Entrevista
Independência
Punk por filosofia
Mais um Workaholic

Mais um workaholic

gabriela: Como é seu dia-a-dia?
mackaye: Trabalho o tempo inteiro na Dischord.
gabriela: E o que você faz nela?
mackaye: A Dischord é uma família [N. da E. Lá trabalham os irmãos de Ian, sua companheira, Cynthia, e amigos]. Minha tarefa é lidar com o que ninguém quer: grandes decisões. A maioria do planejamento da banda é meu.
 Vir ao Brasil, por exemplo, tomou umas três semanas inteiras de trabalho — passaportes etc. Os vistos saíram quatro horas antes do nosso avião! E quando estamos em casa, ensaiamos todo dia. Cinco dias por semana, três horas por dia. Somos loucos!
gabriela: Vocês já têm material novo?
mackaye: Algum. Está vindo devagar. Há duas razões para isso: a primeira é que estamos meio confusos sobre nossa música e o que queremos, como banda, agora; a segunda é que, de novo, estamos confusos com o que está acontecendo. É estranho que todas as bandas tenham assinado com majors.
gabriela: Que bandas, por exemplo?
mackaye: Diga uma!
gabriela: Superchunk!
mackaye: Eles não estão! [risos] ótimo! Mas falando em geral… Redd Kross…
gabriela: Jawbox, Henry Rollins…
mackaye: Henry Rollins! O Green Day já vendeu 1 milhão de cópias!
gabriela: Bad Religion…
mackaye: Assinou! Com a Atlantic!
 Aí vai uma fofoca pra vocês [risos]: o Offspring emplacou um puta hit nos EUA, não me lembro o nome. 700 mil cópias. Eles são da Epitaph, que ficou "uau!". Muito dinheiro. Então Mr. Brett, guitarrista do Bad Religion — e dono da Epitaph —, sai da banda. Pra ficar só com a gravadora. Muito dinheiro, muito trabalho.
gabriela: Ele saiu antes da banda assinar com a Atlantic?
mackaye: Depois! E quem está na banda agora? Brian Baker, ex-Minor Threat! That's rock'n'roll!

E que se fodam vocês

gabriela: E sua primeira vinda ao Brasil? Te criticaram, porque você estaria "com a namorada" [Jennifer, do L7] em um festival patrocinado por uma marca de cigarro.
mackaye: Não sabia disso. Quem disse?
gabriela: Os jornais.
mackaye: Os jornais?! Primeiro, não vim com "namorada". Minhas amigas do L7 me convidaram pra vir ao Brasil. Aceitei. Não tinha idéia do que era o festival. Não fiz dinheiro. Se querem me criticar, foda-se! Não me importo. Eles não tem mais nada pra fazer? O L7 não sabia que era patrocinado por cigarros! Ninguém sabia, até chegar aqui.

Selo da Dischord, gravadora de MacKaye

gabriela: Você ficou puto?
mackaye: Não, quer dizer, eu era só um convidado. Tudo o que fiz foi afinar o baixo da Jennifer e carregar algum equipamento. Mas é interessante: se eu não tivesse vindo em 93, talvez não teríamos vindo agora. Pra mim, por um lado, foi ridículo estar naquilo — eu nunca tinha estado num evento daquele, foi uma experiência. Por outro, me fez vir ao Brasil — e querer voltar. Então, sei lá, fiquei feliz por ter podido vir.
 E aqueles que me criticaram, que não vão aos shows. Podem me odiar. [risos]
gabriela: Pergunta clássica: você conhece alguma banda brasileira?
mackaye: Poucas.
gabriela: O IHZ [N. da E. Banda hardcore de Santos] disse que te mandou um 7" e você respondeu.
mackaye: Sim, me lembro. Respondo todas as cartas. Leva uns cinco meses, mas respondo. Mas minha banda brasileira predileta é Mutantes. Adoro. Realmente adoro.
gabriela: Muitas pessoam gostam. Jello, Kurt Cobain…
mackaye: Acho até que foi Jello que me deu a fita deles. E quanto ao Kurt Cobain, acho que fui eu que dei a fita pra ele, naquele Hollywood Rock…