Entrevista
Na luta
O começo
Do outro lado da mesa
Colaborações
Fazendo o futuro
Temas delicados
Personagens
Considerações finais
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Do outro lado da mesa
kazi: E na Circo você teve participação não só em fazer HQs, mas na edição, também. Como é que foi essa experiência de editar quadrinhos?
laerte: Bom, eu fiz uma espécie de co-edição com o Luís Gê o Luís Gê era o editor
kazi: Tá, e o Toninho Mendes era o quê, o publisher?
laerte: É
Deveria ter sido. [risos] Mas o fato é que o Luís Gê viajou nessa época e a gente ficou sem ter como continuar a revista. Teríamos como, mas eu não sou um editor, eu sou um péssimo editor. [Laerte ri] Aliás, na Panacea saiu uma entrevista com o Mutarelli, e ele fala uma hora de um episódio
[a entrevista com Lourenço Mutarelli está nos números 30 e 31 do (então fanzine) Panacea]
kazi: É, isso eu ia te perguntar depois
laerte: Puta eu fiquei assim
Caiu minha cara no chão quando eu li aquilo porque é a pura verdade, ele tem toda a razão. Eu até já falei com ele.
kazi: Foi uma coisa que ele me disse, que vocês se encontraram na Bienal, e você foi bater um papo com ele.
laerte: Pois é, pedir desculpas pelo menos [Laerte ri]. Que, de fato, eu empatei a vida dele, quer dizer, ouvir aquilo contado por ele depois, é chato. [risos] Ver a mancada.
Pois é, mas a verdade é essa: eu não sou um editor.
kazi: O que você considera um bom editor?
laerte: Um editor é um camarada, por exemplo, que sabe pegar um material e falar: "Isso aqui, se mudar aqui, aqui ou ali, assim, é publicável, e me traga que eu publico." E aí o cara traz e ele publica. [risos] Ou é um cara que pode dizer: "Não, esta história não está bem resolvida, eu acho que você não tem jeito de resolvê-la bem. Parta para outra linha, ou mude de profissão, você não está se dando bem com quadrinhos." Ou que faça isso até de uma forma mais estúpida, assim: "Sinto muito, não é a linha da nossa revista." Mas que faça isso, que tenha critérios e aplique.
kazi: Mas isso é só o papel de seleção de material.
laerte: É, mas o editor também deve ser ativo na formulação dessa linha, que define os critérios de uma revista. Por exemplo, a Panacea tem uma linha editorial e tem editor atrás dela. A gente vendo a Panacea a gente vê que tem gente editando, não sei se são um dois ou três, se é em equipe ou se é uma pessoa, mas enfim, ela tem uma linha, é uma coisa clara. A Chiclete com Banana, para falar de uma revista que é quase um "one man show", que é do Angeli. Por mais que ele incorpore pessoas, tem sempre a cara do Angeli.
kazi: Quem editava a Piratas?
laerte: Eu. E é uma confusão. Minhas histórias eventualmente têm ligação, e ela tem uma cara porque todas as histórias são feitas por mim, mas minhas histórias também são muito variadas, então eu não acho que é uma revista bem editada, desde o começo ela teve mudanças e guinadas para várias direções, que eram todas direções que me interessava explorar. Mas isso não foi suficiente para dar a ela no decorrer dos seus 14, 15 números, não sei quantos, uma feição mesmo, uma personalidade de revista.
kazi: E a Circo, você considera que o Luís Gê era o editor da Circo e era um bom editor?
laerte: Era. Era um bom editor
kazi: Ele já tinha dado a "cara" pra Circo, e aí o que você tiveram que fazer foi continuar tocando? Como é que foi?
laerte: Quando o Luís Gê viajou faltou esse pulso pra fazer a revista, então eu e o Toninho nos reuníamos, pegávamos um monte de histórias e "Vamos fechar esse número com isso, isso e mais aquilo." Mas eram ossos sem cartilagem, eram músculos sem tendões, eram coisas cuja ligação era precária, e aí a revista foi caindo e deve ter se somado também à crise econômica. |
O sonho da revista própria
kazi: E depois da Circo veio a Piratas do Tietê. Mas antes teve a Circo Especial
laerte: Ela foi uma espécia de ensaio, eu acho.
kazi: Ensaio pra Piratas. E aí vocês tiveram uma boa reação de público.
laerte: Uma reação não boa, exatamente, mas razoável.
kazi: Que justificava a publicação da revista.
laerte: Justificava. Em princípio a idéia da revista era fazer uma coisa parecida com o Fradim, até, sabe, uma coisa mais ou menos ágil, mais ou menos barata e tal e tudo.
kazi: A escolha de duas cores na capa, o formato do Fradim, papel jornal no miolo, decisões editoriais pra tornar a revista acessível.
