Contexto: Em 1994 a Escola Panamericana de Arte de São Paulo organizou o I EPA Super-Hero Comic Con, uma tentativa de trazer, com alguma freqüência, nomes importantes dos quadrinhos munidais para o Brasil, substituindo a finada Bienal Internacional que acontecia no Rio de Janeiro. Sérgio Miranda conseguiu uma "quase exclusiva" com o antipático artista.
 

Personagem de Black Kiss pegando no batente.

sergio: Como foi infância?
chaykin: Sou um filho dos anos 50. Cresci vendo televisão, lendo quadrinhos…
sergio: Pergunto isso porque você tem um estilo de desenhar cinematográfico.
chaykin: Cresci assistindo aos musicais. Fred Astaire, MGM, Warner… Filmes policiais. Sou um dândi. Isso vem do meu interesse por esse estilo de filme. Eu era muito cético e gordo quando criança.
sergio: O que aconteceu pra você mudar?
chaykin: Eu perdi peso, lá pelos 17 anos, e descobri as mulheres.
sergio: Quantos quilos você perdeu?
chaykin: 265 pounds. [Aproximadamente 130 quilos]
sergio: Que tipo de coisa você gostava de ler?
chaykin: Muita ficção científica, muita literatura fantástica. Lia quadrinhos obsessivamente.
sergio: Você os colecionava?
chaykin: Claro. Colecionava DC [Detective Comics, editora hoje pertencente ao Grupo AOL-Time Warner], quadrinhos da golden age, dos anos 40 e 50, Batman. Me tornei fã da Marvel no começo dos anos 60.
sergio: Nos anos 60 você leu quadrinhos estilo pop art?
chaykin: Não. Eu achava a pop art uma merda.
sergio: Mas hoje…
chaykin: Sim, hoje eu acho que a pop art era muito irônica. Mas não se pensa assim aos 14 anos. Olhando para trás, hoje, eu vejo as coisas assim. Mas eu não podia articular tudo isso naquela época; eu só intuía.
Hoje, quando penso em Liechtenstein, acho que ele via tudo, o trabalho de homens e mulheres, como pop art. E abusava. Conheço muitas pessoas que ele usou como modelos para suas pinturas, e elas não gostaram daquilo.
sergio: Você realmente não gosta do estilo.
chaykin: Eu entendo, porque o que faço tem algo disso.
sergio: Qual é o seu problema com a pop art, então?
chaykin: Eu acho absurdo usar o trabalho de uma pessoa viva como pop art, como referência pra pop art. Eu tive uma educação comum. Eu cresci lendo Batman, Superman, The Flash, Green Lantern… Só muito depois eu descobri Bruce Smith. Mas essa é só minha opinião.
sergio: Você disse que, quando fez American Flagg, achava que seus leitores eram mais inteligentes do que realmente são. Agora você está fazendo Power and Glory. Você acha que isso vai acontecer de novo?
chaykin: Sim. Já estou prevenido. Já aconteceu…
sergio: E como você se sente em relação a isso?
chaykin: Isso me machuca. O problema é: tenho duas opções. Ou eu faço o que gosto e espero que as pessoas entendam, ou eu desisto. E eu prefiro não desistir. Pra mim, desistir significaria que tudo o que fiz até hoje foi em vão.
Eu ainda acho que há uma parte do público que gosta de ler, gosta de coisas bem escritas. Que não precisa de milhares de poses, da mesma merda de sempre. Há muitas outras pessoas que poderiam fazer essa merda. Eu não sou uma delas. O que eu faço é diferente. Eu faço a minha própria merda. [risos]
sergio: Agora vamos falar de algo que, segundo você disse ontem, não te agrada muito: quadrinhos.
