ela leva para fazer um bico me alarga o universo que já declarei de borracha e, sabem todos os que me conhecem, sem memória estrutural.

Não, ela não vinha debalde, ela se apresentava me provocando a cada ameaça de frase calada na vontade de ser onde. Vontade de ser onde é uma coisa que a gente não aprende na escola, ou na faculdade de História, embora pudesse ser assim. Ela aprendeu a me provocar talvez na escola, mas desenvolveu tal técnica que ninguém diz. É mesmo coisa de quem nasceu sabendo.

Ela vem, a cada dia, dizendo gostar mais, querer mais, estar mais apaixonada, como se a gente estivesse fazendo campeonato de gostar. Taí: campeonato de gostar. Deveria fazer parte de olimpíadas e panamericanos e devia ser ensinado em lugar de Educação Moral e Cívica, que nem deve existir mais, e continua tão útil. Vem e faz carinha de pidoncha e levanta o canto da boca só para me ver desabar em carinhos e juras. E jura que é sem querer, adorável que é.

Ela chegou me ensinando paciência e descontrole e dor e excesso e vontade de ser aquilo que eu já esquecia de ser. Como era? Como mesmo? Talvez assim, apaixonadinho, bobo, felizinho. Essas coisas que estão sempre ali, junto do CD da Dakota Staton que a gente coloca de vez em quando para lembrar essas coisas de sentir. Eu quero mais também, porque no pacote veio mais vontade de Pequena, mais tesão de abalar essa moça quando ela não espera e do jeito que ela não espera. Porque nos definimos nas negações para nos completarmos depois, e cairmos, exaustos, derretidos, mais próximos, mais incrédulos.

Porque é assim que ela me faz feliz. E eu não quero mais saber. Basta-me Pequena. E que venha o mundo.

20070814

Indizer, desdizer, deixar ser

indizer
Se te pareço doce, tenhais-me por amargo, azedo, antipático e desagradável. Aumento um pouco o ar-condicionado para fazer frio, mais frio que lá fora, e espantar os resquícios de saudades e de vontades que ainda se acumulam por todas as frestas de tacos do apartamento — eu não consigo dar conta do tanto que produzo. Mas me pedistes para mentir e eu faço um esforço, daqui até o fim do ano (natal já chega, guirlanda, cereja e ho-ho-ho), que é asim que se joga agora, embora eu não queria jogar, eu lembro de ter dito isso.
E isso tudo não é matéria para blog.
[ajeita as costas, respira fundo]

Se te pareço forte, tenhais-me por fraco, vil, beócio e obtuso. Aumento um pouco o som, que é para não me ouvir pensando, para não ouvir o coração falhando a cada tum. Tum-tac-tum-tum-pshhhh. É quase um swing para acompanhar o Freddie Hubbard se acabando no CD novo que Ana me fez comprar hoje, depois da tua ligação. A barulheira infernal afasta os achares e os sonhos que eu nem sabia que estavam aí, de dias modorrentos e viagens tão singulares e descobertas incessantes. Nah, eu espero a páscoa de 2009, ano de ir à ilha, a de Páscoa, só para pensar que, se não posso o que quero, querer outras coisas pode ser opção.
Mas nunca será tão bonito, dizem os patetas. Os dois.
[cofia, perde o olhar pela janela]

Se te pareço inverossímil, faze de mim um comum, um ordinário, um mundano, um qualquer. Eu lavo um pouco mais de louça só porque odeio lavar louça. Eu esqueço de escovar os dentes por causa das reuniões depois do almoço. Eu não ligo para dinheiro. Eu adio a rede wireless aqui de casa. Eu mudo de opinião. Eu acredito que pode dar certo e até sou capaz de fazer o esforço de desconstruir sentimentos tão fortes que não me deixam ir dormir quando tenho sono. Mas mentir assim, sem ninguém para ver ou escutar, mentir para o espelho, desdizer juras em mangas de camisa, bebendo chá e esquecendo de amanhã, mentir assim e me convencer de que tudo está bem, olha…
[abaixa a cabeça, desenha um passarinho no moleskine]

