Entrevista
Na luta
O começo
Do outro lado da mesa
Colaborações
Fazendo o futuro
Temas delicados
Personagens
Considerações finais
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Na luta
kazi: Você trabalhou com sindicatos, com jornalismo sindical. Como é que foi teu envolvimento com sindicatos?
laerte: Isso foi um projeto que a gente tinha. Eu era comunista, nessa época, era do partidão. E a gente queria fazer uma transação com os sindicatos que levassem eles a desenvolver serviços de comunicação. Também era uma maneira de influir na política sindical era nossa linha política [risos].
kazi: Que época?
laerte: 73 começou. Depois, com as greves de 78 no ABC, desde 77, eu comecei a me envolver por outra ponta e aí a gente (do partidão) acabou se reunindo depois e fundamos uma empresa chamada Oboré, que era uma equipe para assessoria de imprensa para os sindicatos.
kazi: Mas assessoria de imprensa para fundar uma imprensa sindicalista.
laerte: É. Não que precisasse ser fundada, ela já existia há muitos anos, mas estava numa situação muito ruim.Tinha um camarada fazendo dez jornais, que era o Nunes, um cara de esquerda. E o resto era uma pelegada, gente ligada ao Ministério do Trabalho
Terrível. E a gente procurou fazer com que os sindicatos tivessem órgãos próprios, autóctones, que pudessem veicular as transações deles. Isso era uma maneira tembém de fazer os sindicatos pensarem no que eles tinham como política, grande parte dos sindicatos funcionavam como grandes dinossauros que não sabiam direito para onde estavam indo.
kazi: Essa sua geração sua, Angeli e Glauco, intermediou o humor do Pasquim, que seria [representada] por Jaguar, Millor, Ziraldo, Henfil, para geração que veio depois, que seria Gonsales, Maringoni, Negreiros
Mas nesse lado de envolvimento político, o herdeiro foi você. É no teu trabalho que se percebe mais esse lado de luta de classe
Por que isso parou? Você acha que a abertura política fez com que as pessoas deixassem de se preocupar com isso?
laerte: Por uma parte sim, mas por outro lado o métiér não favorece muito isso (ou isso não favorece muito o métiér). Eu era do partidão e hoje não sou de partido nenhum. Saí do partidão de um jeito atabalhoado, confuso, mas era o que eu deveria ter feito mesmo, talvez não devesse nem ter entrado.
Naquela época eu ficava todo mordido, por um lado magoado porque eu era o único que estava com transação política (fora o Henfil e o Maringoni), e por outro me sentindo meio herói: "Eu sou a ponta da consciência dos profissionais nessa área." Eu não sei, aquilo era uma coisa meio postiça em mi. Depois, com o tempo, eu fui percebendo porque eu tava no partidão.
kazi: Por quê?
laerte: Uma necessidade de ter que orientasse, quem dissesse o que era certo e o que era errado. Era um conforto de personalidade, eu precisava de uma diretriz.
kazi: Aí você cresceu
laerte: A idéia é crescer, estabelecer meus próprios critérios. Mas isso foi uma coisa muito recente, quando eu comecei a fazer história em quadrinho, na Chiclete com Banana.
kazi: Eu conversei com alguns desenhistas novos de sindicatos, e o pessoal tem uma certa raiva do Laerte por causa do livro que você publicou com cartuns e charges básicas, que é só pegar e colocar um texto adequado e usar no jornal. Como é que foi isso?
laerte: Na época que eu tava saindo da Oboré, pintou essa idéia até como maneira de eu sair. Era até um jeito de mostrar que o que eu tinha feito aqueles anos todos na Oboré era um trabalho repetitivo, e que poderia se eternizar. Então, vinhetas para convocar as pessoas para assembléias, eu fazia isso a metro. Quantos centímetros você quer? Você quer com negro? Com mulher? [risos] Tinha de tudo, e [eram] situações muito parecidas, que já eram objeto de "tesoura press", sabe, um sindicato chupava [essas ilustrações] dos jornais de outros sindicatos. Então eu reuni esses negócios, de uma espécie de unidade e propus esse trato, que aquilo poderia ser utilizado, livre de direito autoral, desde que fossem [utilizados por] órgãos ligados a entidades de bairro, entidades de classe e não por empresas ou partidos ou revistas comerciais.
kazi: Qual o nome do livro?
laerte: Acho que chama Ilustração Sindical. É uma publicação da Oboré.
