Entrevista
Na luta
O começo
Do outro lado da mesa
Colaborações
Fazendo o futuro
Temas delicados
Personagens
Considerações finais

O começo

kazi: E daí pra quadrinhos, você foi fazer só na Balão?
laerte: Só na Balão, é.
kazi: Que era um projeto não só da FAU, mas da USP.
laerte: É, começou na ECA, pra falar a verdade. Na verdade começou já como uma parceria: eu, Luís Gê, minha mulher na época, chamada Lúcia, tinha um cara chamado Fausto macedo e o Kiko. Tinha outros caras, também, um tal de Sininho. Mas teve uma época que tinha mais de vinte pessoas fazendo a Balão.
kazi: Quantos números teve?
laerte: Nove, sendo que o nono já foi uma tentativa de ir para banca.
kazi: Era vendido de mão em mão?
laerte: De mão em mão. Às vezes a gente deixa alguns em centros acadêmicos e o resto a gente vendia em fila de teatro…
kazi: E dava retorno financeiro?
laerte: Dava. Eu não sei estabelecer um par com os preços de hoje, mas eu lembro que era muito barato, as pessoas não lutavam muito pra pagar. E a gráfica da FAU dava um mês pra gente pagar. A gente pagava o custo da gráfica e fazia um cálculo que se vendesse tudo pagava a gráfica e a gente ficava com uma pequena caixa que era pra fazer o outro.
kazi: Da Balão você foi pra onde? O que você fez?
laerte: A Balão acabou por causa de uma crise interna, onde parte do pessoal queria ir para banca e parte queria continuar com ela na universidade. Acabou também porque parte do pessoal tava arrumando emprego na imprensa, quer dizer, um dos objetivos da Balão foi até alcançado, que era abrir espaço, firmar as pessoas. E ela não continuou dentro da universidade e nem foi pra banca.
kazi: O número nove, que foi para banca chegou a dar algum retorno?
laerte: Ele não chegou bem a ir pra banca, ele foi mais exposto em salões ou coisas assim. Mas eu não tava no grupo que tava indo pra banca, quem tava querendo ir pra banca era o Gê, os irmãos Caruso, acho que o Xalberto também.
kazi: E depois da Balão, para que veículo você foi? Era que ano, mais ou menos?
laerte: Acho que era 74, mas eu já tava trabalhando. Em 73 eu tava na Gazeta Mercantil. Eu trabalhei na revista Banas, também, que era uma revista de economia. Depois eu fui pra Placar, voltei pra Gazeta Mercantil (em 75) e fui contratado: fiquei dez anos lá.
kazi: De quadrinhos nessa época nada?
laerte: Nada, mais cartum mesmo.
kazi: Mas você continuava produzindo?
laerte: Não.
kazi: Você não produz se não tiver possibilidade de publicação?
laerte: É muito raro.
kazi: Mas por questão de tempo, de dinheiro?
laerte: Não, hoje em dia pra começar eu não tenho nem tempo pra isso. Tudo o que eu faço é para um dia ser publicado. Mesmo que não tenha uma coisa imediata. Por exemplo, eu tô fazendo uma história aqui com um amigo meu, o Benauro, que é um herói novo chamado Guimba. Essa história é um projeto mais ou menos grande. A idéia é fazer uns quatro ou cinco episódios de 15 páginas e aí vender a possibilidade da série pra alguém.
kazi: O roteiro?
laerte: É feito junto. O Benauro não é um profissional de quadrinhos, ele dá aula de história. Então a gente conversa, eu acabo fazendo uma proposta de roteiro e a gente troca uma idéia, vai melhorando, é uma parceria.
 Essa história, o primeiro episódio, não conta a origem, que é uma história engraçada, com o herói já em ação.
kazi: Já tem alguma negociação para publicação?
laerte: Não.
kazi: Interessante…

Crise e volta

kazi: E aí…
laerte: Mas aí, retomando a história, eu dirigi o trabalho pra essa linha de cartum, charge, que é um outro grafismo, até o material que eu uso pra desenhar é diferente. Eu usava bico de aço, mesmo.
kazi: E quando é que você voltou a publicar quadrinhos?
laerte: Pois é, aí eu entrei numa puta crise, com Gazeta Mercantil, Partido Comunista, com meu casamento, e me veio a vontade de fazer o que eu tava a fim mesmo, e eu tava a fim de fazer quadrinho. O Angeli já tava fazendo a Chiclete com Banana, e foi o que possibilitou. Aí o Toninho Mendes me fez uma proposta.
kazi: E a primeira delas foi?
laerte: Foi dos piratas.
kazi: A história da orca…
laerte: Da orca.
kazi: Que foi uma das coisas que eu não entendi por que na Piratas 12 não escolheram a história da orca, que é fundamental, é a sua volta aos quadrinhos.
laerte: É, mas é uma história muito descozida, um desenho precário…
kazi: Ainda assim, já que eram histórias republicadas, poderia se concentrara em publicar histórias que não estavam na Piratas.
laerte: Eu cheguei a pensar em refazer essa história aí.

Tira do Condomínio

Laerte e suas crias

laerte: Eu não sei, eu tenho muita dificuldade com personagens, quaisquer personagens.
kazi: Que tipo de dificuldades?
laerte: Eu me perco do personagem. Eu costumo transar um personagem numa história, quer dizer, a história é mais importante do que o personagem, e se eu preciso desse personagem uma outra vez eu me perco com ele.
kazi: Ainda assim o Capitão dos piratas parece ter uma personalidade bem delineada.
laerte: Não é bem personalidade, são mais características, negócio de animalismo e de anarquia e tal e tudo, mas é uma reação que é dividida por toda a tripulação igual, quer dizer, o Capitão é tão pirata quanto o último dos piratas.
kazi: Sim, mas na caracterização gráfica, os piratas variam, e variam muito. Há sempre um ou outro pirata que é desenhado em várias histórias…
laerte: É, com o tempo acabou tendo.
kazi: …Mas o Capitão "é os piratas".
laerte: Pois é, mas isso não é uma definição de personagem, isso é só uma concentração de características daquele grupo de personagens num pivô, que é o Capitão.
kazi: Para facilitar a forma de contar a história.
laerte: Aí, quando eu tenho que fazer uma outra história eu acabo incluíndo toda a turma dos piratas como um bloco. Isso pra mim resultou em histórias muito ruins.
kazi: Por exemplo?
laerte: Aquela do sindicato, eu acho fraca.
kazi: As tiras, nesse ponto, foram um pouco melhores que a história. Você começou a mexer com o sindicato nas tiras, com piadas mais curtas…
laerte: Curtas e grossas.
kazi: …Parece que você trabalhou melhor.
 Então você voltou a publicar na Chiclete. O Glauco já estava com a revista dele?

laerte: Tava, sim. Se não tava foi logo depois.
kazi: Que foi um outro canal pra você publicar.
laerte: É. Depois veio a Circo.