Se te pareço um erro, segue em frente. Não liga, não xinga, não chama, não zanga. Eu finjo de morto e me escondo atrás do poste que sei que não esconde nada — como o silêncio chato que queres necessário só porque eu disse que o faria. Mas se acordas do pesadelo e chamas meu nome, se por algum motivo improvável achas um presente que é a minha cara, ouves uma música que te lembra as minhas risadas; se em algum momento teus lábios pedirem minhas imperfeições, teus braços quiserem minhas dúvidas; se por um erro de cálculo pensares em mim, e por um erro do destino acabares dividindo a vida comigo, tímida, linda, feliz e sem nada entender, assim como eu, fecha os olhos e pula comigo. Que levamos pouco ou quase nada ao resto da vida: um amor, dois pares de olhos e a improbabilidade que espantará o mundo.
[sorri]

20070813

Acabou o vinho, qual vai ser o último brinde?

vinho
Convidou-o aquela vez mais com a intenção de resolver definitivamente a situação que já se arrastava por muito mais do que deveria. Um jantar simples, salada, massa, nada de carnes hoje. Ele ficara de trazer o vinho. Tinto. Seco. De mesa. Não deveria ficar muito tempo — o jantar, uma conversa e uma definição; o final de uma história que já a exasperava desde há muito.
Abriu a porta e imediatamente odiou aquele sorriso safado. Odiou o fato dele ainda mexer com ela com um mísero olhar. E um sorriso. Deu boa-noite e o fez entrar. Ele trazia duas garrafas em vez de uma. E um saca-rolhas.
— Achei que você poderia não ter. Mas, se já tiver, pode mandar emoldurar.
Emoldurar um saca-rolhas, o filho da puta! Fazê-la rir não estava no script. E com coisas bestas, ainda mais! Comeram. Falaram de trabalho, da banda dela, da pós dele, das eleições, de tatuagens.
— Você continua sendo minha cozinheira predileta.
"E, você, um pulha que continua me enrolando há um ano, e talvez eu seja a idiota completa e fique imaginando coisas." — pensou. Ele já estava alto. Vermelho desde o primeiro copo, ela só percebia quando ele ficava alto porque começava a falar difícil e toda sua cultura enciclopédica invadia a conversa. Bêbado, ele não mais se importava se as pessoas conseguiam acompanhá-lo. Bêbado ele era mais interessante, e mais mala.
— Sem sobremesa? Achei que seria agraciado com aquela maravilha de sorvete-mamão-licor-de-hortelã que você deveria vender ao Les Halles, perdôe a redundância de artigos.
Era a deixa. Não era uma deixa de verdade, mas de alguma forma ela conseguiu começar a falar e a não deixar que ele a interrompesse. Desfilou as frustrações e mágoas de quatro anos de não-relacionamento e de um ano de rompimento imaginário em que qualquer sinal se tornava uma possibilidade e qualquer possibilidade azedava em dor. E a polidez dele, e seus pedidos de desculpas, não ajudavam. E ela era incapaz de se afastar em definitivo. E os outros mocinhos não ajudavam. E ele ajudava menos.
— E você ainda me traz um saca-rolhas, seu filho da puta! E me olha desse jeito safado de quem quer me comer toda puta vez!
Deu-se conta de que também estava bêbada e que devia resolver aquilo, antes que o problema se tornasse sua vida. Talvez já um pouco tarde demais.
— Acabou o vinho. Acho melhor você ir embora. Para sempre. Não quero te ver nunca mais.
— Nunc est bibendum.
— Enfia o latinório e sai da minha casa, por favor. Por favor.
— Um brinde, então.
— Ai, caralhos! Que seja…
— A todas as possibilidades que matamos a cada escolha. Às vidas que não tivemos coragem de viver. E que não as saibamos, jamais.

