Entrevista
Na luta
O começo
Do outro lado da mesa
Colaborações
Fazendo o futuro
Temas delicados
Personagens
Considerações finais

Fazendo o futuro

kazi: E a Cachalote?
laerte: Bom, a Cachalote é uma coisa pra sair do marasmo, assim, sabe, pra não ficar parado. É uma coisa que envolve artes-plásticas também. A número um é que tá muito nas coxas pra ser levada em conta, é mais pra marcar um tiro de saída, mesmo essa história dos Palhaços Mudos não tá lá grandes coisas.
kazi: Eu tenho uma crítica quanto a isso, eu acho que os Palhaços Mudos deveriam ter ficado na primeira história.
laerte: Eu também acho.
kazi: Tava ótimo, foi uma puta história.
laerte: É, já a segunda não foi legal. E essa aí também, se não estragou também não acrescentou nada.
kazi: Uma coisa que eu achei que deveria ter sido mais explorada, uma dupla que eu acho que talvez desse caldo era o Flip e o Top.
laerte: Aquela turma toda de circo. Talvez. Eu tô fazendo uma transação pra Folhinha.
kazi: Mas nada de "Piratas Baby", não.
laerte: Não. Até passou pela cabeça, fazer garotos piratas, mas ambientado em pirataria mesmo, sem cruzar com cidade. Tinha um outra história que era um garoto, era um cavaleiro, ambientado na Idade Média. Mas tem uma outra linha que eu tô pensando que é uma história que eu sempre quis fazer, aventuras de colégio, aí tem a classe, os professores…
kazi: Você voltaria com a Dona Mercedes?
laerte: Não, não é tão maluco. Um pouco mais realista.
kazi: Cachalote não é um projeto só do Laerte?
laerte: Não, é uma revista de um grupo de pessoas. Tem eu, a Mírian e o Adão, eu falei com o Newton Foot e com a Priscila. Mas a idéia é essa, de funcionar como uma coisa livre — pra começar, de não pagar ninguém —, não tem idéia de profissionalizar.
 Às vezes eu penso numa boa revista que não seja a revista do Glauco, a revista do Angeli, mas que pudesse ser uma Eco da Savanas feita aqui, sabe, eu acho um absurdo pessoas como o Luís Gê estarem há anos sem publicar, sendo obrigados a sair correndo atrás e fazer texto pra TV Colosso. Eu acho ótimo fazer texto pra TV Colosso, mas isso não devia ser minha transação principal.

Cena do storyboard do desenho animado dos Piratas, até onde sei, nunca realizado

kazi: Deveria ser um complemento.
laerte: Um complemento, ou então porque você tá lá a fim de explorar uma linha. Eu estou fazendo uma peça de teatro com os piratas, por exemplo, isso é uma transação legal.
 Tinha uma idéia de fazer filme (animação), as acho que não rolou não, eu dei um roteiro pra um camarada, o Oto Guerra, o mesmo cara que fez o desenho do Adão. Isso em matéria de arquivo é uma beleza, tem Piratas, o filme, Piratas, a peça… [risos]
 É uma história bonita, acho que daria um desenho legal, mas acho que não rolou financiamento.
kazi: Uma vez eu pensei em fazer um galeão de madeira-balsa e te chamar para fazer uns piratas de durepox, sei lá, e botar o navio no Tietê, chamar a imprensa prum fuzuê…
laerte: Eu pensei em fazer uma transação com o Playcenter de fazer uma versão reduzida de um galeão pra entrar gente dentro, mas parece que o rio não tá tão despoluído.
kazi: É engraçado que as suas melhores histórias talvez tenham sido publicadas fora da Piratas.
laerte: Mas não é à toa.
kazi: A desobrigação de não ter que fechar uma revista…
laerte: Aí eu vou mais relaxado fazer a história e acaba saindo melhor.
kazi: "Lingerie", na Geraldão, "A terceira margem"…
laerte: Sai melhor, mesmo, não tenha dúvida.

Laerte diário

kazi: Você começou a se meter com tiras na época da Funarte, ainda, como é que foi a transição para a Pacatatu?
laerte: Foi uma passagem relativamente tranqüila, o Rick ligou pra gente e falou que eles estavam a fim de fazer a Pacatatu (que já estava funcionando antes do fim da Funarte). Porque a Funarte travava muito as coisas, as coisas paravam em qualquer gaveta, qualquer imbecil que quisesse parar aquilo parava. Então não se desenvolvia. Teve um começo muito quente mas parou.
kazi: É, eu me lembro do Estadão publicar metade das tiras nacionais, todas da Funarte.
laerte: E aí parou.
kazi: E agora voltou a ter Laerte, Gonsales, Glauco, Angeli e o Veríssimo.
laerte: E é só. Mas é um problema da Pacatatu, também. A gente não pode esquecer que a Pacatatu, embora seja uma entidade privada, é uma entidade brasileira [risos]. É o seguinte, meu, não tem jeito, o Rick é meu amigo, o Toninho é meu amigo mas, puta, ô povinho ruim pra funcionar que a gente é, sabe. Puta, é uma coisa enrolada, enroscada.
 Às vezes eu para e penso que o quadrinho [brasileiro] poderia estar sendo distribuído na América Latina, poderia estar sendo distribuído sabe deus onde, e que providências isso demandava? Algumas, mas não tantas que justificasse você ficar dois anos esperando acontecer. E não acontecer. Então, sei lá, acabar a Funarte foi ótimo, genial acabar a Funarte [risos]. Agora, o que precisa é a Pacatatu dar um embalo, é muito precária a Pacatatu.
kazi: A esperança que fica é que a Pacatatu é uma entidade privada, e as pessoas que estão lá em cima precisam ganhar dinheiro, e vão fazer alguma coisa.
laerte: E precisam, porra, o Rick e a Ana, que são a Pacatatu, eles não estão numa posição confortável nem um pouco, sabe, as contas ali batem em cima, quando batem. Os jornais têm uma atitude absolutamente desrespeitosa com os quadrinhos, talvez isso até seja uma decorrência do preço baixo, uma coisa que você paga pouco, você não respeita. Mas por outro lado é uma política que a Pacatatu tem há muito tempo e não tem condições de chegar agora e botar o preço lá em cima.
kazi: Mas pode-se trabalhar melhor a distribuição.
laerte: Talvez, né.

