Entrevista
Independência
Punk por filosofia
Mais um Workaholic
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Independência
gabriela: Como a Dischord distribui seus discos?
mackaye: Nossos produtos são prensados na Europa.
gabriela: Na França?
mackaye: Na França e na Inglaterra. Onde estiver mais barato. Após a prensagem, são distribuídos de um porão em Londres até uma loja em Chicago, ou até o escritório da Dischord em Washington. Há distribuidores pros EUA; há outros para o resto do mundo. Mas não temos um representante no Brasil.
gabriela: Distribuidores indies?
mackaye: Sim. Nos EUA a coisa está meio estranha: por causa do sucesso e de razões escusas, muitos distribuidores foram comprados por majors. Elas fazem isso porque é bom negócio, mas também porque, quando lançam novas bandas, querem lhes dar credibilidade. Fazem isso colocando-as em suas gravadoras "independentes", distribuídas "independentemente".
gabriela: O Maximum Rock'n'roll [N. da E. O mais famoso zine punk dos EUA] fez uma matéria de capa sobre isso.
mackaye: Exato. Achamos que a Caroline, por exemplo que é da EMI , pode distribuir nossos discos, porque ela não tem exclusividade: compra da gente tanto quanto as lojas. Na verdade, nós distribuímos. E, se você não consegue comprar o CD pelo preço [N. da E. A Dischord põe um "preço máximo" no CD: US$ 8], tem sempre a opção de comprar direto. É mais barato.
gabriela: Fui comprar a compilação do Minor Threat em São Paulo, e quiseram me cobrar 26 reais.
mackaye: Quanto custa o CD nacional?
gabriela: 17, 18 reais em média.
mackaye: E o importado?
gabriela: De 20 a 30.
mackaye: Então nossos discos estão sendo importados pra cá.
gabriela: Sim.
mackaye: Se você comprasse a compilação da gente, pagaria US$ 11. Por correio, via aérea. É mais barato que o CD nacional! Mas é menos cômodo. Você tem que ir ao correio, esperar duas semanas. Eu queria ter mais catálogos
gabriela: Catálogos da Dischord, com endereço e preços?
mackaye: Isso.
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Negócios, negócios
gabriela: E quanto às camisetas? Você desencoraja o merchandising.
mackaye: Sim. E fazem pouco da gente.
gabriela: Naquela camiseta "this is not a Fugazi t-shirt".
mackaye: É tudo pirata. Essa camiseta, em particular
Eu escrevi pro cara e disse: "Pare com isso." Aí ele fez essa, que é engraçada.
gabriela: Ao menos tem senso de humor.
mackaye: É. Liguei e disse: "Já que você é tão criativo e vende camisetas só porque tem 'Fugazi' nelas, por que não dá o dinheiro a uma instituição de caridade aí de Boston?" Ele aceitou. O dinheiro delas fez algo de bom.
Se eu fosse garoto, nunca iria a uma loja comprar camiseta. Agora, se você for a um show de uma banda nova, e ela estiver vendendo camisetas que fez, compre. Se vier uma grande banda, com stands vendendo camisetas a US$ 25 (coisa normal nos EUA)
Que se foda! São roupas, não anúncios.
gabriela: E por que o Fugazi não faz sua camiseta?
mackaye: Porque nós somos uma banda! Não é interessante. Na verdade, Jeff, meu parceiro na Dischord, faz camisetas da gravadora. Mas pra mim isso é chato. Pense nas bandas de jazz dos anos 30, 40: já imaginou se todo mundo que fosse vê-las usasse sua camiseta? Por que é normal, pra gente, em 1994, um garoto pagar US$ 20 pra ver uma banda, US$ 25 pela camiseta, US$ 15 pelo poster?
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Ian MacKaye se apresentando no finado Aeroanta |
gabriela: O que você acha da briga entre o Pearl Jam e a Ticketmaster? [N. da E. A banda está na Justiça contra o monopólio de venda de ingressos de shows que a Ticketmaster tem nos EUA]
mackaye: O que eu penso disso?
gabriela: Sim, como vê a situação?
mackaye: Bem, nós já brigamos com a Ticketmaster. [risos] Vencemos a luta: damos shows por US$ 5.
O Pearl Jam está na mesma situação, só que em nível de estádios. Tenho amigos que ironizam: "Coitadinhos, lutando por um ingresso barato, de US$ 18
" Mas os Eagles estão fazendo turnê por US$ 100.
gabriela: E os Stones?
mackaye: US$ 50, 60. Talvez US$ 18 seja barato pra um show desses.
gabriela: O ingresso dos Eagles é mais que o salário-mínimo daqui.
mackaye: Loucura.
gabriela: E o que você acha dos códigos de barra nos CDs?
mackaye: O Maximum Rock'n'roll e outras pessoas são contra. O que eu penso: eles são adesivos, etiquetas, e deveriam ser tratados como tal. As pessoas não deveriam colocá-los em cima da arte da capa, porque aí ela vira só um produto. Mas se são adesivos pra colar, qual é o problema?
gabriela: Essas pessoas estão tentando "salvar" o hardcore.
mackaye: Em primeiro lugar: o hardcore não pode ser salvo. Em segundo: o punk ou o hardcore, seja qual for o nome que se queira dar viverá pra sempre, goste-se ou não. Sempre haverá pessoas trabalhando e criando em um nível "abaixo" de tudo.
gabriela: É a atitude "underground".
mackaye: A palavra underground se tornou uma marca. Mas o conceito sempre irá existir. A garotada sempre vai dizer: "Foda-se essa merda. Odeio Fugazi. Vou tocar diferente." E isso é ótimo.
gabriela: É assim que a música evolui.
mackaye: Exatamente.
