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Colaborações

Laerte, em seu escritório, nos idos de 94

kazi: E Los Três Amigos, que veio depois, surgiu como? Tem uma história na Circo número 1, a "Vota Brasil", que você fez com o Glauco… Teria sido o precursor dos 3 Amigos?
laerte: É foi um deles. A gente trabalhava junto, a gente fazia uma seção pro Pasquim chamada "Rumores Paulistas", e a gente fazia muita coisa juntos, desde o Vira-lata a gente fazia coisa juntos. Eu, o Angeli e o Glauco, a gente fazia parceria eu e o Angeli, ou eu e o Glauco, ou o Glauco e o Angeli, sabe, e durante bastante tempo a gente fez isso, tanto é que os 3 Amigos vieram disso, vieram de uma iniciativa do Angeli de comemorar isso, e nessa época estava se comentando o filme e a gente ficou com essa idéia de se vestir de mexicanos. A idéia era de publicar uns trabalho que a gente já tinha feito, mas a idéia evoluiu para fazer uma história.
kazi: Isso começou a ser publicado na Chiclete, aí virou uma revista maior. E depois teve o livro da Ensaio.
laerte: Que agora vai sair o dois.
kazi: Mas com o material da Folha, os quadrões. Aliás, foi uma perda sensível na imprensa brasileira a Folha ter parado de publicar aqueles quadrões com Herriman, e Joost, e Matt Gröening.
laerte: É eu também acho, se bem que eu acho que aquele formato tava esquisito. A idéia deles era fazer uma página com quatro buracos, mas é uma idéia tirânica que obriga um Krazy Kat a se enquadrar naquelas colméias, eu acho que é um erro isso, você iguala coisas que não são iguais.
kazi: Mas ainda assim foi uma perda.
laerte: Era legal, sim, uma página inteira.
kazi: Los 3 Amigos pode dar mais frutos em termos de história longa?
laerte: Pode. Nós estamos fazendo, aliás, um livro que vai ser em formato magazine, com uma história inédita.
kazi: P & B?
laerte: Sim.
kazi: Porque vocês trabalharam duas cores na revista.
laerte: Fazer colorido num desenho que é uma mistura gráfica — se bem que o Glauco só desenha o boneco dele — é complicado pacas.
kazi: É um ponto no qual eu ia tocar: quando você lê graficamente, é uma história do Laerte com o Angeli colocando o personagem dele e o Glauco colocando o personagem dele. Você faz o cenário, você faz os outros personagens, geralmente é tudo traço teu. É assim que funciona o negócio?
laerte: Não era assim no começo, a gente tinha mais divisão. O Glauco sempre desenhou só o personagem dele, graficamente a participação dele é muito pouca, mas ele participava bastante na idéia, nas gracinhas…
kazi: A parceria é mais no roteiro.
laerte: O Angeli desenhava mais, no começo. Depois é que entrou numa rotina e aí eu desenhava tudo.
kazi: E muitas vezes a gente via nas tiras que só você estava desenhando, inclusive os personagens do Angeli e do Glauco.
laerte: Isso eu já fiz [risos].
kazi: E dividia a grana em três?
laerte: Sempre dividiu em três [risos]. Mas eles também desenharam sozinhos, umas duas ou três histórias que eu me lembro que eles fizeram sozinhos. Agora o mais mancão é o Glauco, sem dúvida.

Projetos

kazi: Teve a revista-pôster, que foi a primeira do Brasil. Foi aventado na imprensa que seria a primeira no mundo. A idéia foi de quem, da Circo?
laerte: Foi da Circo. Ele fez um número com o Matuk que eu acho que não chegou a sair, acho que só saiu a minha. Mas, por exemplo, aquele poster central tá super mal feito, porque eu fiz a arte, o cara não me falou qual era o tamanho. Aí eu fiz um pouco menor do que era, pra sair um pouco estouradinho. Aí não entrava na máquina pra fazer o fotolito. Então teve que fotografar já colorido, reduzir pra um cromo, e do cromo é que se fez o fotolito. É uma loucura, é uma imbecilidade. Isso tudo poderia ter sido feito com computador já naquela época, podia ter sido colorida por computador ia ficar um desbunde.
kazi: E aquela história que tinha, do tigre, foi republicada na quarta capa da Piratas

