Entrevista
Na luta
O começo
Do outro lado da mesa
Colaborações
Fazendo o futuro
Temas delicados
Personagens
Considerações finais

Personagens

kazi: Você diz que não consegue trabalhar personagens, mas você tem o Condomínio que é baseado em personagens…
laerte: Não, mas são centenas de personagens. Eu acabei afunilando em alguns, mas eu não tenho método para trabalhar com eles.
kazi: Mas que você pode, quando enche o saco de algum, botar o personagem de molho e voltar com ele depois.
laerte: É o que eu faço.
kazi: Mas isso não tem como [acontecer] nos piratas porque o Capitão é o único personagem.
laerte: Pois é, nessa peça que eu estou fazendo estão surgindo outros piratas. Eu peguei a história em quadrinhos e tentei resolver esses personagens dramaticamente e acabei achando que alguns deles tavam indo pra uma direção. Então o Jerry, por exemplo…
kazi: Que começou a se diferenciar nas tiras.
laerte: É, e ele é parecido com o Capitão, mas ele é um pouco mais idiota, um pouco mais infantil…
kazi: Por isso que ele não é o capitão.
laerte: Exato.
kazi: Tem um outro personagem que se destacou na história do "Motim".
laerte: Dos "Piratas do B".
kazi: Você chegou a fazer uma HQ com o Líbero.
laerte: É.

Sedução de quem, mesmo?

kazi: Teve um número que você falou muito de censura, por causa do ocorrido com as tiras do Angeli no JB. [alguma tiras foram censuradas]
laerte: É, rolou o negócio do Angeli no JB e tinha aquela materinha do primeiro crime de imprensa no Brasil, que eu tava louco pra publicar faz muito tempo, eu comprei aquele anuário da polícia num sebo, e lá dentro tinha esse artigo, e era um desenho do Angelo Agostini, aí pintou aquela outra notinha daquela australiana que conseguiu processar a mãe porque a mãe teve um acidente [a garota tem alguns defeitos por causa de um acidente sofrido pela mãe ainda grávida]. Então ficou um apanhado geral.
kazi: Mas você tem essa preocupação com censura ou foi mais um negócio de circunstância? Você já teve problemas com censura?
laerte: Eu tenho uma puta preocupação. Nunca fui censurado, assim, eu já tive um monte de detalhes de desenhos alterados ou que houvesse pressão para que eu alterasse. Algumas vezes eu achei razoável, eu sou muito flexível, não sou nenhum Millôr Fernandes, que não aceita que mudem nem uma vírgula dele — e acho respeitável isso.
 Mas o que os caras tavam fazendo com o Angeli era muita sacanagem, tavam mudando, tavam cortando o texto. O que eu acho uma pena, é que esses troços… Devia ser uma coisa simples você abrir um processo ao se sentir agredido dessa forma. O que acontece é que, ou você tira o time de campo e diz "Não quero mais publicar aí.", ou você tem que pegar um advogado, reunir não-sei-quê, juntar um monte de papelada, fazer uma intimação, leva tempo…
 Teve uma Piratas que deu problema, aquela com a capa da Leite Moça. O pessoal da Nestlé escreveu dizendo que eles não iam tolerar isso, mas tavam dando de barato, aquela vez. Mas disseram que qualquer reincidência eles tomariam as medidas legais.
kazi: Mas você usou a figura numa história. Quando o Capitão morre.
laerte: É. Mas eu discuti com um amigo meu, que manja de legislação, e ele falou que dava pra encarar. Tem o direito de sátira, a figura que está desenhado ali não é a moça do Leite Moça, é só uma citação. Você poderia se defender com isso, resta saber se você tem fôlego pra isso, por que a coisa pode se arrastar.
 Aí eu falei, foda-se, se o cara tá só ameaçando, deixa pra lá.
kazi: Nos Estados Unidos a tática é abrir o processo, que vai durar cinco anos e custar um milhão de dólares. Aí o quadrinhista não tem essa grana e acaba se ferrando. E isso funciona como uma porrada nos outros, o cara pensa, antes de publicar a própria revista, que ele não tem o milhão de dólares e não pode perder cinco anos da vida se defendendo, aí a censura aborta a revista antes que ela saia.
laerte: É, o esquema é o mesmo.
kazi: Com a Coca-Cola não deu problema?
laerte: Não. Eu ainda fiquei provocando, dizendo que os caras não pagavam… [risos] Mas era um veículo muito pequeno, com uma circulação muito pequena.
kazi: Qual era a circulação?
laerte: Circulação era 30 mil, vendeu 20 mil. Isso foi o pico, depois caiu, caiu…
kazi: Fechou com?
laerte: Oito ou nove.
kazi: Oito ou nove é o que a Níquel Náusea vende. Não dá pra se manter?
laerte: Daria, mas eu me cansei, entrei em estafa.

