Entrevista
Independência
Punk por filosofia
Mais um Workaholic
|
Punk por filosofia
gabriela: O que te fez ser músico?
mackaye: Não sei. O que te fez querer ser o que você é? Aconteceu.
gabriela: Como, quando?
mackaye: Se você for atrás, foi aos 6 anos, tocando piano. Mas isso não teve a ver. Essa é minha história da "porta do punk": quando eu tinha 12 anos queria ter uma banda (aliás, queria tanto que comprava guitarras de brinquedo e fingia que tocava), mas não conseguia tocar guitarra. Tive duas aulas; não consegui.
Desisti pensando: "Música é Zeppelin, Stones, The Who. É só para deuses." Virei skatista. Eu, Henry [Rollins], Mark, todos os garotos de Washington de 13 anos. Cresci com Henry: aos 11 anos, ele era meu melhor amigo.
Estava na high school [N. da E. Equivalente ao segundo grau] quando o punk começou a surgir. Comecei a me envolver e pensei: "Puxa, isso eu posso fazer."
gabriela: O conceito do do-it-yourself.
mackaye: Exato. O punk criou um formato acessível pra todos. Em um momento, música era como cenas na TV: eu nunca seria parte daquilo. No outro, qualquer um podia fazer qualquer coisa.
Quando entrei nele, vi que não era só música: era político, sociológico, sexual. Tudo com o que eu sempre sonhara.
O underground era diferente, e isso era importante. Aos 16, o que eu queria? Arranjar uma namorada, casar, trepar, ter filhos, blablablá. Com o punk descobri que havia muito mais a se fazer. Claro que não é preciso ser punk pra descobrir isso. Pode ser por meio de literatura, jazz, teatro, cinema sempre haverá comunidades alternativas.
Foi como um presente. Por isso que me sinto na obrigação de continuar na comunidade. Muitas pessoas viram que podiam fazer dinheiro em cima daquilo, e usaram o meio para se vender. E toda vez que isso acontece, a comunidade enfraquece.
Quando as bandas assinam com majors é ótimo, se é isso que elas querem fazer, e se elas se lembram de onde vieram. Só não gosto de gente que diz: "Eu tinha que largar aquilo pra chegar aonde estou." Nessa eu não caio. Henry fala mal do punk, mas
Como chegou à major? Ele não seria "Henry Rollins" se não fosse pelo Black Flag.
|
De jornalistas e zines
mackaye: Desculpem-me se falo muito
[risos] É que, quando dou entrevistas, tenho a oportunidade de repensar. Já respondi à maioria das perguntas antes, mas não fico entediado. Só com as do straight edge. [risos] Não me chateio porque é uma chance de ver, aos 32 anos, como penso, no que mudei. Volto às raízes.
Mesmo com o straight edge: não é justo me recusar a responder. Foi por causa dessa música que estou aqui, agora. É uma ótima música, acho. Não me arrependo de nada do que fiz.
gabriela: O mais engraçado é que tem um monte de jornalista por aí perguntando: "Quem é o Ian?" Gente que nunca ouviu Fugazi nem Minor Threat, e faz pergunta idiota em entrevista coletiva.
mackaye: Exato. Jornalistas são assim.
gabriela: É muito estranho.
mackaye: Mas escrever sobre música é estranho, porque música
Não se explica em palavras. Já é um meio estranho. [risos] Mesmo o que vocês fazem é estranho. [risos] Se bem que vocês fazem zines: escrevem sobre o amor à música, não sobre a música.
gabriela: Participamos de um debate em que houve uma discussão sobre o que era zine. Argumentávamos a diferença era o espírito não uma capa colorida.
mackaye: Concordo. E isso não quer dizer que você tem que falar bem de tudo, porque, se você ama música, sempre vai achar que alguma banda é ruim. O posicionamento é diferente: um zine é sobre o que as pessoas sentem em relação à música; uma revista tem um monte de gente escrevendo de um ponto de vista do tipo "eu entendo de música". E a maioria dos jornalistas não entende de nada são só pessoas que foram contratadas para escrever sobre qualquer coisa.
gabriela: Uma curiosidade: você é direto e seguro quando fala. Como você consegue se manter tão 100% sobre as coisas? Parece que você nunca fica confuso!
mackaye: Sou um bom ator. [risos] Fico confuso muitas vezes. [longa pausa] Faço muitas coisas, e penso sobre elas. Tento simplificar. A vida é simples. Vejo as coisas assim: estamos aqui, agora. Ponto. Tudo o mais é distração nosso cabelo, o que comemos, ouvimos. Tento simplificar o modo como vivo. Se me perguntam sobre dinheiro, digo: "Um dia não tive, outro dia tive um pouco
"
Odeio ficar confuso. Tento simplificar, ser natural. É mais fácil. Não somos socialistas, religiosos, nada. Somos uma banda, só. Não quero confundir ninguém. A música é suficiente ela contém a própria razão.
|
   |
|