20070812

Relógio

relógio
No meu sonho nossos cachorros corriam, libertos, leves, e eu quase achava que sorriam. Em meu sonho eles tinham línguas verdes e azuis e vermelhas, e elas tremulavam soltas em sóis de tarde e campo.
Sim. Sóis. Plural.
No meu sonho você brincava de aliterar e se ria toda vez que eu completava suas frases mantendo o nipe. Você me perguntou por que o tempo andava mais rápido toda vez que você o tentava parar, e me mostrava seu relógio de pulso e me pedia para consertá-lo, pois "onde já se viu um relógio de ponteiros que não para o tempo?"
Eu olhava o relógio e olhava para os cachorros e você se distraía com estes e o relógio seguia andando, querendo te enganar e o tempo só parava quando eu te beijava e o relógio enrubescia em sua cara de desenho animado e tinha de cobrir o rosto com as mãos. E era assim que o tempo parava.
Acordei com você sorrindo ao meu lado e tive a impressão que você sonhava o meu sonho.

20070811

Typo

Typo
Recolhia os tipos do chão após o empastelamento e notou, primeiro, a ausência dos As. Realmente, o trabalho de minúcia e tédio, quase puramente mecânico, escondeu por horas ao fato que nas caixas alta e baixa ele não colocara sequer um A. Com ou sem til. Com ou sem acento ou crase. Itálico ou redondo, em qualquer corpo e, agora somente lhe ocorria, em qualquer família. Havia perdido todos os As da tipografia inteira e não havia explicação. Não poderiam ter sido os oficiais que ali vieram impedir a impressão dos periódicos libertários, pornográficos ou subversivos — admitamos que a linha editorial da casa pouco ou nada deixava fora dessa lista e provocava dissabores cidade afora.
Não, teria sido impossível que naquela meia-hora de visita truculenta os rinocerontes fardados tivessem separado e levado, imperceptivelmente, todas as letras A. Além do quê, de aparência tão articulada quanto a dos ungulados das savanas de verdade, eles nunca teriam tido idéia tão brilhante. Não, o intuito era apenas adiar por algumas dezenas de horas a publicação de qualquer ataque à Sua Majestade, o Rei, que ali estava a inaugurar chafarizes, ou qualquer reizice equivalente.
Qual fosse o motivo, já lhe dava medo o fato em si: não poderia haver explicação natural para o sumiço cirúrgico e asséptico de todos os As de todas as fontes de todos os corpos de todas as decorações de todas as caixas da tipografia. Era mesmo coisa de abalar sua fé na falta de fé. E o fato de só após quatorze horas recolhendo e separando tipo após tipo que ele houvesse notado o sumiço o dava arrepios.
Enlouquecia, era a única resposta.
Mas chamava-lhe o dever cívico, e as publicações proibidas tinham de sair para que se mantivesse a esperança, para que houvesse liberdade a ser alcançada e heróis que celebrar. E pôs-se a compor a primeira linha daquele que seria um marco da imprensa do país por anos vindouros, um editorial sem letras As, sua melhor manchete.

20070810

Mais

Mais
Deixei você dormindo, nua, em mar de conforto-algodão e cheiros; montei Rocinante e fui gastar o tempo que não é seu (e não é seu só por erro de projeto do mundo — eu deveria ocupar-me em te fazer feliz tempo integral).
Minto a mim mesmo achando que saio para salvar esse mesmo mundo quando, no máximo, luto contra monstros de tédio e pasmaceira, de chatice institucionalizada, e tento dar ao já citado mundo uma amostra do bem que você me faz. E basta essa partícula pequeníssima para que se encham de bons-ares e estupefaciência, mal sabendo, a maltaturba, que tenho o todo, a fonte. Ainda que por tempo diminuto. Ainda que eu tenha de te abandonar de manhã (e seja a pior luta do dia, esse deixar, esse ir).
Pois vou a achar coisas no caminho — pedrinhas coloridas, palavras de formato estranho, saudades hipertrofiadas, para te levar à noite, à hora de ver Pequena, a coisa adorabilíssima que chega com oitenta e dois dedos e me deixa com um universo de cortar-e-colar, brilhinhos-de-contato e muita fome.
Porque nos damos um "cado" menos do que queríamos e nos damos tudo aquilo que não tem função vital, exceto que no-lo damos, e até mesmo o essencial, nessa confiança absoluta de amantes mais inocentes quanto maior a lascívia.
Sou teu, Pequena, e apenas teu. Enquanto quiseres, teu. E tanto, e tão completamente, que já nem lembro de ser diferente.
Para sempre? Com você, parece possível.

