20070916

Risos

risos
Percebeu logo em que confusão se metera quando alguém riu. Aquela malta era platéia. Ele dava o show, inadvertidamente.
Dançou. Fez caretas. Jogou malabares e saiu correndo, exausto, desacorçoado, em prantos.
Vendeu o celular e comprou passagem de volta. Fez parada fingindo dormir no ônibus.
Entendeu, tarde demais, a tristeza da sua figura.
Hoje ganha a vida escrevendo para jornal.
Hoje não sabe mais que esconder-se do sol. Sorver chá.
E não ri.

20070915

Faixa de pedestres

faixa
Compulsão em atravessar a faixa de pedestres era o que acometia madame Eva. Por isso não ia a lugar algum a pé. Para não passar vergonha. Ainda criança, isso começara: assim que lhe foi explicada, no pré-primário, em aula sobre trânsito, a função daquele zebrado nas ruas.
De repente, as plaquinhas coloridas perderam todo seu encanto para seqüência aparentemente desprovida de charme, tiras de tinta branca sobre o asfalto. Preto e branco. Contraste. Ordem. Segurança. Disciplina. Desde então exerciam poderes hipnóticos sobre ela.
Uma vez notada a disfunção por madame Cecília, sua mãe, deixou Eva de andar a pé pela cidade e, quando absolutamente necessário, nunca desacompanhada. A família, oriunda de longa estirpe da oligarquia cafeeira, podia dar-se a esses luxos.
Morreu naquele doze de outubro, paralizada em cima da faixa de pedestres, atropelada pelo táxi que andava em velocidade maior que determinava a prudência em rua tão mirrada e movimentada.
Em seu quarto, as obras completas de Cortázar. Um bilhete do metrô de Paris. Um retrato de Felipe I.

20070914

Coleta

coleta
Ouvia o noticiário enquanto reclamava da vida. As contas atrasadas. O carro quebrado de novo. O assalto da noite anterior resultara em surra porque ele não carregava dinheiro consigo. Ainda sentia dores por todo o corpo. E Leninha o deixara em definitivo. E chovia.
Estranhamente, não estava deprimido. Nem mesmo com os indícios de tendência mundial de volta da inflação. Não. Por algum motivo estranho tinha em si uma serenidade de condenado à morte.
Não lavou os pratos do café. Saiu e foi a pé até o metrô. Entrou na estação decidido a visitar, naquele mesmo dia, todas as estações de todas as três linhas da cidade. Teve o cuidado de deixar o celular em casa, desligado.
A cada estação, reconhecimento de campo, estudo de rostos; um papo rápido com um dos seguranças: nome, idade, coleção de histórias. A cada parada, um souvenir — algo tão ordinário que não pudesse representar nada por pura ausência de individualidade. O objeto mais comum, o mundano, o invisível. Um pedaço de qualquer coisa tão desprovido de significado a ponto de em si caber qualquer significado e todas as significações do mundo.
E tudo ele guardava no bolso, e catalogava angústia, saudade, enfado, desespero, sonho, descrença, rim, fígado, baço, piloro e quisto.
Todo o mundo nos bolsos levava, até jogar o mundo todo no lixo. E poder voltar a dormir.

20070913

Culpas

culpas
Assumir culpas que não eram suas era sua maneira burra de tentar salvar o mundo. O raciocínio, simplista, era que, uma vez a culpa sendo sua, poderia remediar situações, poderia resolver os problemas. Todos eles. E, o que era ainda melhor, sem depender de outrem.
Era seu segredo — como salvar o mundo. E, em sua visão distorcida, o mundo precisava ser salvo. Por ele. Pior: o mundo queria ser salvo.
Uma vez assumido tal fardo, imediatamente viu justificados seu mau-humor, sua intolerância, sua acidez, seu cansaço. E, milagrosamente, a culpa não era mais sua, era do peso que carregava: fardo, cruz, expiava o mundo dos pecados, salvava almas, beatífico, soberano.
Levou assim a vida por décadas, até que encontrou aquela que não lhe permitia assumir suas culpas. A primeira no curso de uma vida. E se perdeu, perdeu o controle e, uma vez mais, voltou a ser responsável pela própria felicidade. De ninguém mais.
Mas esse fardo era demais.

20070912

Aguardo

aguardo
My biggest fear
is if I let you go
you'll come and get me
in my sleep.

20070911

U.

