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Temas delicados
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Temas delicados

kazi: Racismo. De vez em quando você retoma esse tema. A primeira vez que isso causou algum impacto foi com "A insustentável leveza do ser", que teve carta que você respondeu. E, depois teve uma coisa com isso no "Condomínio".
laerte: Do Dom Luigi não gostar de preto e japonês e judeu. Aí muda um casal que é uma crioula com um japonês que é judeu, "Sharón!" [risos] Aquilo não deu carta.
kazi: O teu trabalho parece mais "engajado", mais de consciência, de mexer com as pessoas.
laerte: Já teve a minha fasezinha de comunista em que eu achava que as histórias e os cartuns serviam pra fazer a cabeça das pessoas, então a idéia era "fazer cabeças", dar lições, dar aulas. E é uma coisa meio chata de se ficar fazendo. O que eu passei a fazer depois foi tentar extrair das situações e dos temas, minha posição pessoal nisso. Não posição no sentido de idéias fixas, sólidas e "irremovíveis", mas como eu me sinto em relação àquilo. O negócio de crioulo, por exemplo, teve aquela história…
kazi: "Prelúdio para três negrões e karaokê".
laerte: Então, aquilo foi uma história que eu vivi, parecida. Eu tava na rua e para um corcel com três negrões dentro me perguntando onde era o karaokê, e eu levei um susto muito grande, fiquei assustado: de noite, numa rua escura, para um corcel com três crioulos dentro. Depois eu fui pensando, porra, que sacanagem, os caras só tão querendo ir num karaokê — vão lá, se divertir, comer umas nêgas, não sei que, coisas absolutamente normais, sabe…
kazi: Se fossem três branquelos você não ia nem…
laerte: Nem chiar, eu ia falar "É ali e tal".
kazi: E a parte de eles irem te agradecer?
laerte: Não, aí é a história, eu fiquei pensando os negrões lá dentro, pensando: "Pô, que sacanagem."
kazi: Você estava se punindo, nessa hora.
laerte: Eu tava continuando a curtir a coisa, porque essa é a minha transação com crioulos, crioulos têm um significado, mas que não é racismo, porque o racista faz disso uma idéia, elabora a partir disso uma teoria racista. Agora a existencia de raças e preconceitos e idéias preconcebidas em relação a raças eu acho que existe e é quase natural. É uma merda mas existe. E dá situações muito gozadas. Crioulo que é assustador, e vai assaltar. Chinês que entra em primeiro lugar na POLI. Judeu que tá há vinte anos no analista.

Piratarias finas

kazi: O teu trabalho é bastante autobiográfico, apesar de você ter sempre o elemento fantástico…
laerte: É porque a minha vida é muito chata, se eu ficar na autobiografia pura…
kazi: Mas você publicou Harvey Pekar, que era uma coisa que eu imagino que você lia e gostava, e a vida dele é chata, mas as histórias são bem-feitas.
laerte: É legal. Eu acho que comprar o gibi do Harvey Pekar todo mês e tal (eu nem sei qual é a periodicidade)…
kazi: É anual, o American Splendor, por isso que dá para comprar.
laerte: Ah, então dá. E é um troço legal que você tenha também um momento de ler o Harvey Pekar. Eu acho uma vantagem pro leitor poder transar uma outra linguagem, um sujeito que aborda o fato de estar narrando uma coisa em quadrinhos com uma outra perspectiva. E ele escreve bacana, eu gosto do texto dele, mesmo que ele fique nessa punheta, é uma curtição. E ele é um personagem engraçado, ele é um sujeito neurótico, pão-duro. Então chega uma hora que é como se você soubesse a quantas anda um amigo seu, né, aí tem uma história enrolada.
kazi: Quem faz algo parecido com isso no cinema é o Woody Alen…
laerte: Woody Alen, é, também. O Woody Alen elabora bem mais, ele constrói histórias e coisas mais complicadas. Mas ele tem por exemplo esse personagem que é sempre ele, a auto-referência.
kazi: Mas então, tem isso de você querer mostrar o real através do absurdo?

Outra tira do Condomínio

laerte: Certo, eu concordo com você, tem sempre o real, é o que sobra. É como o monstro do elevador, às vezes o monstro existe mesmo, às vezes não existe. Agora tem uma história em que ele vê o monstro mas é uma estudante de psicologia, que é uma personagem que apareceu numa piada só, mas me parece um personagem engraçado. É uma estudante de psicologia bem rastaqüera, assim, bem má estudante, sabe, ela pega aqueles conceitos assim…
kazi: Chuta pra caramba…
laerte: Chuta pra caramba, mas faz a pose toda. [risos] Mas é a única coisa que o sujeito tem pra se segurar, quer dizer, esse personagem que vê o monstro no elevador ele faz análise, ele tem um terapeuta, mas ele tá pronto pra se segurar em qualquer negócio.
kazi: Você chegou a morar em prédio?
laerte: Já, já morei em prédio.
kazi: E os personagens específicos, tipo… Fagundes, você chegou a dizer que tirou o sorriso do Maluf e construiu…
laerte: É, era o sorriso do Maluf.
kazi: Aquele sorriso hipócrita…
laerte: Era uma coisa que aparecia sempre do mesmo jeito.
kazi: Me lembra do Sienkiewicz, na Elektra Assassina, a cara do presidente, que é um carimbo, ele tem duas poses só, o sorriso da TV e a cara séria.
laerte: Ah, sim, é.
kazi: E o Fagundes tá sempre sorrindo. E é um personagem pelo qual você parece ter muito carinho.
laerte: É porque é muito do que eu sou, eu tenho um componente de puxa-saco que é meio chato. E nesse sentido é legal trabalhar um personagem, até pra se exorcisar um pouco.
kazi: Outros personagens que você parece ter bastante afinidade são os gatos.
laerte: É, os gatos são legais.
kazi: A Gata surgiu primeiro, né? Contracenando com o Zelador.
laerte: A Gata, é. Mas aí era só uma gata, mesmo.
kazi: Aí depois surgiu uma gato e aí eles viraram o Gato e a Gata.
laerte: É, e de vez em quando enche bem o saco e eu fico tentando recuperar o que era a Gata, aquela figura sofisticada e grossa ao mesmo tempo.
kazi: Você publicou o Richard McGuire, também.
laerte: É. Esse cara eu não conheço mais nada dele.
kazi: Esse você tirou da RAW. [revista de Art Spielgman]
laerte: Da RAW, exatamente, porque eu achei aquela história simplesmente do cacete, é uma história em quadrinhos num espaço só. É o tempo passando por aquele espaço, é lindo aquilo. Tanto o Pekar quanto esse McGuire, eu escrevi pros caras, várias vezes, tentando comprar os direitos, fazer as coisas direitinho, mas acabei fazendo pirataria mesmo.
kazi: Você publicou Fontanarrosa, também.
laerte: É, mas aí foi com consentimento. Foi uma pirataria consentida, eu liguei pro cara. Eu perguntei pra ele quanto ele fazia e ele falou nada, manda bala.