SMSeando Neruda, 11

"Quiero saber si usted viene conmigo
a no andar y no hablar"

Vou. E vou tanto, e com tanto gosto, que até da vontade de chorar. É só nao marcar o dia.

SMSeando Neruda, 10

"Quiero saber si usted viene conmigo
a no andar y no hablar"

Non parlo espaniol mui bien pero me gustava mucho capire meglio che cosa me piede!

Nada mais que sua desatenção; e que não me leves, nem a mal, nem bem a bem.

Ahn? Desatencao? Usted non parla piu con me...

Parlo. Sempre que há conivência. Conivência com café.

Hum. Sei. Entao vc ta me dizendo que seria conveniente um café?

SMSeando Neruda, 9

"Quiero saber si usted viene conmigo
a no andar y no hablar"

apenas ser. boa ideia.

Brindemos a isso! =)

SMSeando Neruda, 8

"Quiero saber si usted viene conmigo
a no andar y no hablar"

Se nao hablamos nem andamos, melhor bailarmos para nao haver desperdicio...

Dá-me o prazer dessa contra-dança catala-catala?

E quem canta a melodia se ficamos mudos?

Música inventada. Imaginada. contamos os compassos com piscadelas.

SMSeando Neruda, 7

"Quiero saber si usted viene conmigo
a no andar y no hablar"

Vou com voce para qualquer lugar, do jeito que der, me esconder do mundo e brincar de contar pintinhas. Adoro voce.

Com você eu vou, fico, calo, gozo, vivo. Amo, que já não sei mais. =*

Estou tentando parar o tempo. Assim que conseguir te aviso e poderemos passar o dia ouvindo, gozando, estando, calando e sumindo em tatuagem e cicatriz.

Sumir em bicos e lábios e cabelos carmesim, sumir com essa mulher que doma o tempo com um sorriso e me deixa cambaio com um gemido. Te amo.

Ninguem esta fazendo nada sozinho. Meus gemidos, labios, bicos e gozos existem em resposta a palavras, toques, lambidas, beijos e mordidas nunca antes vistos por essas bandas.

SMSeando Neruda, 6

"Quiero saber si usted viene conmigo
a no andar y no hablar"

Convite real?

Sempre. Mesmo não sendo. Poeminha de confundir o dia. =)

Quero 'no andar y no hablar' um dia desses =)

SMSeando Neruda, 5

"Quiero saber si usted viene conmigo
a no andar y no hablar"

por supuesto que si.

Quando queiras, não sabermos, que é mais divertido.

SMSeando Neruda, 4

"Quiero saber si usted viene conmigo
a no andar y no hablar"

Nao consigo, sou mulher. Preciso falar, sempre. Serve assim?

Então leve alguém para não ouvir, que eu sou sem-vergonha e sempre quero saber.

Quando? Onde? como?

Jornalista...

Isso é uma ofensa?

SMSeando Neruda, 3

"Quiero saber si usted viene conmigo
a no andar y no hablar"

¿Donde?

Donde quieras. Quando é a pergunta.

SMSeando Neruda, 2

"Quiero saber si usted viene conmigo
a no andar y no hablar"

No voy.

Chata.

I luv u 2.

SMSeando Neruda, 1

"Quiero saber si usted viene conmigo
a no andar y no hablar"

Siempre.

