Entrevista
Independência
Punk por filosofia
Mais um Workaholic
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 | Da esquerda para a direita: Ian, Guy, Brendan e Joe |
Simples, direto, ríspido, até assim é Ian MacKaye. Só quando eu, Eduardo Abreu (do 100 Tribos) e Adelvan (do Escarro Napalm) fomos enfrentar o monstro é que vimos que ele não tinha 7 cabeças.
Obsessivo, gentil, atencioso Ian (bem como Guy, Brendan, Joe e Joey, o roadie multitarefa) foi se revelando aos poucos para quem, como eu, teve o privilégio de acompanhar a banda em BH e Sampa.
Os estereótipos começaram a cair durante esta entrevista, realizada no restaurante do hotel em que nós (fanzineiros convidados do BHRIF) e eles (maior atração do evento) estávamos hospedados.
Com vocês, o Fugazi como ele é.
gabriela: O maior problema da cena independente brasileira é que não há muitas gravadoras, rádios e publicações para apoiá-la. Considerando isso, que diferença você vê entre o fato de uma banda daqui e de uma banda americana assinarem com majors?
mackaye: Nos EUA não foi sempre assim. Isso é uma conseqüência. Entre 78 e 81, não havia muitas gravadoras. Mas é difícil fazer comparações. São países diferentes, culturas diferentes.
gabriela: Você tem uma "receita" para que se desenvolva, aqui, uma cena forte?
mackaye: O quê?
gabriela: Uma "fórmula"
mackaye: Vim para o Brasil porque convidaram. Não sou desbravador. Vocês não precisam de um americano para dizer como fazer as coisas.
gabriela: E como se desenvolveu a cena nos EUA?
mackaye: Havia muitas cenas [regionais] diferentes. O comecinho, pra mim, foi em 79, com o punk. Em cada cidade havia algumas bandas, o que ocasionava o aparecimento de uma gravadora. As cidades se comunicavam por meio de cartas, telefonemas, fanzines
E a coisa cresceu.
É como o seu fanzine. Como começou, como chegou até aqui? Não é tão simples. A minha versão favorita da história é: um dia, formamos uma banda. Agora estamos aqui.
gabriela: Você é uma das lendas do hardcore americano. Qual é a sua opinião sobre outros ícones dessa época: Jello Biafra, GG Allin?
mackaye: O que você quer saber deles?
gabriela: O que você acha deles.
mackaye: Alguns foram meus amigos. Nunca conheci GG Allin. E agora ele está morto, então
gabriela: Você não tem nenhuma opinião sobre ele?
mackaye: GG? [pausa. risos] Claro que sim. Não sei. Acho que todo mundo tem uma opinião sobre GG Allin. Não acho que a minha seja diferente. Ele me parecia uma pessoa infeliz com alguma coisa.
gabriela: E quanto a Jello Biafra? Vocês são amigos?
mackaye: Eu o conheço há alguns anos.
gabriela: Você gosta dos projetos solo dele? E das colaborações de estúdio, como o Lard?
mackaye: Não gosto de falar dos outros. Digamos, por exemplo, que você odiou esse pão, mas eu amei. O pão é bom ou ruim? O pão é o pão.
Jello é uma pessoa que lutou muito, que tem lá suas idéias, e que é um bom performer. A primeira vez que o vi foi em julho de 80, num show dos Dead Kennedys em São Francisco. Desde então temos sido amigos. Ele é legal.
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Carregando a bandeira indie
gabriela: Como foi aquela época pra você? Eu falei com Henry Rollins [veja Panacea 35] e ele disse que estava feliz agora porque, quando em turnê com o Black Flag, passava fome.
mackaye: Bem, não vou falar necessariamente sobre Henry, ok? A maioria das pessoas que assinam com majors têm desculpas. Uma das que mais ouço é que passavam fome e não tinham dinheiro. Mas estou numa independente e faço parte de uma banda punk. Não assinei com major. Não estou passando fome. Estou bem. Estou no Brasil.
Quando as pessoas dizem "foi tão difícil", o que elas querem dizer é: "Me sinto um pouco culpada por ter feito isso". Essa é a minha opinião. Não necessariamente sobre Henry.