U.
U. fingia não saber o que fazia. U. estava perdida e me achou perdido. Não acreditava no que eu lhe dizia e me achava teimoso, infernal. U. era mais nova, bem mais nova, e isso não fazia a menor diferença. U. era mais alta, bem mais alta, e nenhuma diferença isso fazia.
Havia alguma coisa em suas negações que nunca soaram convincentes, mas eu sempre precisei me convencer de que ela dizia o que sentia. Quando seus olhos e seu bico diziam o contrário.
U. me fez acreditar em coisas perigosas como amor, instinto, vida, bobice, felicidade. Periguenta, essa mulher.
Quando U. cedeu, a coisa toda se mostrou mais impossível e mais real que qualquer das "coisas" que eu já tivera. U. era intensa e eu respondia a cada faísca. Quase botamos fogo em alguns lugares, mesmo quando não nos tocávamos.
E encaixava. E era bom. E era só o que eu queria.
Amor infinito, U.
Como você conseguiu?

20070910

Trema

Trema
Palavras roubadas em corridas de táxi, salas de espera, embarque, pontos de ônibus, réclames no cinema. Entre-tempos, entre-lugares.
Palavras recolhidas em sarjetas, perdidas em cantos de muros em prédios abandonados, vãos de viadutos, embaixo de bancos, penduradas em fios de alta-tensão, amarradas com cadarços.
Verbos atravancando passagem, imóveis, pesados, sem que alma tenha coragem de lhes mover para o lado. Adjetivos emplastrados nas paredes da cidade, do lado de fora de presídios, atrás de igrejas, nos banheiros das escolas. Advérbios em filas de cartórios.

Ontem achei um nome na grama da ilha que divide a avenida. Era um nome gasto, puído nas pontas, meio esquecido e sem cor. Já havia perdido os acentos, mas guardava uma elegância nobliárquica por sob toda aquela poeira de esquecimento sedimentado.
Guardei o nome decidido a restaurar-lhe a forma, ao menos, memento de vida que não vi. Mas as feiras de antigüidades não foram de grande valia. Um trema aqui. Um circunflexo ali. Duas crases, uma delas quebrada, um til e nenhuma cedilha em semanas de perigrinação.
Restaurar palavras nunca fora tarefa tão árdua, embora sempre ingrata. Mas, o tempora, o mores, agora se provava imprática, impossível. Diacríticos só se encontravam em antiquários especializados, ou esquecidos em bancas dessas feirinhas de bric-a-brac de domingos. Entre a Rolleiflex mofada e o puxador de porcelana pintada, ligeiramente lascada. Alguns dígrafos tambem já são raros, "xc", "ps"…
Hoje, até mesmo Lotaro — nome ue herdou do avô e diz que não vende por quantia alguma — se espantou quando eu lhe pedi aquele circunflexo para "i". "Não vejo um desses há uns trinta anos, meu caro", informa. "Se vir, Lotaro, por favor, me avise. E ainda estou guardando o dinheiro para levar aquela ligatura 'fl' que o senhor me mostrou", confidencio.

O nome, o deixei passando entre o Dante e o Homero, achei que convinha. Achei que convinha: ao nome, às palavras, a nós dois, interlocução. Se não resolvia, foi a minha lógica, ao menos convinha.

20070909

Afastamento

Afastamento
Dias difíceis, dias arrastados. Você tem certeza de que nada que faz é novo, que não produz nada de original. No trabalho, na sua música, tudo são padrões usados, idéias de segunda mão, vida recondicionada. As pessoas se vestem do mesmo jeito, falam em jogral e repudiam diferenças.

Você, uma vez, quis ser igual. Mas sempre procurou se desafiar, ver se essas suas idéias e valores se sustentavam em situações barabaramente diferentes. Você, verdade seja dita, nunca acreditou em CNTP.

Por esses dias tristes e pesados foi que você se deu conta de que chegou aqui andando, e que veio sozinho. Percebeu — e ficou mais triste um pouco —, que ninguém gosta de ser questionado. Poucos, pouquíssimos, admitem a possibilidade de estar errados. Ninguém gosta. Ninguém entretém dúvidas. É mais fácil repetir comportamentos. Mais simples é seguir o condicionamento. Omissão, para essa turba, é aceitável. Desejável.

É durante esses dias cansados e entre esses dias de desespero, que você se decepciona mais um pouco e assiste a amores recauchutados, presta asistência a atitudes requentadas. E é obrigado a pagar por vidas de prateleira. Vidas que têm todas o mesmo sabor de caldo Knorr.

Até a dor é preferível a isso.

Por isso é que você sonha com Pequena, gengibre, entrega, sinceridade.

Saudade.

E dor.