20070809

Som

Som
Era difícil respirar ali, com todas aquelas luzes: refletores, spots difusos, canhões de cores diversas. Canhões de olhos fuzilantes — centenas de holofotes atentos a cada possível gesto, a cada promessa de expressão, a cada ensaio de suspiro. Se ele conseguisse se mexer. Se pudesse respirar.
O silêncio era tal que ele ouvia o zumbido grave dos refletores, não com ouvidos, mas nos ossos: o som que a luz emitia. E era como se a luz fosse tudo o que existisse. Ninguém, enfim, respirava. E a tensão acumulada não tardava em forçar elétrons a trocar de orbitais… Luz.
Algum suor lhe brotava na testa, mas era impossível se mexer agora: tensão, medo, fôlego suspenso, silêncio, luz. E era tanta luz, e consigo o calor, que a gota de suor morria ali, órfã, efêmera, mais insinuada que real e, muito provavelmente, desapercebida pela platéia também suspensa em silêncio.
Um movimento curto, involuntário, imperceptível, ameaça de respiração, e toda a tensão desce ao abdômem, sobe pelas costas, retesa braços e, finalmente, franze-lhe o cenho, narinas dilatadas, respiração interrompida em tempo de não-existência. E todos os demais se apóiam na pureza da luz, apavorados com a possibilidade de qualquer som ou qualquer gesto estilhaçar o silêncio e a própria luz e trazer caos ao mundo.
Nada se move. Nada respira. Nada existe, afinal.
Devagar lhe assoma a vontade de interromper a perfeição daquele universo de vácuo iluminado, estupor contenção paz silêncio pureza tédio morte fim. Fez-se simples, portanto, a escolha: vida ou morte, ordem ou caos, luto ou regozijo.
Deu as costas à platéia atônita, mas por demais acostumada à passividade intrínseca de esperar — spectare — para qualquer manifestação perceptível, e deixa o palco. Para se meter pelo som; para dar-se à fúria; e sentir, uma vez mais, agonia êxtase dor gozo descontrole imperfeição recomeço vida. Ainda que isso signifique seu fim.
Seria mais um.

20070808

Oito

Oito
Houve tanto de aprender e tão pouco tempo: uma vida. O tudo de se dizer calou no equívoco de seriadade e probidade severa e profissionalismo absoluto quando nos bastariam tuas piadas ruins, teu lado bobo. Não percebeste o quanto nos davas bakayaroo. E não tínhamos autorização para dizer
Não é ingratidão, muito ao contrário. É só a constatação tardia de que poderia ter sido muito mais fácilpara todo mundo. E, principalmente, mais divertido. Se ao menos a gente soubesse que podia. Teria sido.
e já me irrito com condicionais.
Posto que foi o que foi, and there's no changing it, fica um textinho de reconhecimento, de gratidão, de brinde, já que conversamos mais e mais seriamente, e nos soubemos e nos resolvemos, em sonhos e transes, transpondo títulos e cargos e tradições, matando superegos com aplomb.
Em que pese o lado difícil — e te víamos quase a dizer que "sofrer molda o caráter" — aprendemos muito, e lhe somos gratos, gratíssimos. Relaxa, agora. Descansa em paz. E saiba que guardamos alguns dos teus conselhos. Mas só os "inúteis".
Em oitodooito, PK.

20070807

Olhares

Olhares
Dá-me mais uma vez esses olhares que eu já achava perdidos, ou frutos de eras não vividas e inventadas, porquanto são inventadas todas essas memórias e, de resto, é inventada toda memória.
Então preciso desses olhares sempre e de novo; já que não posso confiar na memória, resolvi acreditar em meus sentidos. Mas dizem os sentidos coisas difíceis de acreditar — e por isso falava dos olhares.
Também teu olhar é de incredulidade. De curiosidade, de súplica, olhar de quem come com os olhos, morde com os olhos, Coríntio de folclore de quadrinhos. Olhar de gazua, desmonta em treze nanossegundos (e, sim, serão sempre treze nanossegundos, unidade cabalística de tempo, de cálculos subatômicos e movimentos diastólicos e processos de derretimento de sorvetes em CNTP), qualquer sólida teoria apoiada em vinte ou mais anos de experiência e reflexão. Assim, de estalo.
Porque parecem tão fáceis, tão simples e naturais esses olhares, que os acredito não-intencionais, mesmo eu já te sabendo succubus. Parecem mesmo espontâneos — mais um desafio à lógica. Olhares-campo-gravitacional, tão fortes que distorcem a realidade, o tempo, o espaço, o dia, os sentidos. A memória.
Agora, aqui parado, mudando ligeiramente o discurso por não querer decidir a grafia de "complexíssimo" e evitando escrever "complessíssimo" mais por efeito sonoro ou visual e para a consternação do mundo e pela diversão de um pequeno cognitive hazard que faz os dias menos aborrecidos; agora, absorto em lembrar teus olhares, defino-os, insight causado pela primeira dose de cafeína do dia, pela obviedade do título no alto da página, do conceito que, afinal, aqui me trouxe e que, muito provavelmente, nos aproximou, gatos curiosos, bichos diferentes, olhares inquietos, uma vez mais: cognitive hazard.
Você me olha, Pequena, e já não importa o real.