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Capa do primeiro número da revista Piratas do Tietê (com o formato horizontal que desagradava os donos de bancas) |
laerte: É. Daí eu comecei a querer fazer histórias elaboradas, não me limitar àquele traço rápido e caligráfico, então a revista começou a ter essas duas pontas.
kazi: Onde você queria chegar com a Piratas do Tietê?
laerte: A Circo já tinha dançado. O objetivo era lançar uma outra revista que pegasse uma fatia de público que não era nem de Geraldão nem de Chiclete.
kazi: E que fatia de público seria essa?
laerte: Era um pessoal que se ligasse em política
kazi: Mais adulto.
laerte: Mais adulto ou mais chato
[risos]
Na verdade um dos muitos erros dos quadrinhos brasileiros foi, pela segunda vez na história, aproveitar circunstâncias favoráveis de mercado pra projetos sem estrutura. Quer dizer, são os projetos de revistas de autor. Como o Luís Gê chamava, o "Sonho da revista própria" [risos]. Eu digo pela segunda vez porque o Jaime Cortez sempre contou que nos anos 50, quando pintou o McArthismo nos Estados Unidos, as revistas em quadrinhos pararam de ser publicadas e houve um vazio, e o Brasil já absorvia essas revistas, então criou-se um buracão que foi ocupado por gente daqui.
kazi: Colin, Shimamoto, Colonese
laerte: Agora, eram revistas sem estrutura nenhuma, a maior parte delas feitas por uma pessoa só, aí o sujeito fazia dois, três números e aí ele já tava esbagaçado e a qualidade das histórias lá embaixo também.
Numa análise grande, assim, foi o que aconteceu com a Piratas do Tietê. Um dos motivos de parar foi que eu não queria mais fazer histórias só porque tem que fechar, e aí eu tenho que fazer mais não sei quantas coisas pra completar o orçamento, quer dizer, tudo isso reflete uma ausência de estruturas que possam amparar um sujeito fazendo uma revista. Se eu estou fazendo sozinho uma revista, eu tenho que fazer apenas essa revista, eu não posso ter outra coisa. E eu não era pago pra isso, aquilo deveria estar me rendendo 4, 5 mil dólares e não estava, nem um terço disso. Então eu tinha que completar orçamento com outras coisas e aí eu nunca faço coisas só pra completar orçamento, eu acabo me interessando e aí drena a criatividade pra outra direção.
kazi: E a Striptiras?
laerte: Striptiras é outro erro de mercado. É uma edição das coisas que já saem em jornal. Mas isso não justifica uma revista, justifica uma seção dentro de uma revista.
kazi: Como era.
laerte: Então a Striptiras tá um fiasco de vendas e eu acho que tende a cair. Quanto mais as pessoas lêem uma tira, menos elas vão comprar uma revista onde só vêm aquelas tiras. Elas gostam muito de ler uma tira quando vem num jornal porque elas estão lendo o jornal inteiro, né
kazi: Mesmo porque esse negócio de tiras data muito, principalmente as tiras brasileiras fazem muito comentário em cima do momento
laerte: Sim e não. É, eu concordo, as tiras brasileiras são mais datadas.
kazi: Então você não está contente com o resultado da Striptiras, você acha que Striptiras é uma revista que não tem porque existir.
laerte: De fato não tem porque existir. Eu acho que justifica, por exemplo, você pegar as tiras de jornal e fazer
kazi:
Um livro anual.
laerte: Um livro anual. Mafalda, sabe, essa linha de coisas. Mas não uma revista mensal.
kazi: Outra coisa: por que todas essas revistas eram mensais, se não havia estrutura para a revista ser mensal, se os artistas não comportavam uma produção mensal?
laerte: Pois é, elas são mensais a partir de uma necessidade da editora. A editora bota uma revista na banca e só vai receber daí a 45 dias, então o que ela quer é uma revista mensal porque quando ela receber ela já está com outra circulando e aí ela tem entradas mensais e não bimestrais (ou quase).
kazi: Mas ela poderia alternar, com três revistas de autores diferentes
laerte: Poderia.
kazi: E aí você dá três meses pro cara produzir uma puta revista.
laerte: Exatamente. Aí então é outra entrevista, com o Toninho Mendes, para saber por que ele tinha Geraldão, Chiclete com Banana, Circo (ou Piratas do Tietê, porque não foram contemporâneas), Níquel Náusea e Casseta e Planeta e rachou a [Editora] Circo pra fundar outra que chamava Palhaço [Editorial] que era do irmão dele, não sei quê, quer dizer, é o delírio total. É jogar tudo pela janela, juntar, juntar, juntar e jogar tudo pela janela. Aí não há culhão que agüente, não há revista que agüente e não há mercado que agüente. Porque o leitor acaba se ressentindo disso também e passa a não comprar porque o mercado não tem condição de oferecer uma coisa mais regular pra ele.
kazi: Porque em teoria todas essas revistas eram mensais e na prática nenhuma delas era mensal.
laerte: Exatamente. |
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