20070908

Simone

Simone
Simone fazia figura de um senhorzinho aposentado, embora demonstrasse certa altivez que parecia fruto de treinamento militar ou de estadia em seminário.

O Major chegava sempre às sete e quinze. Todos os dias, há vinte e dois anos, seis meses e quatorze dias. Chegava e sentava-se sempre à mesma mesa, e batia uma foto do mesmo ângulo, com a mesma câmera e a mesma marca de filme. Oito mil, duzentas e trinta e três fotos com a de hoje. Oito mil, duzentos e trinta e três pães na chapa, com uma pitada de orégano — oito mil, duzentas e trinta e três pitadas. E um número equivalente de pingados.

Tirando os quatro dias, em vinte e dois anos, em que havia alguém sentado em seu lugar, às sete e quinze. Nas quatro vezes, ele bateu sua foto e foi sentar-se ao balcão. E ficou mal-humorado. O resto do dia.

Não fazia ali mais que o desjejum, registrar o começo de mais um dia naquela esquina e ouvir o que tinha a lhe contar o caixa da padaria, o terceiro desde que criou sua rotina matinal. O tempo marcado nas pessoas, o tempo marcado em suas fotos, em álbuns de cem folhas e oito fotos por folha. Mais de dez álbuns.

O Major Simone tinhe de explicar, a cada novo dono da padaria, que Simone é nome de homem, na Itália. Simone é Simão. E que não, não era italiano de nascença. E que sim, já havia estado na Itália, por dois dias, estacionado no porto de Gênova. Sim, tivera três filhas, uma delas já morta; em acidente. Três netos, também. Mais, o Major não contava. Na verdade, quase não falava, e sequer precisava pedir o pão na chapa e o pingado pois, nas vezes em que mudara o proprietário, permanecia o chapeiro. E vice-versa.

Hoje em dia, quase todos os que o cumprimentavam não o conheciam de fato. Cumprimentariam o extintor, se achassem que deviam. E por ser tão parte da padaria quanto o Major.

Simone acabava o café sempre depois de já ter comido o pão. Colocava o dinheiro com a gorjeta em cima da mesa e saía. Deixava de existir assim que tocava a calçada.
Oito mil, duzentas e trinta e três vezes.

20070907

Bolhas de sabão

bolhas
Deve ser leve. Leve de não levar consigo coisa chata, coisa choro, coisa que arraste, que não tenha aerodinâmica. Deve ser leve de poder ir aonde bem a levarem os ventos e ir até onde puder ir, sem se preocupar com a volta, leve. Leve de não se saber leve. Leve de não saber de mais nada.

Deve ser grande, enorme, impossivelmente gigantesca, por menor que seja. Deve ser grande de caber todas as vontades, todo o desejo, toda a invencionice e todas as coisas maiores que a gente. Deve ser do tamanho certo, tamanho de dizer ahs e ohs e de espantar as gentes que passam e sorriem com coisa tão despropositada. Pequenamédiagrande. Descomunal.

Deve ser breve, ter a duração de uma vida, da própria vida, que é a duração certa de qualquer vida: a lifetime. Deve durar enquanto durarem as cores, enquanto for divertido e fizer movimentos esquisitos e desconcertantes e deve durar o suficiente para que a gente se alegre tanto e possa pegar carona na próxima. Juntos, de preferência.

Deve ser colorida, sutilmente colorida, daquele jeito de olhar de perto e ver todas as cores brincando e brincar de inventar cores que aparecem e se misturam e desaparecem e nos embasbacam. Cores quânticas e infinitas. Deve ser transparente, sempre, deixar ver através e deixar ver e não ficar escondendo um do outro. Mas deve mostrar o outro com uma pitada de humor e uma pitada de mistério e cores. Muitas cores.

Deve divertir. Deve flutuar. Deve subir e descer e entortar e ser perfeita por um instante. E se contorcer toda no instante seguinte e voltar a subir e fazer sorrir. Deve dar vontade de ir junto. Deve dar vontade de voar. Deve nos fazer voar. Deve dar vontade de morder e de beijar e deve fazer cócegas variadas.

Podia ser você.


Pop!

20070906

Testando

testando
A mim também me parece cacete essa história de ficar esperando. E é claro que a gente se convence de que é por um bom motivo. E é, não é?

Não é?

You look like rain, sabe, eu não me canso de dizer. Sabe como é? "Eu daria um braço." "Eu apostaria minha vida." Difícil dizer. Impossível esquecer. Eu saí para comprar chavões, reparou? Você quis importar alguns, né? E é você que sempre me lembra que eles só são chavões porque são bons. E eu, opinadinho, argumento que eles foram bons. Até se tornarem chavões.