O Black Flag estava na estrada o tempo inteiro. Trabalhavam muito, geravam bastante dinheiro, vendiam muitos discos. O que aconteceu com Henry não
Não foi o caso da música independente, mas sim do Black Flag, tê-lo deixado na mão. Ele não recebia a grana. Nunca recebeu royalties.
gabriela: Roubado por Greg [Ginn, guitarrista; dono da SST, gravadora da banda]?
mackaye: Sim, por Greg.
gabriela: Ele me disse.
mackaye: Não se pode culpar toda a cena com base nas ações de algumas pessoas ambiciosas e sem caráter. Não é justo! Henry devia dizer: "Eu estava no Black Flag, e as pessoas da minha gravadora não me pagavam. Agora tenho controle sobre meus negócios e estou sendo pago." É o que ele devia dizer.
gabriela: Ouvi a mesma coisa da baterista das Babes in Toyland, a Lori Barbero.
mackaye: Babes in Toyland? Elas nunca foram uma banda independente! Lançaram um álbum pela TwinTone, e logo depois assinaram com a Warner.
gabriela: Mas ela tem um selo indepedente, o Spanish Fly.
mackaye: Sim, tem. O fato é: se você é uma banda popular, que trabalha e toca muito, e se as pessoas gostam de você, pode conquistar algo em gravadoras independentes. Se não, é difícil. Em uma major, você pode não ser popular, mas ainda assim vão fazer dinheiro com você, porque eles vendem qualquer coisa. Essa é a especialidade das majors: pegar um pedaço de merda, dar uma polida, e fazer um disco.
gabriela: Fazer vídeos pra MTV
mackaye: Eu não odeio majors. Não odeio pessoas que assinam com elas. É apenas a realidade, o modo como as coisas são. Eu gostaria que as gravadoras independentes não tivessem sido tão ambiciosas nos úlltimos dez anos. Porque o que aconteceu essa é a minha opinião sobre o porquê da música independente haver falhado, de certo modo, nos EUA , o que aconteceu foi que havia bandas, em 85, na SST
Black Flag, Minutemen, Bad Brains, Meat Puppets, Hüsker Dü.
gabriela: Sonic Youth.
mackaye: Sonic Youth. Qualé? Era uma loucura. Aquelas bandas eram tão populares. E o fato de que não recebiam a grana da SST era ridículo. Se a SST as tivesse pago, não creio que teriam ido para majors. A coisa poderia crescer para algo enorme. Mas a SST não pagou. Então o Sonic Youth disse: "Foda-se! Nós vendemos 15 mil discos e não recebemos!" As próprias gravadoras falharam. Se tivessem sido responsáveis, as coisas estariam melhor
gabriela: Foi falta de organização?
mackaye: Não sei. Acho que, quando acontece um sucesso numa independente, as pessoas imediatamente pensam: "Nossa, é melhor começar a pensar como major!" Pra gente, da Dischord que vendeu, com um disco do Fugazi, In on the kill taker, 250 mil cópias , é diferente. Não assinamos contratos. Nossas bandas são nossos amigos. Com o Jawbox e o Shudder to Think que deixaram a Dischord por majors , foi assim: "Vão e boa sorte." Não brigamos. Esse é o relacionamento que eu tenho que ter, se vou fazer esse trabalho. Porque o mundo da música fede. É uma merda.
gabriela: A sua palavra é mais importante que uma assinatura?
mackaye: Claro. Acho que, se fiz um acordo com alguém e a coisa não deu certo, não tenho que ir pro tribunal por isso. Acabou. As gravadoras
Digamos: Babes in Toyland. Assinaram com a TwinTone, que era uma pequena distribuidora de Minneapolis.
gabriela: A mesma que lançou um dos álbuns do Soul Asylum.
mackaye: Exatamente. Elas assinam, e aí a Warner vem e diz: "Nós queremos contratar vocês." Aí a TwinTone diz: "Nós temos um contrato com elas." A Warner: "Quanto vocês querem pra liberá-las?" Aí a TwinTone ganha, talvez, 50 ou 75 mil dólares. É pra isso que existe contrato. Pras gravadoras fazerem dinheiro.
Quando a Atlantic [N. da E. Parte do grupo Time Warner] veio atrás do Jawbox, eu disse: "Não queremos dinheiro." Não queremos nosso nome em lugar nenhum do disco. [risos] Quando a banda sai, acabou. Eu disse a eles [o Jawbox]: "Garantam alguma vantagem pra vocês." E eles garantiram: ganharam um bom dinheiro a mais – já que a Atlantic não teve que dar dinheiro pra Dischord pelo Jawbox, a banda ficou com algum.