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Strainght edge o c*!
gabriela: O hardcore é um estilo musical ou um modo de vida?
mackaye: Eu não sei o que é hardcore. Digamos que há uma série de portas e uma linha de tempo. Na primeira porta está escrito new wave; na segunda, punk; na terceira, hardcore; na quarta, alternativo, e depois, independente. São portas diferentes de tempos diferentes, mas que dão mais ou menos no mesmo lugar. Entro pela do punk. O hardcore é uma porta que veio depois. Sou um punk rocker. Mas talvez seja a mesma coisa. Não sei. Talvez vocês achem que punk é Sex Pistols. Mas pra mim é Patti Smith, Stooges, MC5
E também é Black Flag! Minor Threat era punk, não hardcore!
gabriela: E a violência? Skinheads etc.
mackaye: Não faz sentido. Em 81, quando começamos, havia tanta violência no punk
Sei do que estou falando, porque eu costumava brigar muito.
gabriela: Está melhor agora?
mackaye: Sim. Menos brigas.
gabriela: Diz-se que você criou o straight edge, um movimento muito ativo hoje em dia
mackaye: [interrompendo] O que é isso? O que eles fazem?
gabriela: Muitas bandas, zines
mackaye: Ok. [risos] Já respondi essa pergunta milhares de vezes, mas estou pronto. Você está?
gabriela: Sim.
mackaye: Em 1980, estava no Minor Threat. Escrevi uma canção chamada "Straight edge", sobre um garoto que não bebe álcool, não se droga, não fuma, e se sente pressionado por causa disso.
Sou esse garoto. Escrevi uma música sobre a minha vida? Descobri que havia muitas pessoas que concordavam comigo. Outras diziam: "Vá se foder, Adolf Hitler! Idiota!" Se você ler a letra, verá que não digo "não faça". As pessoas acharam que eu estava tentando criar um movimento. E eu: "Isto não é um movimento, é apenas uma canção." Não fez diferença. É 1994, e você está perguntando a mesma coisa.
gabriela: Talvez porque as pessoas continuem te vendo como um líder.
mackaye: Mas não posso fazer nada! O que aconteceu é que surgiram outras bandas que gostavam daquilo. A coisa se deturpou. Existem dados estranhos: muitos dos garotos que entraram no straight edge são de famílias fortemente católicas. É mais ou menos o que acontece também com o Shelter. [N. da E. Banda de hardcore ligada ao Hare Krishna]
gabriela: O crossover religião e hardcore não funciona?
mackaye: Pra eles, acho que funciona. Pessoalmente, não endosso nenhuma religião. Mas não tenho regras. Sou só um ser humano. Acredito que é natural o ser humano fazer coisas boas, e é por isso que fazemos benefits [shows para arrecadar fundos para alguma causa]. Não se tem que ter religião para ser consciente.
Tem gente que diz: "Por que o Fugazi faz as coisas assim? Deve ter motivação política ou religiosa." Não. Somos quem somos. O Fugazi sou eu, Guy, Brendan e Joe. Os quatro decidem. É nossa banda, gerando nosso dinheiro, sem nada por trás. Fazemos o que queremos.
gabriela: E o que você acha quando dizem que o straight edge é de direita, porque "combate" as mesmas coisas que o governo americano: drogas, álcool etc?
mackaye: Essa é a maior besteira que já ouvi na vida. Quem acredita nisso é burro, porque realmente acredita que o governo dos EUA é contra as drogas. Todo mundo sabe que ele é totalmente envolvido com o tráfico de cocaína, o crack etc, via CIA.
Acho que as drogas deveriam ser legalizadas. É absurdo que a maconha seja proibida. A idéia de que governos como o dos EUA estão gastando dinheiro para prender gente que fuma maconha me dá nojo. Mas também acho que fumar maconha é idiotice. É o que digo: ser você mesmo já é suficiente.
gabriela: Você já ficou doidão?
mackaye: Não. Nunca fumei maconha. Já fiquei bêbado, aos 12, 15 anos. Depois, nunca mais bebi.
gabriela: Nunca fumou cigarro?
mackaye: [enojado] Não, não. Gosto de ar. Tem mais a ver com o ato de respirar, sabe? [risos] Mas algumas das pessoas que amo fumam. Vamos colocar desse modo: odeio vícios, mas não odeio as pessoas que os têm. Não sou do tipo "fodam-se todos vocês, seus fumantes!" [risos]
As pessoas têm uma idéia errada de mim. Acham que sou um radical que "prega" coisas. Não! Sou uma pessoa normal, que tem algumas opiniões. Isso não as faz corretas. E tenho necessidade de falar. Só isso.
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