chaykin: Não sou louco por eles. Acho que os quadrinhos não são feitos do modo como deveriam, e reconheço que seus padrões são diferentes do que os que uso em meu trabalho. Não se produz quadrinho pro público que gosta de ler, mas pro que gosta de colecionar e especular. É um esquema parecido com o dos trading cards: uma coisa produzida para ser hobby. Eu penso nos quadrinhos como em filmes, em TV — eles estão no mesmo nível pra mim. Acho que os quadrinhos da Image são feitos pra um público que esqueceu da parte principal de uma história: o argumento.
sergio: E o que você acha das convenções de quadrinhos?
chaykin: Estou em uma!
sergio: E o que estava esperando dela?
chaykin: Nada, eu vim de peito aberto, pronto para qualquer coisa. [risos]
sergio: Você está levando algum material brasileiro?
chaykin: Não posso. Estou muito atrasado. Vim trabalhando no avião, e vou voltar fazendo o mesmo.
sergio: Aqui em São Paulo também?
chaykin: Ainda não, mas provavelmente trabalharei no final de semana.
sergio: A cidade está te inspirando?
chaykin: Não tenho tempo pra inspiração. Simplesmente tenho que fazer.
sergio: Você nunca espera ficar inspirado?
chaykin: Não. Eu só trabalho. Tenho um prazo, tenho que entregar o serviço. E preciso de férias.
sergio: Você tem filhos?
chaykin: Não.
sergio: Quantos anos você tem?
chaykin: 43. Mas diga que tenho 36. [risos]
sergio: Como é seu relacionamento com o pessoal da Bravura?
chaykin: Não temos muito contato uns com os outros. Moro em L.A., eles moram em outras cidades. Trabalho em casa. Mando todo o material pelo correio [para a editora]. Tenho um editor que me supervisiona, e é isso.
sergio: Algum outro projeto depois de Power and Glory?
chaykin: Eles querem que eu continue nesse.
sergio: Então não vai ser só uma minissérie?
chaykin: Não. O único motivo pelo qual aceitei esse trabalho foi minha vontade de continuar com ele. Vai ser como uma continuação da idéia de American Flagg. Todos irão ter superpoderes por quinze minutos. [risos]
sergio: Como é seu dia? Qual seu esquema de trabalho?
chaykin: Acordo às 7 da manhã para meditar.
sergio: Meditar?!
chaykin: É, meditar. Vou pra minha mesa antes das 9. Quando tenho que entregar algo logo, tomo café da manhã por lá mesmo. Trabalho até a hora do almoço, dou uma parada, e depois trabalho até à noite.
sergio: Você não vai ao cinema, ao teatro?
chaykin: Sim, vou, mas não tanto. Acho que os filmes eram melhores há 20 anos. Quer dizer, há alguns bons, mas agora não consigo pensar em nenhum que tenha amado [recentemente].
sergio: Mas o seu estilo é muito cinematográfico.
chaykin: Sim, mas nós vivemos em um tempo em que se pode escolher aquilo a que você vai ser exposto. Fui muito influenciado pelos anos 60. Estou preso nos anos 90, mas sou um filho dos anos 50, 60.
sergio: Você adaptou The Flash há dois anos para a TV. Agora eles estão fazendo Lois e Clark. Te convidaram pra escrever?
chaykin: Não. Ninguém da Warner ligou.
sergio: O que você achou do seriado?
chaykin: Nunca o vi.
sergio: E o Batman Adventures, o desenho animado?
chaykin: Vi um episódio. É ok. O mais interessante são as vozes, que são muito boas. Mas é muito melhor que muitas das coisas que tenho visto. Certamente é melhor que o dos X-Men. Não passo muito tempo me preocupando com isso. A vida é curta. [risos] Não tenho tanto tempo livre assim, sou um cara ocupado. Vejo TV tarde da noite.
sergio: Na segunda nós conversamos sobre o aspecto divertido dos quadrinhos, lembra? Agora, há pessoas que não lêem quadrinhos só para se divertir, mas para encontrar respostas. Você não parece estar nessa.
chaykin: Bem, eu queria explicar que o conceito de "seriedade" não significa "grau de importância". O público americano tende a cair nessa, por confundir "seriedade" com "questões sérias". Não sei como isso funciona no Brasil, mas nos EUA as pessoas não se preocupam com as coisas.