Impossível desdizer.

E ainda tenho de te conquistar.

Mas eu dizia que cansa esperar e por isso a gente inventa passa-tempos ou passam-tempos ou passam-tempo; como esse, de testar plurais e testar paciências e testar limites e testar coraçõezinhos abarrotados de querências. Brincar de teste com a vida que, veja você, é mesmo apenas isso de testar e testar mais até que chegue o fim, que deve ser muito mais sem-graça que esse coração na boca e essas bocas perdidas, bocas malditas, boca que eu sonho. Boca. Passando saúde.

I'm just a test tube baby.

E ainda bem que você se diverte.

20070905

Fim do primeiro ato

It never entered my mind
Ela ouviu todas aquelas coisas e enterrou esperanças e toda a agressividade embaixo de uma cara que não escondia lá muita coisa, mas ao menos era a cara que ela tinha naquele momento e ela não pode ser acusada de ser feia, ou até pode, mas isso não é culpa dela. E feia ela não é.

Ninguém disse que seria assim, mas ninguém te disse (honestidade agora, que não dá para ser diferente por causa de duas cervejas), que seria de algum outro jeito. E mesmo sabendo disso, você não esperava que assim fosse. Ao menos você queria ter tido tempo de se defender, sei lá do quê, mas se defender. Perder assim, sem saber direito as regras, foi ingenuidade sua, no final das contas.

E o que é mesmo que eu queria? Queria algumas coisas, nada muito absurdo, nada muito impossível. Mas é a história da minha vida: achar que o mundo é injusto.

Ele prometeu que não ia mais sofrer. Prometeu para si mesmo, que não ia mais se deixar enganar, que não ia mais entrar nessa de amor, que não queria mais saber de ser o certinho e de fazer as coisas direito porque, se seu pai lhe ensinou alguma coisa foi que ser certinho o tempo todo não traz vantagens a ninguém; logo ele, o vecchio que era probo e impossivelmente justo.

Ela perdeu a vontade de brigar e deixou que as coisas acontecessem. Resolveu seguir as frases de efeito do filme que a ex tanto gostava: "let the chips fall where they may." "This is your life, good to the last drop." "You have to give up." "This is your life, and it's ending one minute at a time."

Você perdeu a compostura sabendo que ia se arrepender depois. Disse o que queria, ouviu o que não estava preparado para ouvir, mas foi até o fundo e saiu querendo sumir. E sabendo que, de onde estava, não havia muita escolha a não ser respirar. Mas tinha de respirar…

Eu chorei. E não consegui dormir. E fui trabalhar no dia seguinte, que era o que me restava, e deixei de pensar. E deixei de achar. E deixei.

Ele se matou.

No fundo, nós todos buscávamos uma coisa só. Mas sempre buscamos nos lugares errados, ou do jeito errado. E isso nos irmanava de alguma forma bizarra e descabida. E nos consolava o fato de não estarmos sozinhos. Mas, fundamentalmente, sozinhos sempre estivemos.

20070904

It never entered my mind

It never entered my mind
Once I laughed when I heard you saying
That I'd be playing solitaire
Uneasy in my easy chair
It never entered my mind

And once you told me I was mistaken
That I'd awaken with the sun
And ordered orange juice for one
It never entered my mind
You had what I lack, myself
Now I even have to scratch my back myself

Once you warned me that if you scorned me
I'd say a lonely prayer again
And wish that you were there again
To get into my hair again
It never entered my mind

Once you warned me that if you scorned me
I'd say a lonely prayer again
And wish that you were there again
To get into my hair again
It never entered my mind

