Contexto: No mesmo I EPA Super-Hero Comic Con, em 94, Sergio Miranda fez uma mini-entrevista com Will Eisner, criador do Spirit e inventor do termo Graphic Novel. eisner, após alguns coices, tentou ser gentil…
 

Não espere grandes manifestações de simpatia.

eisner: Vou dar respostas completas: sim e não. [risos]. Talvez. [risos]
sergio: Você já esteve em São Paulo.
eisner: É a quarta vez. Bem, uma vez eu fui pra Avaré, mas isso foi antes da invenção do avião. [risos] Fui a uma feira. Mas já estive no Brasil várias outras vezes.
sergio: Em "Big City" você dedicou uma página a São Paulo, retratando os roubos nos sinais, à noite. Você faria isso de novo, em 1994? Qual a sua impressão de São Paulo e do Brasil, agora?
eisner: Hoje São Paulo me parece muito mais divertida e calma. Muito mais civilizada. Naquele tempo eu tive um choque, porque eu já havia visto a cidade, não muitos anos antes, e [a comparação] foi muito triste.
O Brasil é um país que, por alguma razão misteriosa, eu amo. Provavelmente eu fui um "carioca" em alguma vida passada. [risos] Minha mulher diz: "Sabe, Will, eu acho que você é brasileiro, porque você se dá tão bem com as pessoas de lá."
No meu primeiro trabalho com o Spirit, em 1939, eu tive um assistente, chamado André LeBlanc, que era brasileiro. É uma relação que já vem de algum tempo. Aliás, uma curiosidade: o Spirit, nessa época, ainda antes da Segunda Guerra, era publicado, creio eu, n'O Globo. Um dia, recebi uma carta de um homem chamado Alfredo Machado [dono da editora Record]. Ele disse que estava traduzindo Spirit, e que hoje ele tem uma grande editora. Então, pra mim o Brasil sempre esteve no meu sangue.
sergio: E o que você acha dos quadrinhos brasileiros?
eisner: Eu não os leio muito, mas sou um grande apreciador do trabalho do Maurício [de Sousa]. Vi coisas muito boas de um artista que já está morto, o Jayme Cortez. Ele foi um grande amigo meu. Também amo o Ziraldo.
Não recebo muitos trabalhos de brasileiros agora. Vi alguns estúdios aqui, e os jovens estão desenhando cada vez melhor. No começo havia muita imitação do que se faz nos EUA (isso acontece no mundo inteiro). Até mesmo os americanos imitam os americanos. É o que acontece quando se está começando. Acredito que o Brasil está no limiar de uma nova era, de uma nova geração dos quadrinhos. Vocês estão no começo da sua era dourada para os quadrinhos. Não tenho pistas, é só uma intuição. Alguma vezes esta minha intuição acertou. Se eu estiver errado, mandem uma carta pra mim, daqui a vinte anos. Vou pedir desculpas. [risos]
sergio: Seu último trabalho foi Invisible People. O que você está fazendo agora?
eisner: Estou no meio de uma nova graphic novel das grandes. Mas eu acabei de interrompê-la para vir até aqui.
sergio: Oh, não! [risos]
eisner: Vocês estão me custando cinco dias de trabalho!
É uma história sobre a vizinhança de uma rua do Bronx, um bairro de Nova Iorque, sobre as vidas de duas pessoas que moraram lá.
sergio: Você está trabalhando com a Kitchen Sink?
eisner: Eles me pediram para publicar e eu aceitei. Provavelmente será com a Kitchen Sink. Bem, eu tenho vários editores ao redor do mundo. Tenho um agente na Dinamarca… Bem, hoje não tenho mais problemas. Tenho pelo menos seis obras editadas em cada país. Talvez menos no Brasil…
sergio: Seu último trabalho publicado aqui foi Quadrinhos e Arte Seqüencial.
eisner: Sim, o último pela Martins Fontes. Ouvi dizer que alguém quer publicar In the Heart of the Storm (última graphic novel publicada nos EUA). É um livro grande, difícil de publicar. São caros. Minhas histórias são mais difíceis de serem publicadas porque têm um público menor que os gibis dos X-Men ou do Justiceiro.
sergio: Mas os seus são melhores. [risos] E para uma audiência qualificada…
eisner: Pra mim, escrever uma história é como escrever uma carta para um amigo. Por exemplo, o Edifício, que me disseram que foi muito bem por aqui, teve uma boa venda. Eu geralmente escrevo sobre algo que me incomoda, me angustia. Algo que me deixa feliz, triste ou curioso.
sergio: No seu último trabalho dá pra sentir que as histórias são bem… Reais. Que elas poderiam acontecer.
eisner: E a maioria delas acontece. Eu gosto de me considerar um escritor honesto. Quer dizer, alguém que escreve sobre coisas que conhece. Não posso escrever sobre o espaço sideral. Bem, eu fiz uma história sobre o espaço…
sergio: É… [risos]
eisner: Mas… Era real! Era sobre… A ação se dava aqui [na Terra].
sergio: Não precisava de outros mundos e planetas, como nos gibis de heróis.
eisner: É isso aí. Não estou interessado em dois mutantes se degladiando, em super-heróis. Meus super-heróis parecem-se com pessoas normais, como vocês.