Política

kazi: Sucessão, Laerte, você está apartidário, agora?
laerte: Estou apartidário. Eu continuo meio de esquerda.
kazi: Mas você não tem intenção de passar isso pras tuas tiras?
laerte: De vez em quando. Eu fiz umas tiras que era o Gato saindo em busca de participação política. Dá uns "cinco minutos" nele e ele fica puto com a alienação da Gatinha e sai. E ela resume: "Não ganhou ovo da páscoa." [risos] O pior é que eu acho, hoje, é que aquela nobre motivação que as pessoas tinham tá muito mais pra "Não ganhou ovo da páscoa", "brigou com a namorada." [risos], aí vai pro partido. Tá muito mais por aí do que por coisas que eu cismava e pensar antigamente.
kazi: Tinha uma coisa recorrente que era a crítica ao Legislativo (quando você mexia com o Dom Luigi)
laerte: Ah, sim, que ele comprou um deputado.
kazi: E ele recebia um jornalista de brinde.
laerte: Mas esse tipo de crítica é meio provocação, só. Não chega a ser uma linha de pensamento minha, é só uma piada. O grande problema com as piadas é esse: as piadas normalmente se dão em cima de predonceitos, e eu já vi, porque eu já me vi nessa situação, fazendo piadas com as quais nem eu concordo muito, só porque eu sei que a piada é boa, sabe, "perco o amigo mas não perco a piada". O humor tem essa força de se impor. Essa piada alguém vai fazer, deixa eu fazer, mas au não concordo com isso.
 Tem uma tira cuja piada é "os políticos são filhos-da-puta", por extensão, "todos os políticos são filhos-da-puta, há poucas exceções que só confirma a regra", não é bem o que eu penso, eu acho que a atividade política é uma das atividades da natureza humana. Que há um bando de safados lá dentro, é evidente que há, como há um bando de médicos safados, de advogados safados…
kazi: Quadrinhistas…
laerte: De quadrinhistas safados, exatamente. [risos] Tá cheio, em todo lugar. Mas a piada carrega essa coisa também de buscar uma determinada audiência, e ele se dá muito bem com quem concorda com ela, a piada se realiza em cima de um público que concorda com as teses dela.
kazi: E nem sempre é um comentário que se arroga "verdade".
laerte: Pô, mas você tá falando que político isso, que político aquilo, você acha isso mesmo? Não é bem assim, porque o momento da discussão racional é outro, o humor é um salve-se quem puder, é um pega pra capar, não é um momento de discussão racional de coisa nenhuma, é um momento exatamente de transgressão.
kazi: Mas ele já foi, na época do Pasquim.
laerte: Foi isso que esculhambou com o Pasquim, porque as pessoas achavam ótimo que uma coisa estava sendo dita ali porque não tava sendo dita em lugar nenhum, mas não amavam aquilo. Aquilo não batia. As pessoas se apaixonavam por quem, pelo Chico Anísio. O Chico Anísio fazia piadas horrorosas mas ele era amado, ele falava a língua.
kazi: E continua assim?

Charge para a Folha de São Paulo

laerte: Não, eu acho que hoje já tem um outro campo. Acho que o Caruso, gente que tá trabalhando a charge política em especial, já fala uma linguagem onde há uma correspondência muito maior entre o que o sujeito pensa, aquilo que está sendo dito e o que o leitor pensa. Então a charge funciona meio pra catalizar isso.
kazi: Você acha que o quadrinho e a tira…
laerte: Quadrinho já é um terceiro troço, um momento de narrativa…
kazi: Então o Donnesbury
laerte: Donnesbury é uma exceção. Eu gosto de Donnesbury, as pessoas gostam de Donnesbury, mas é uma coisa que é marginal dentro da linguagem de quadrinhos, ele tem a existênciadele completamente justificada por ser uma natureza diferente dentro de um campo onde a regra é outra. Acho legal isso, funciona, temos lugar para todo mundo, mas existe uma outra linguagem que é o veículo principal dos quadrinhos, que é Calvin, que é a permanência das coisas. Robô. O Robô, por exemplo, é super datado.
kazi: É datado, mas é bom.
laerte: É legal pra caralho.
kazi: O Dilbert também faz coro ali.
laerte: O Dilbert eu já não acho tão engraçado.