Agora, esse pessoal de sindicato não tem muito motivo de ficar achando ruim, não, porque é um espaço que ele tem que ocupar e conquistar. O sujeito só recorta e bota aquilo ali quando não tem ilustrador por perto. Pelo contrário, isso aí pode até estimular
kazi: É uma concorrência meio desleal, com o teu traço já aperfeiçoado, para o pessoal que está tentando começar agora.
laerte: Imagina, cada coisa grotesca que tem ali.
kazi: Mas você não acha que isso deve ter deixado griladas as pessoas da imprensa sindical, quando você expõe que a coisa é repetitiva, dá para fazer carimbo. Não há evolução, então era um trabalho que estava esvaziado.
laerte: Pra mim estava esgotado sim, agora eu acho que pro meio sindical não. Não consigo aceitar esse tipo de crítica, não. Acho que aquilo pode ser um estímulo para o pessoal fazer uma coisa melhor, um troço mais antenado, e enquanto isso não acontece funciona como uma ajuda, de estimular a imprensa popular, que era a idéia desse Ilustração Sindical. Até dentro do livro tem um pequeno manual de como fazer um jornalzinho, de como fazer um panfleto.
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Quadrinhos
kazi: Quando você começou a fazer quadrinhos?
laerte: Olha, eu sempre curti muito.
kazi: Sempre leu muito quadrinho?
laerte: Sempre. Eu tenho umas coisas. [levanta-se e pega alguns desenhos] Assim, ó, sabe, coisas de adolescente: Sansão e Dalila, grandes cenas de batalha.
kazi: Era tua curtição.
laerte: Era minha curtição. Eu via filmes e ficava excitadíssimo pra de senhar aquilo. E via histórias em quadrinhos, Tarzan e tal.
kazi: Isso de que época é? Quantos anos
laerte: Deixa eu ver. Uns catorze, quinze.
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Pedaço de um história escrita e desenhada por Laerte aos 15 anos |
kazi: Você estudava desenho? Tem umas linhas de perspectiva
laerte: Ah, sim, isso daí eram aqueles livrinhos das Ediouro, eu ia muito atrás disso. Depois eu fim um curso da Escola Panamericana de Artes, por correspondência. Acho que foi o primeiro ano deles. Aí aprendi umas noções de proporção e tal e tudo. [pega mais desenhos]
Isso aqui já é pós-EPA.
kazi: Nenhum arte-finalizado.
laerte: Ah, é. Isso pra mim já era arte-finalizado. [risos]
kazi: Você já se preocupava com pesquisa.
laerte: É, eu gostava de histórias que estivessem bem embasadas, cheias de referências históricas.
kazi: Mas você fazia a pesquisa ou copiava?
laerte: Não, algumas vezes eu fazia, ia lá na enciclopédia ver quem era filho de quem e transportava.
Eu gostava muito de ilustrações realistas. Eu adorava o Norman Rockwell, por exemplo, é um dos meus favoritos. Eu tentava imitar e fazer
Aí quando eu tinha uns 16 anos eu entrei na FAAP, eles tinham um curso chamava Curso Livre de Desenho e Pintura para Adolescentes. Mais tarde eu fui descobrir que o Luís Gê também fez, na mesma época. Ele fazia de manhã e eu de tarde. Aí eu comecei a pegar um pique de artes plásticas.
Mas tinha também um grupo de teatro que era dirigido pelo Naum Alves de Souza, e esse curso de teatro tem muito a ver com a transação de fazer histórias em quadrinhos, e talvez com uma certa direção, também. O Naum sempre foi uma pessoa de personalidade muito forte, o trabalho dele também sempre foi muito típico e isso passava pro grupo tranqüilamente. Durante uma certa fase todos nós desenhávamos que nem o Naum, pensávamos
[risos] Pensávamos que pensávamos que nem o Naum. E isso aí gerou uma certa estética que de certa forma se prolongou no meu trabalho, no trabalho do grupo Pó de Minoga um grupo de teatro aqui em Pinheiros , ou no trabalho do Flávio Del Carlo, que trabalha na TV Cultura, então aquelas coisas todas da TV Cultura, aquela linha de imagem, de colorido, de construção, tudo tem a ver comum a herança do Naum. Programas como Ra-tim-bum, ou Glub Glub.
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