
Palavras roubadas em corridas de táxi, salas de espera, embarque, pontos de ônibus,
réclames no cinema. Entre-tempos, entre-lugares.
Palavras recolhidas em sarjetas, perdidas em cantos de muros em prédios abandonados, vãos de viadutos, embaixo de bancos, penduradas em fios de alta-tensão, amarradas com cadarços.
Verbos atravancando passagem, imóveis, pesados, sem que alma tenha coragem de lhes mover para o lado. Adjetivos emplastrados nas paredes da cidade, do lado de fora de presídios, atrás de igrejas, nos banheiros das escolas. Advérbios em filas de cartórios.
Ontem achei um nome na grama da ilha que divide a avenida. Era um nome gasto, puído nas pontas, meio esquecido e sem cor. Já havia perdido os acentos, mas guardava uma elegância nobliárquica por sob toda aquela poeira de esquecimento sedimentado.
Guardei o nome decidido a restaurar-lhe a forma, ao menos, memento de vida que não vi. Mas as feiras de antigüidades não foram de grande valia. Um trema aqui. Um circunflexo ali. Duas crases, uma delas quebrada, um til e nenhuma cedilha em semanas de perigrinação.
Restaurar palavras nunca fora tarefa tão árdua, embora sempre ingrata. Mas,
o tempora, o mores, agora se provava imprática, impossível. Diacríticos só se encontravam em antiquários especializados, ou esquecidos em bancas dessas feirinhas de
bric-a-brac de domingos. Entre a Rolleiflex mofada e o puxador de porcelana pintada, ligeiramente lascada. Alguns dígrafos tambem já são raros, "xc", "ps"…
Hoje, até mesmo Lotaro — nome ue herdou do avô e diz que não vende por quantia alguma — se espantou quando eu lhe pedi aquele circunflexo para "i". "Não vejo um desses há uns trinta anos, meu caro", informa. "Se vir, Lotaro, por favor, me avise. E ainda estou guardando o dinheiro para levar aquela ligatura 'fl' que o senhor me mostrou", confidencio.
O nome, o deixei passando entre o Dante e o Homero, achei que convinha. Achei que convinha: ao nome, às palavras, a nós dois, interlocução. Se não resolvia, foi a minha lógica, ao menos convinha.