kazi: O contato com a Ensaio foi por causa de um amigo seu.
laerte: Era um amigo que tinha um editora voltada para sociologia e política e tavam com essa intenção de entrar em quadrinhos, livros infantis, e tal e tudo.
kazi: E como é que tá indo?
laerte: O Los 3 Amigos 1 acho que foi bem, chegou a tirar uma segunda edição. O Ken Parker eu não sei, nem o Piratas. Mas não sei porque livros têm tiragens muito pequenas e eu não sei bem o significado disso.
kazi: Mas o retorno finceiro de Los 3 Amigos foi satisfatório?
laerte: É pouca coisa. É interessante porque se trata de material reaproveitado, quer dizer, material pelo qual a gente já foi pago uma vez e que tá sendo pago outra vez. Mas eu não sei te dizer, e é uma grana que se dilui.
kazi: E você está acostumado com retorno de revista, que é mensal ou de jornais…
laerte: Ou TV Globo… [risos]
kazi: Você tem coisa publicada na revista da Cultura Inglesa, na Veja
laerte: Veja? Ah, é, eu fiz umas capinhas, mas é eventual. Na Cultura Inglesa tem um personagem até.
kazi: Mas a Veja paga bem.
laerte: Não.
kazi: Engraçado.
laerte: A Cultura Inglesa paga bem. [risos] Na Cultura tem um personagem, o Brian the Lion. Eu gosto de fazer personagem em inglês. Eu fazia um pra Speak Up, também, não era tão legal.
kazi: Você chegou a fazer uma história longa na revista da Cultura, sobre o descobrimento…
laerte: É, o Colombo.
kazi: E aí, como é que é, liberdade total?
laerte: Total.
kazi: Só tem que escrever em inglês…
laerte: Não, as histórias do Brian são mudas. A do Colombo sim, eu escrevi o texto em português e aí eles traduziram. Houve até um problema porque eles queriam tudo em inglês, e aí não foi tanto "liberdade total", eu fiquei meio grilado mas não foi o suficiente pra criar caso nem nada. Eles queriam o título em inglês "Columbus", e tinha uma estátua do Colombo no último quadrinho e eles queriam que a grafia fosse em inglês, com "ch" [Chirstovam], mas coisinhas.
 Eu tenho um projeto de um livro infantil mexendo com mitologia…

Vendendo a alma

kazi: E a TV Colosso, como é que é?
laerte: TV Colosso é fazer textos, uma coisa muito agradável, muito legal.
kazi: Você já havia trabalhado na TV Pirata.
laerte: É.
kazi: Isso veio da associação do pessoal da Casseta com a Circo? Como é que você foi parar lá?
laerte: É uma coisa de a gente se conhecer, também. O Cláudio Paiva que acabou sendo o redator final da TV Pirata — a gente se conhecia desde o tempo do Bicho —, então quando ele entrou nessa ele precisava de gente pra fazer roteiro e ele entrou em contato com um pessoal de São Paulo, e desde o começo o Glauco pegou e eu entrei só no segundo ano da TV Pirata.
kazi: E vocês tentaram passar alguns dos personagens, algumas das gags para a TV.
laerte: Algumas vezes sim, o Casal Neuras, a história da Lingerie.
kazi: E tinha o Fagundes, com o Guilherme Caran, que na minha opinião encarnou bem.
laerte: Eu achei bom, mas achei que o Diogo Vilella faria melhor, tem mais carinha, aquela coisa meio cínica, assim.
kazi: E a Globo paga bem…
laerte: Paga legal.
kazi: Mas o serviço é como?
laerte: Hoje tá assim: a gente escreve um programa inteiro por semana, sendo que uma parte já é feita à parte, que é a novela, e tem uma outra que é o Capashow.
kazi: Quem é que está trabalhando lá, de quadrinhista?
laerte: Eu, Gonsales, Newton Foot, Glauco, Gê. Acho que só.
kazi: Mas vocês fazem tudo ou tem personagens de uns? Você faz o que?
laerte: Ah, eu já fiz de tudo, já fui redator final também. O Provolone e Parmesão, eu curto especialmente fazer.
kazi: e, por incrível que pareça, não é você quem faz o Capachão.
laerte: Não. Nem fui eu que inventei.
kazi: Mas ele é o Fagundes. Por isso que é estranho.
laerte: Eu até gostaria de manter mais controle porque eu acho que às vezes o personagem do Capachão fica meio viado, que não é a coisa. [risos]
kazi: Que não é a do Fagundes.
laerte: Não, ele é submisso.
kazi: Ele é quase masoquista.
laerte: Não, mas o masoquista tem o prazer sexual da coisa, ele tem um prazer existencial…
kazi: Mas em certos pontos você quase toca o aspecto sexual.
laerte: Quase, é, pra fazer piada.
kazi: Tem uma charge que carrega nesse aspecto físico, que é a do puxa-o-matic, que tem um busto…
laerte: É, enfia a mão e "Ah!"
kazi: E pega no saco no sentido físico…
laerte: É, no saco mesmo. Depois que eu aprendi que a origem da palavra puxa-saco não tem a ver com o saco escroto; o saco em questão era um espécie de mala de viagem. O puxa-saco era um soldado que se dispunha a carregar a bagagem do oficial também.
kazi: Um "volun-otário".
laerte: [risos] É.