20070806

S.

S.
S. foi o segundo maior sorriso da minha vida. S. sorria com o corpo todo, com olhos verdes e covinhas e ombros e trás-cotovelos e dedos dos pés. S. sorria tão absolutamente que sorria com meus dedos dos pés.
S. foi meu primeiro beijo na boca, e me ensinou desejo. Desejo, fome, insaciedade de corpos e desespero de completude. S. mostrou-me que eu nunca seria inteiro estando sozinho. Ela me fez incompleto quando, inadvertidamente, completou o que eu não sabia defeituoso, e me deixou nesse estado de paixão do qual nunca saí (embora tenha tirado férias por uma ou duas vezes).
Foi S. quem me deu esse lust for life.
Décadas depois, S. tem uma filha e o mesmíssimo sorriso e, se não riu com meus dedos dos pés, foi porque eu desaprendi como se faz. Mas guardei, S., todo o carinho que lhe é por direito, e este tanto você soube.

20070805

Lápis de cera, peixinho dourado

lapis de cera
Acumula o desespero a cada troca de farpas — conto de fadas. É um tango vigoroso que se ensaia sem querer, apesar de vidas tão reais e quase fofas, pois que até nos dão caixas de lápis de cor e lápis de cera — e o fazem com sorrisos e mesuras —, mas a gente, no fundo, é esqusito assim de ficar cheirando os lápis de cera em vez de usá-los no papel, e os mordendo em rampantes de curiosidade para descobrir que ¡saben a rayos!
A gente descobre esse horror compartilhado de ter de usar as cores como querem os homens de bem: o céu, sempre azul; os peixinhos, dourados; a graminha, verde; a rosa, bem, cor-de-rosa. Color by numbers. A gente se enfada de gente. A gente quer mesmo é que as gentes se explodam. Numa terça-feira gorda de carnaval, no less.
E os malditos dos peixinhos dourados, coitados, nunca os vimos dourados. Sempre foram laranjas, daquele day-glo-life-preserver-orange, da cor do chevette velho que seu pai teve e que você odiava. E, de repente, a cor dos peixinhos é a redenção dos mesmos, alheios que são a convenções chatas e preconceitos cunhados pelos mesmos odiosos ultra-arrogantes que nos dão asco. Preconceitos que adotamos por preguiça e, então, nos damos asia.
Queima os coletes salva-vidas comigo, querida, agora que resolvemos ser tubarões e aprendemos a gostar de sangue. Queima o manual de boas maneiras, queima a porra da floresta amazônica e todo "panda imbecil que não trepa para salvar a própria espécie."
Ou volta a jogar sudoku e ouvir muzak e saber tanto e ter tantas certezas. Eu já não posso mais. E não é de hoje.