20070903

Pequena

Pequena
Pequena chegou dizendo que não chegou coisa nenhuma, que fui eu que fui lá, a cutucar quem estava quieta.
She's got a point.
Cheguei, então, tateante e sem muito alarde. Eu não tinha intenções. Só instinto. E comecei a falar. Acho que estava nervoso, porque eu falava. E era o que fazíamos: falávamos a não poder mais. Dir-se-ia que estávamos carentes de interlocução. Pequena era ótima interlocutora. Ainda é.
Pequena me conquistou com base puramente intelectual.
Quando nos vimos novamente, quase sem lembrar direito do focinho um do outro, a coisa foi mais perigosa que desconfiávamos. Pequena tinha um jeito e tinha um cheiro e tinha um olhar que me desmontava tão perfeitamente que era quase fácil colocar os pedacinhos no lugar. Se eu quisesse voltar a ser eu mesmo, voltar a ser igual. Mas não era assim. Brincar de remontar testando combinações diferentes era, de novo, brincadeira divertida, e lá ia eu, tentar colocar coração e rins e tesão e sorriso em lugares que faziam de mim um picasso, um mondrian, um lego.
Desnecessário dizer: Pequena ainda me desmonta.
E quando finalmente estivemos juntos, nada poderia nos preparar para o que aconteceu.
Hm, tá bem, melhor falar só por mim. Mas fiquei impressionado. Ainda fico. Pequena foi quem me disse que só tesão não dá tanto tesão. E eu lhe disse que só amor não dá tanto amor. Sim, Pequena é bem melhor que eu, dá pra notar?
Daí para eu me perder não precisou muito.
Hoje não tenho muito o que dizer que não soe brega, que não pareça romance, que não se assemelhe a filme pornô. Não vejo a hora de ver Pequena. E me perder de novo em conversas, cheiro, olhares, perguntas, toques, riscos, apostas, tesão, intensidade, entrega quase absoluta de Pequena, que tem o mundo e fez questão de me levar um pouquinho enquanto encanta esse mesmo mundo.
Sabes o que tenho aqui, não, Pequena? Uma promessa. Duas: te conquistar. Te fazer feliz.
Dorme bem.

20070902

Far

Far
Você me deve um porre.
Eu lhe devo bolhas de sabão.
A gente se deve uma chance de descansar e não se procupar por horas.
Você me deve um beliscão toda vez que eu parar de respirar.
Eu devo te conquistar.
E a gente já se sabe, quando você quiser.

20070901

Despedida

Despedida
Aqui no quinto andar do prédio de tijolinhos, sacadinha e fotos no varal, a coisa anda bem. A coisa anda daquele jeito safado que é o único que me cabe nesses dias de esquecer, dias de ser outro sempre, sempre que acordo e vejo que é outro o dia. Olha que até tenho feito progressos. Thanks for asking.

Você até me escreveu uma ou duas vezes. Mas agora começo a achar que escreveu quando estava bêbada e nem lembra o que fez… E sempre fará sentido, você não é do tipo que faz alguma coisa que te incomoda por nada.

Dias de penico, dias de colo, dias de papo. Eu já quis, uma vez, todos os seus dias. Depois quis distância de todos eles com a mesma força. Hoje não quero nada. Escrever esse texto já é bastante estranho. Mas sempre gostei de estranhezas, lembra? Peça penico, moça. Peça colo. No máximo, não vou poder te dar. No mínimo a gente adia o café. Mas duas ou três palavras você sempre vai ter.

Nem todo mundo funciona sob pressão. Aliás, pouca gente consegue. I thrive in chaos. Mas não suporto me enganar e, por isso, saí daquela vida. O que você precisa sempre é sacar onde pega, onde dá para se mexer. Lembre-se sempre que Ando onde há espaço. Meu tempo é quando.

Essa coisa de não deixar marcas ou feridas é ilusão. Uma mulher como você, um cara como eu… A gente sempre deixa. Marcas. E feridas. E se fere. E se acaba. E levanta. E vai se meter em outra, porque gente igual a nós é que faz essa porcaria de mundo valer a pena. O resto ta aí de coadjuvante. De platéia. Ou de vendedor de ingresso. Vendedor de gabardine, sabe?

Se você acha que está faltando tudo isso, é porque não falta o essencial: o inconformismo. Eu vi tanto em você que me apaixonei, lembra? Então dê-me um pouquinho de crédito e acredite que você tem tudo isso que vi. E pode ter mais. E com certeza tem mais — tudo aquilo.

E não sou uma fortaleza, um soldado, larga a mão de confete que não pedi coisa alguma. Sou um doido que não se furta nada: o salto, a tentativa, o erro. Que só é um pouquinho mais velho e teve mais tempo de errar, levantar, e tentar de novo. E erro de novo. Aprendi a dar abrigo. Ou colo. Ou um pedala. Porque você sabe que, se você estiver errada, eu vou dizer. E por isso sou confiável.

Não há budas aqui, lembra?

Continue se reinventando. Continue arriscando. Continue crescendo. Continue sendo essa coisa doida cheia de manias e personalidade e dúvidas e questionamentos e trejeitos e curvinhas e simpatia e perguntas incômodas e furinhos nas costas e beijo delicioso que eu conheci. Não pare, moça, que você pode ir aonde quiser.

Tá lindo o céu lá fora, agora que resolveu fazer frio e choveu um pouquinho e você tem todo esse escuro para acertar. Para escolher onde ir, agora.

Basta não parar.