Contexto: Esta entrevista foi feita em 1994, na casa do Laerte, na Vila Madalena, numa tarde em que ele foi extremamente simpático e paciênte. Foi publicada originalmente na Panacea nº 36, de novembro de 1994. Na edição seguinte, publicamos uma carta do Laerte com uma "retratação" do mesmo por considerar algumas das colocações "injustas".
Integridade é outra coisa.
Entrevista
Na luta
O começo
Do outro lado da mesa
Colaborações
Fazendo o futuro
Temas delicados
Personagens
Considerações finais

Nosso herói, Laerte Coutinho

kazi: Você nasceu onde, Laerte?
laerte: São Paulo, 10 de junho de 51.
kazi: Achei que você era mais novo [Laerte ri], pela tua aparência, porque pelo seu trabalho eu sabia que você era mais velho do que aparentava.
laerte: Eu comecei a trabalhar meio tarde.
kazi: Você pegou o Pasquim, ainda.
laerte: Peguei. Começou o quê, 69, né?
kazi: Onde você começou a trabalhar, a publicar? Você começou a mexer com quê, cartum, ilustração…
laerte: Eu comecei a publicar lá em Comunicações. Tinha um órgão do Centro Acadêmico chamado Prensa.
kazi: Onde isso?
laerte: Em Comunicações na USP.
kazi: Lá na ECA.
laerte: Isso. Mas antes disso eu tinha uns zines também. Trabalhava num zine chamado Sibila.
kazi: Antes de entrar na ECA. Você fazia o quê, jornallismo?
laerte: Fiz música. Até o terceiro ano, aí eu saí pra trabalhar. Depois eu voltei pra ECA e fiz jornalismo até o terceiro ano, também não acabei.
kazi: E você não foi para a FAU, como é que você entrou na Balão?
laerte: É porque a Balão era um projeto de um pessoal da FAU e de um pessoal da ECA, além de gente que não era da Universidade. Mas ele ficou com fama de ser da FAU porque era impresso na FAU, tinha o [Luís] Gê, o Lord K (que chamava Kiko naquela época), os irmãos Caruso, era todo mundo da FAU, então a representação da ECA era minoria.
kazi: Mas a Sibila
laerte: A Sibila durou pouco tempo. Era um zine mais de literatura, de fotos. Eu fazia lá um personagem que era o Leão, que era um ser humano com cabeça de leão que contracenava com pessoas normais, numa cidade normal.
kazi: Com o qual você fez uma história na Piratas do Tietê.
laerte: É, eu citei as histórias…
kazi: Não, além disso…
laerte: É, eu fiz uma história… Mas aí já era diferente. Esse negócio de pegar personagem velho e usar não costuma dar muito certo [risos].
kazi: E numa outra você contava a história do Leão.
laerte: Eu digo isso porque esse cara é mais ou menos a base de onde vieram os Piratas do Tietê, essa combinação de um elemento de fantasia com transação de realidade.
kazi: Mas isso com que intenção?
laerte: Com que intenção, como?
kazi: Você usava esse elemento de fantasia para mostrar o absurdo da realidade, uma ferramenta de narrativa…
laerte: É uma tendência do jeito de contar história. Folha em branco e eu to pensando numa história pra fazer. Normalmente eu acabo pensando em situações que partem da realidade tal como a gente vê, né, uma realidade "realista", e me interessa que a história caminhe por um certo absurdo. Então essa mistura de elementos de fantasia é um dos jeitos de trabalhar essa linha.

Trabalhando com os "mestres"

kazi: O Pasquim aconteceu como, você foi atrás?
laerte: Bom, eu era um desenhista novo e ficava mandando coisas pro Pasquim… Às vezes saía, às vezes não.
kazi: Você recebia alguma coisa?
laerte: Recebia. Tinha um pagamentozinho, era pequeno. Teve uma época que eu tive uma seção mesmo, uma transação de esporte.
kazi: Com cartum?
laerte: Com cartum. Nessa época eu trabalhava na Placar.
kazi: Que ano?
laerte: 74, 75, uma coisa assim.
kazi: O Pasquim acabou que ano?
laerte: Acabar, acabar mesmo, acho que foi naquela época da eleição pra governador, quando o Brizola foi eleito, quando o pessoal meio que se dividiu, o Ziraldo com o Miro Teixeira, o Jaguar com o Brizola, mas o Pasquim já tava numa boa decadência, acho que ele não alcançou os anos 80.
kazi: Você chegou a pegar a época áurea do Pasquim na época em que você mandava as ilustrações?
laerte: Não… Acho que não, já era a decadência. Já numa linha de descida.
kazi: Mas ainda era um nome forte.
laerte: Ainda era um jornal forte.
kazi: Foi um ponto de base para se lançar no mercado.
laerte: É. Acho que o ponto forte do Pasquim foi na época da linha-dura, mesmo. Quando entra o Geisel, a "grande vitória do PMDB"…
kazi: Do MDB.
laerte: É, do MDB. Então essa mudança qualitativa na política brasileira corresponde (não sei se é causa ou se é efeito) a um período de decadência do Pasquim. Eles já tinham sido presos, já tinham sofrido todo o tipo de repressão. Então parece que o humor do Pasquim não conseguiuu encontrar um canal adequado para um Brasil que estava ficando diferente, o Brasil do Geisel, do Figueiredo. Poderia se dar bem, mas eu acho que por algum motivo não foi possível. A minha impressão é que o Pasquim ficou muito ranheta, ficou sério.
kazi: Resmungão.
laerte: Resmungão, oposicionista no sentido chato da palavra.
kazi: Num país mais aberto você acha que está mais para Casseta e Planeta?
laerte: É, Casseta e Planeta já é a abertura total. Já é um jornalismo, um humorismo de democracia.