Bandas deseñadas

kazi: Você viajou muito pela América Latina?
laerte: Eu tive na Argentina, no Chile, em 77.
kazi: Por que a gente não conhece o quadrinho sul-americano?
laerte: Bom, porque o Brasil tem essa de ser diferente da América Latina.

kazi: De não ser sul-americano.
laerte: Não ser sul-americano em nada. a gente queria ser americano direto. [risos]
 Mas a distância que nós temos dos desenhistas argentinos, assim, eu acho um absurdo, uma coisa difícil de entender, vizinhos…
kazi: Com alguns dos melhores…
laerte: São grandes desenhistas, grandes ilustradores, e a gente só teve algum conhecimento dos argentinos na época do Opinião, Movimento, lembra, aquela imprensa de oposição? Agora, mais recentemente só teve aquela iniciativa do Paulo Caruso de juntar o pessoal e fazer uma exposição no Memorial [da América Latina, em São Paulo], brasileiros e argentinos, uma idéia excelente, mas a coisa meio que parou ali. O mercado latino americano que inclua o Brasil também, ainda não está funcionando para quadrinhos.
 E é tão fácil, puta!
 Eu estive na Colômbia…
kazi: No Taller de Humor.
laerte: É, e lá não tem quadrinhos, tem duas ou três pessoas que têm uma puta duma influência ou européia, ou argentina, e só. É um país bem precário nisso, eu acho que seria legal vender pros caras.
kazi: O único que já tentou fazer esse tipo de coisa, de levar e tentar vender, foi o Mauricio de Sousa.
laerte: Pois é.
kazi: Que teve um relativo sucesso.
laerte: Um dia acho que eu vou com um caminhão lá pro Chile e: "Vam'lá, qualé, que tal?" [risos] Pô, mas não valia a pena? Será que é tão difícil arranjar alguém que pague uma viajem pra alguém ir lá, algum vendedor, sabe, um cara bom…
kazi: Era uma da Pacatatu fazer isso.
laerte: Lógico, não só da Pacatatu, pegar uma edição da Piratas, fazer uma versão em espanhol e tentar vender isso na América Latina.
kazi: Porque na hora que você traduz para o espanhol você abre um mercado enorme, não é só para a América Latina.
laerte: Pois é, tem a Espanha, também.
kazi: E alguns outros lugares do mundo onde se fala espanhol.
laerte: Parte da população americana também. Existe um syndicate lá nos Estados Unidos que distribui para jornais de língua espanhola, e são centenas de jornais. Agora, o Rick esteve lá, fez contato com os caras, voltou… É, vamo fazer, tal.
kazi: Mas um trabalho como o seu, por exemplo, nos Estados Unidos, não vingaria. O trabalho brasileiro é muito mais aberto ao mexer com sexo, com drogas. A não ser no mercado alternativo.
laerte: Não sei, o Crumb não é americano? O cara ensinou isso pra gente.
kazi: Sim, mas há uma onda de fascismo, de conservadorismo atualmente por lá que tá acabando com isso.
laerte: Mas ainda existem canais alternativos. Love & Rockets vende pouco, mas vende.
kazi: Vende pouco pra padrões X-Men, mas pra padrão brasileiro vende muito.
laerte: Mazzuchelli…
kazi: Tem esse mercado, mas ele não é muito expressivo.
laerte: Os Estados Unidos é um país muito grande, então eu acho que há nichos pra isso. O que não pode é a gente se contentar com uma posição de colaborador na linha de super-heróis.
kazi: Que é o que está acontecendo. Mas é uma outra forma de ganhar dinheiro, tanto quanto escrever para a TV Colosso.
laerte: Sim, eu não estou achando errado que eles façam isso, acho legal eles estarem fazendo, eu acho é que não pode se contentar com isso, achar que isso é o mercado americano e basta. Mesmo porque o mercado americano que sustenta os X-Men e Homem-Aranha tem uma ligação muito profunda com todas as transgressões, embora a direção dominante seja conservadora e infantilóide, mas isso está ligado num organismo só, com todos os aspectos mais doentes da sociedade americana.