Estou cheio de estrelas do rock falando sobre a ecologia. É muito fácil falar disso quando se mora com o luxo que eles têm. Eu tento escrever coisas engraçadas sobre questões muito sérias, porque não estou interressado em fazer um garoto de 7 anos pensar em termos maniqueístas.
A maioria dos quadrinhos americanos passa a idéia de que se pode exterminar o mal, de que o mal é algo visível, de que os heróis se comportam daquela maneira porque têm uma "missão". Isso me parece uma associação muito curiosa de idéias. Não creio que os heróis existem da maneira que são mostrados nas HQs. Não creio que andar por aí com roupas de baixo seja um bom exemplo. Não acredito que os vilões se considerem maus. Neste século, o maior vilão que tivemos foi Hitler. Se ele tivesse ganhado a guerra, seria um herói. A História é escrita pelos vencedores. Não acredito que ele era louco; acredito que ele era hipnotizante. Os quadrinhos ainda usam as mesmas velhas técnicas básicas de melodrama. O vilão é ruim, o herói o persegue. Os personagens têm algumas diferenças [entre si], mas são basicamente sempre os mesmos. Os mesmos arquétipos, ligeiramente modernizados. Não acredito neles desde que tenho 11 anos.
O que tento fazer é criar heróis e vilões que se comportem, ao menos sob o meu ponto de vista, de maneira mais realista. Que não sejam completamente altruístas. Porque eu não acredito que haja altruísmo. Uma das melhores coisas de trabalhar em Hollywood é poder lidar com caras que estão a um passo de serem criminosos, e que vêm me perguntar: "Você não pode fazer um herói mais altruísta?"
Não acredito que os heróis são pessoas desse tipo, predestinadas. Na vida real, se o Batman andasse por aí vestido daquele jeito dando porrada em todo mundo, você iria querer que a polícia o prendesse, porque teria medo de que ele o confundisse com um vilão. Além do mais, na realidade, Bruce Wayne é o Donald Trump.
Voltando aos arquétipos: o tipo de vilão que esses heróis ainda combatem é o mesmo de Daffin Dan, Little Nel, Broken Harry — criminosos do começo deste século. Os criminosos que eu vejo, agora, são políticos corruptos, policiais corruptos — e, no sistema econômico de hoje, um não pode ser eliminado sem o outro. Infelizmente, esse é o tipo de história que seria classificada como "adulta".
O quadrinho de super-herói é realmente um resultado da frustração que veio com a Depressão. [período de forte recessão que varreu os EUA a partir de 1929, com a quebra da Bolsa de NY] Se você pensa na questão, tudo o que você tem é um cara maluco que vem do céu para resolver seus problemas. Eu não acredito que isso exista no mundo real. Eu me sentiria mal se produzisse e promovesse esse tipo de história, seria totalmente desonesto. Por outro lado, eu me sinto muito ligado a esse tipo de universo. O resultado é que meus personagens — meus heróis, meus vilões — são pessoas que poderiam ser eu. Meus heróis são cinza, meus vilões também, assim como meus seres humanos. Meus vilões não possuem "desculpas" para justificar seu comportamento.
sergio: Eles simplesmente são o que são.
chaykin: Sim, como na vida. Eu olho para as pessoas que governam esse mundo, e tenho certeza que elas não se acham más. Elas não acham que explorar as classes trabalhadoras, destruir o meio-ambiente é ruim. Eu acho que é. Então, vou fazer histórias de heróis sob perspectivas completamente ridículas. Como em Power and Glory.
sergio: Ontem você disse que Midnight Man era originalmente uma história do Batman.
chaykin: Originalmente, seria.