No final das contas, pra mim
Não quero ter nenhuma conexão, não quero ser parte da Atlantic, da Warner, da Capitol. Fodam-se eles! Simplesmente não estou interessado.
gabriela: Você não precisa delas.
mackaye: Não que eu não precise. Não é interessante [ser parte de uma major]. É chato. Às vezes eu penso: "Deus! Todos os meus amigos são milionários e famosos!" E eu sou este carinha que é fiel ao próprio mundo. Aí as pessoas pensam que uma banda como o Rage Against the Machine é que é radical. Como se pode ter rage against the machine [N. da E. Raiva da máquina, do "sistema"] quando se é parte dela [N. da E. O RATM é contratado da Sony]?
As pessoas têm que superar essa coisa da imagem, do dinheiro
Talvez não estejamos ganhando tanto, nem recebendo toda a atenção da imprensa, mas estamos vivendo uma experiência única. Nenhuma outra banda vende tanto quanto a gente fazendo as coisas como nós. Você quer saber quem é o empresário do Fugazi? Você está olhando pra ele. Nós agendamos os shows, nós empresariamos. Nós temos o controle. Essa é a porra da nossa banda! É uma experiência muito interessante, mas que a maioria das bandas não tem.
gabriela: Considerando sua discografia completa, o Fugazi já vendeu mais de 1 milhão de cópias. Sabemos que isso é resultado de um esforço enorme, mas
Como você se sente administrando tanto dinheiro?
mackaye: Isso não me afeta. Nós somos honestos. A Dischord é honesta. Pagamos todo mundo. Todo mundo que trabalha pra gente recebe um bom dinheiro.
gabriela: Quantos empregados vocês têm?
mackaye: A gravadora tem cinco funcionários, que ganham muito mais do que a maioria das pessoas que trabalham, por exemplo, em livrarias
gabriela:
Em punk jobs [N. da E. Quaisquer empregos relacionados ao sistema alternativo punk].
mackaye: Exatamente! Além disso, os empregados fazem o próprio horário e têm seguro-saúde – um grande problema nos EUA. São US$ 150 por mês de seguro-saúde. É uma loucura.
gabriela: Aqui também.
mackaye: Vocês também têm que pagar por isso? Que merda.
Com o sucesso do Fugazi, quem está em volta se dá bem. Quem trabalha pra gente ganha bem; nós fazemos um bom dinheiro. É loucura: pro meio em que vivemos, é bastante dinheiro, mas, em comparação com algumas pessoas que vivem em Washington
Não sou rico!
gabriela: Classe média.
mackaye: Isso. Não sou nada. O dinheiro que fazemos agora, que talvez pareça muito
Quanto tempo essa banda vai permanecer junta? Não é como alguém que tem uma carreira e trabalha 30 anos da sua vida fazendo um bom dinheiro por ano. Quem sabe? Talvez o próximo disco do Fugazi não venda nada. Nunca se sabe. Eu tento
Não penso sobre isso. Eu era feliz há dez anos atrás, com nenhum dinheiro; era feliz há cinco anos, com algum dinheiro, e agora é a mesma coisa. Não fez diferença pra mim.
Pra mim, é assim: "Ah, eu tenho algum dinheiro." Esse pão, por exemplo [N. da E. Ao longo desta entrevista, Ian tomou chá preto – uma de suas poucas manias – e comeu torradas]. Não o pedi. Ele apareceu. Ok, aqui está ele. É a mesma coisa com o dinheiro. As pessoas do Fugazi são muito conscientes do que fazem com o próprio dinheiro. Algumas entrevistadores dizem: "Queremos saber o que vocês estão fazendo com todo o dinheiro." "Vá se foder! Não é da sua conta!"
gabriela: Você não tem vergonha de fazer dinheiro honesto.
mackaye: É loucura. As pessoas nunca estão satisfeitas: se nós fazemos as coisas dessa maneira, elas perguntam o que estamos fazendo com o dinheiro. "Não é da sua conta!" Se eles confiam na gente, ótimo; se não, problema deles. Não damos a mínima.
O mundo tem 5 bilhões de pessoas. Não é necessário confiar no Fugazi. Não somos o governo, não somos a justiça. Nossas decisões não são nada, além de nossas decisões. Se as pessoas gostam e confiam em nós, se se sentem inspiradas pela gente, legal, porque é isso que eu tiro da música: inspiração. Vocês entendem?
gabriela: Claro.
mackaye: Se não gosto, não confio numa banda, não fico perguntando: "Oh, por que será que não gosto de vocês? Você pode me explicar?" Vá se foder! Há dezenas de outras bandas e pessoas legais no mundo. É uma questão de trabalhar construtiva ou destrutivamente. Se eu acho que uma coisa é boa, vou trabalhar por ela; se acho que é ruim, vou procurar uma boa. Não destruo, construo.
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