Entrevista
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O começo
Do outro lado da mesa
Colaborações
Fazendo o futuro
Temas delicados
Personagens
Considerações finais
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 | Nosso herói, Laerte Coutinho |
kazi: Você nasceu onde, Laerte?
laerte: São Paulo, 10 de junho de 51.
kazi: Achei que você era mais novo [Laerte ri], pela tua aparência, porque pelo seu trabalho eu sabia que você era mais velho do que aparentava.
laerte: Eu comecei a trabalhar meio tarde.
kazi: Você pegou o Pasquim, ainda.
laerte: Peguei. Começou o quê, 69, né?
kazi: Onde você começou a trabalhar, a publicar? Você começou a mexer com quê, cartum, ilustração
laerte: Eu comecei a publicar lá em Comunicações. Tinha um órgão do Centro Acadêmico chamado Prensa.
kazi: Onde isso?
laerte: Em Comunicações na USP.
kazi: Lá na ECA.
laerte: Isso. Mas antes disso eu tinha uns zines também. Trabalhava num zine chamado Sibila.
kazi: Antes de entrar na ECA. Você fazia o quê, jornallismo?
laerte: Fiz música. Até o terceiro ano, aí eu saí pra trabalhar. Depois eu voltei pra ECA e fiz jornalismo até o terceiro ano, também não acabei.
kazi: E você não foi para a FAU, como é que você entrou na Balão?
laerte: É porque a Balão era um projeto de um pessoal da FAU e de um pessoal da ECA, além de gente que não era da Universidade. Mas ele ficou com fama de ser da FAU porque era impresso na FAU, tinha o [Luís] Gê, o Lord K (que chamava Kiko naquela época), os irmãos Caruso, era todo mundo da FAU, então a representação da ECA era minoria.
kazi: Mas a Sibila
laerte: A Sibila durou pouco tempo. Era um zine mais de literatura, de fotos. Eu fazia lá um personagem que era o Leão, que era um ser humano com cabeça de leão que contracenava com pessoas normais, numa cidade normal.
kazi: Com o qual você fez uma história na Piratas do Tietê.
laerte: É, eu citei as histórias
kazi: Não, além disso
laerte: É, eu fiz uma história
Mas aí já era diferente. Esse negócio de pegar personagem velho e usar não costuma dar muito certo [risos].
kazi: E numa outra você contava a história do Leão.
laerte: Eu digo isso porque esse cara é mais ou menos a base de onde vieram os Piratas do Tietê, essa combinação de um elemento de fantasia com transação de realidade.
kazi: Mas isso com que intenção?
laerte: Com que intenção, como?
kazi: Você usava esse elemento de fantasia para mostrar o absurdo da realidade, uma ferramenta de narrativa
laerte: É uma tendência do jeito de contar história. Folha em branco e eu to pensando numa história pra fazer. Normalmente eu acabo pensando em situações que partem da realidade tal como a gente vê, né, uma realidade "realista", e me interessa que a história caminhe por um certo absurdo. Então essa mistura de elementos de fantasia é um dos jeitos de trabalhar essa linha.
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Trabalhando com os "mestres"
kazi: O Pasquim aconteceu como, você foi atrás?
laerte: Bom, eu era um desenhista novo e ficava mandando coisas pro Pasquim
Às vezes saía, às vezes não.
kazi: Você recebia alguma coisa?
laerte: Recebia. Tinha um pagamentozinho, era pequeno. Teve uma época que eu tive uma seção mesmo, uma transação de esporte.
kazi: Com cartum?
laerte: Com cartum. Nessa época eu trabalhava na Placar.
kazi: Que ano?
laerte: 74, 75, uma coisa assim.
kazi: O Pasquim acabou que ano?
laerte: Acabar, acabar mesmo, acho que foi naquela época da eleição pra governador, quando o Brizola foi eleito, quando o pessoal meio que se dividiu, o Ziraldo com o Miro Teixeira, o Jaguar com o Brizola, mas o Pasquim já tava numa boa decadência, acho que ele não alcançou os anos 80.
kazi: Você chegou a pegar a época áurea do Pasquim na época em que você mandava as ilustrações?
laerte: Não
Acho que não, já era a decadência. Já numa linha de descida.
kazi: Mas ainda era um nome forte.
laerte: Ainda era um jornal forte.
kazi: Foi um ponto de base para se lançar no mercado.
laerte: É. Acho que o ponto forte do Pasquim foi na época da linha-dura, mesmo. Quando entra o Geisel, a "grande vitória do PMDB"
kazi: Do MDB.
laerte: É, do MDB. Então essa mudança qualitativa na política brasileira corresponde (não sei se é causa ou se é efeito) a um período de decadência do Pasquim. Eles já tinham sido presos, já tinham sofrido todo o tipo de repressão. Então parece que o humor do Pasquim não conseguiuu encontrar um canal adequado para um Brasil que estava ficando diferente, o Brasil do Geisel, do Figueiredo. Poderia se dar bem, mas eu acho que por algum motivo não foi possível. A minha impressão é que o Pasquim ficou muito ranheta, ficou sério.
kazi: Resmungão.
laerte: Resmungão, oposicionista no sentido chato da palavra.
kazi: Num país mais aberto você acha que está mais para Casseta e Planeta?
laerte: É, Casseta e Planeta já é a abertura total. Já é um jornalismo, um humorismo de democracia.
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