sergio: Eu li os dois primeiro capítulos de Midnight Man e… Puxa, matar o Batman nas três primeiras páginas da história…! Os fãs não gostariam muito disso.
chaykin: Não mesmo.
sergio: Mas o conceito é interessante, porque…
chaykin: …O motivo não é vingança. É a própria culpa. Acredito ter uma responsabilidade de contribuir com a cidade em que moro, o país em que vivo, e com sua cultura. Faço um monte de coisas nesse sentido na minha vida cotidiana. Não por obrigação, mas porque escolhi assim. Dôo uma parte do que produzo para instituições de caridade, porque acho que é certo. Se você vive em uma sociedade, tem que contribuir com ela, mas criticamente. Por exemplo: eu não serviria o Exército.
sergio: Mesmo sabendo que isso é crime.
chaykin: Ainda assim. E isso, pra mim, é heróico.
sergio: É engraçada essa postura, porque aqui no Brasil a gente vê um monte de coisas erradas, gente dormindo nas ruas, e as pessoas simplesmente não se importam.
chaykin: Entenda-me: eu acredito na minha postura de trabalho. Não sou um cara completamente motivado pelo dinheiro. Nunca vou fazer dinheiro do mesmo jeito que alguém que desenha quadrinhos pra Image, porque eu não puxo o saco do público, não dou a eles o que eles pensam que é "certo".
Trabalhei na televisão, e todos nós sabemos que ela é um meio de comunicação baseado nisso, na "superioridade" da vontade do público. Se o público se achar superior à televisão…
sergio: Você trabalha na televisão?
chaykin: Sim, sou produtor executivo de alguns seriados de TV. Flash há alguns anos atrás e agora Viper
sergio: Você fez alguns trabalhos com outras pessoas — Twilight (com Jose Garcia Lopes); Batman: Legends of the Dark Knight (com Gil Kane). Quando você escreve e outras pessoas desenham, o quadrinho tem outro clima.
chaykin: Porque as outras pessoas não fazem o tipo de besteira que eu faria.
sergio: Quando você desenha e escreve, qualquer coisa pode acontecer.
chaykin: No terceiro número de Power & Glory tem um personagem que usa um tipo de camisinha para o corpo inteiro, porque ele tem um tremendo medo de pegar qualquer doença. Ele também usa um capacete. [risos]
sergio: Eu ouvi que você está desenhando outra história para o Batman.
chaykin: Sim, provavelmente. Nunca desenhei um bom Batman. O único Batman legal que fiz foi um pin up para o Batman Dark Knight Special (Batman Legends of Dark Knight número 50). Pensei nisso e resolvi fazer.
sergio: Você achou o que gosta de fazer.
chaykin: Sim, eu amo o que faço, amo a vida que tenho. Sou um homem muito feliz. Faço exercícios, dieta, parei de fumar. Andei me descuidando um pouco, mas agora quero perder uns 8 quilos, ficar forte de novo, para poder bater nos caras que vierem me encher o saco. [risos]
sergio: Primeiro eu vi seu trabalho em American Flagg, depois em The Shadow, Blackhawk, e depois um material mais antigo e fiquei pensando: "Ei, são todos o mesmo cara!"
chaykin: Sim, sou eu! São parecidos comigo [risos]. Na verdade, tenho um ator na minha cabeça, como num filme, e é ele quem faz esse papel.
sergio: Em Power & Glory, o cara loiro e bonitão é o "bobalhão", enquanto o cara parecido com o American Flagg é quem faz o trabalho sujo.
chaykin: Muito bem, você é bastante esperto.
sergio: Qual o seu signo?
chaykin: É libra. Mas eu não acredito nesta merda.
sergio: Você conehece algum artista brasileiro?
chaykin: Não, não conheço. Na verdade, conheci dois cartunistas gêmeos…
sergio: Paulo Caruso e Chico Caruso…
chaykin: Isso mesmo. E também o Ziraldo.