20070804

Câmbio

Câmbio
Queima o bico no café quente, caldo comme l'inferno. "Tra l'inferno dei vivi e l'inferno dei morti." Era só pressa de viver a próxima, a outra, mais uma, nunca de novo. E tinha razão, certa forma, que são infinitas as possibilidades e não há porque repetir experiências e não há porque se contentar com um só, com uma só, um só mundo, uma personalidade, uma vida. A não ser que se queira ficar, ou repetir.
Mas repetia, afinal, sem dar-se conta. Padrões, rotina. O desistir, o deixar para trás tudo que não fosse novidade, qualquer coisa que já tivesse experimentado. Enfado, tédio, aborrecimento, cansaço, nojinho, enquanto colecionava selos e rótulos: volúvel, medrosa, novelty-junkie, inconstante, inconseqüente, chata. Padrão, enfim, previsibilidade.
Caiu a ficha da constância/inconstância, das possiblidades e das próprias impossibilidades: liberdade cerceada pela busca dessa mesma liberdade, travestida de mudança. E, quando caiu a ficha da escolha que não tinha, parou. E já não mais se procupa se fica ou muda. Só importa que, verdadeiramente, escolha — seu novo padrão.

20070803

Tinha de ser

tinha de ser
Eu entendo medo assim. Quando a coisa parece tão boa de dar esse medo de acabar mesmo antes de começar e ter de cantar "One of those things". Principalmente quando a coisa parece boa de se cantar "You're my thrill".
É claro que eu compreendo essa história de "Don't fence me in" que mais parece "Save your love for me", e eu mesmo ajo "Like someone in love". Por isso te peço para "Dream a little dream of me". Afinal, parece impossível mas a gente acredita que "They all laughed".
Sabe, "Beyond the sea" pode ser bem mais perto, bem aqui, ao alcance de uma olhadela mais envergonhada ou de um suspiro deixado escapar sem querer (ou de propósito). E você sabe, embora não admita, que "It had to be you".

20070802

Espaço-tempo

espaçotempo
Eu bem que gosto quando a coisa tem emoção, admito este tanto. Mas, em algum momento, a gente tem de relaxar e curtir, não te parece? O jogo é emocionante, mas a falta de conclusão, por intermediária que seja, alguma coisa que dizer "foi bom" ou "não foi", é desgastante, se perdura. Algum instante antes que o desgaste acabe com a possibilidade de dar certo, o que quer que isso signifique. Gente também entra em combustão, ou espana, ou fica banguela e não gira mais — tudo depende do tipo de fricção.
Eu não reclamo de tanta coisa acontecendo e da intensidade e nunca fui do tipo que guarda para amanhã. Eu me sacio. Porque amanhã a gente vê. Mas tenho a impresão que desse jeito a coisa acaba antes de se saber o aconteceu.
Mas minto, você sabe. Porque quero mais. E fico te provocando mais. E não me importo onde vai parar, ou se vai parar, ou se vai sobrar, ou se vamos ter de inventar. Inventar é divertido, "ser outro constantemente", querer você de outro jeito e sempre de um ou outro jeito, diferente, mas sempre você.
Então não pare agora. Não espere, não adie, não tenha pudores agora. Nem pressa. Não agora. Minhas medidas já não valem nesse universo alternativo em que talvez acontecesse de ficarmos juntos. Afinal, aqui não se aplicam as leis da física ou quaisquer outras leis que a gente resolva chatas. Muito rápido? Muito demorado? Relatividade?
Parar o tempo? Aqui, agora, a gente pode.

20070801

Acidentes geográficos

acidentes geográficos
Amassou minhas angústias sem cerimônia e as jogou no rio, pouco se lixando com a possível morte de dois ou três lambaris. Não era mesmo hora de pudores ambientalistas.
Estapeou-me. Mordeu. Me tirou de bobo e de cara-de-mamão. Me fez rir e errar todos os pronomes por horas, por vezes de propósito.
Deixou-me no estadinho já conhecido. Mas era diferente — e já sou diferente.
Trouxe medos novos e dúvidas cruéis e bobices divertentes de esquecer o dia. Os dias. E vai, aos poucos, metendo band-aids para tudo que é lado e me fazendo gastar as últimas metáforas toscas — aquelas guardadas para o natal —, que é para eu voltar a escrever coisa que preste.
Fez profissão em me provocar e me xingar e me dizer, com todas as letras, o que acha de mim. E, crédito lhe seja dado, é diligente quando o assunto é "letras".
sabe, agora, que não tem mais como viver sem mim. Tampouco eu sem ela. Ainda que um Atlântico teime em existir no meio. Mesmo que Urais.